Práticas ultrapassadas na lida dos cavalos de corrida
Da mesma forma que a saúde humana, a medicina veterinária sempre conviveu com métodos de tratamento inusitados.
Alguns deles eram modismos que duraram pouco, mas outros ultrapassaram gerações e até séculos.
Pelo turfe passaram vários, muitas vezes com o mesmo tempo de duração do marketing de alguns vendedores de serviço, dos donos das técnicas.
O cavalo de corridas é um atleta e sofre muito com lesões esqueléticas: é nesta área que os modismos proliferam.
Nos meus primeiros anos de Jockey ouvi falar – mas nem conheci – as agulhas radioativas, que eram aplicadas sobre as áreas lesadas.
No mesmo início dos anos 1970 apareceu em Belo Horizonte um veterinário gaúcho (eu até me lembro do nome, mas acho mais adequado falar do pecado do que identificar o santo) que se propunha a fazer uma cirurgia para retirar um osso “inútil” dos cavalos para evitar os prejuízos em caso de fratura.
Melhor explicar: a História Natural ensina que o cavalo já teve cinco dedos, depois evoluiu para três e agora só tem um, mas ainda existem vestígios do segundo e do quarto na canela, nas laterais do grande osso metacarpiano.
Ocasionalmente, este osso rudimentar (também conhecido como acessório) quebra e interrompe temporariamente a carreira do cavalo.
O detalhe-chave é que esta fratura ocorre em um percentual insignificante, e a opção pela cirurgia preventiva só seria racional durante um acesso de irracionalidade de um pessimista patológico.
Por modismo, ou por desconhecimento, ou por pessimismo patológico ele operou vários cavalos naqueles tempos há muito idos.
Outra prática que persiste há séculos e séculos é a sangria: na falta de um bom diagnóstico, o recurso é retirar, e depois atirar literalmente pelo ralo, alguns litros de sangue.
Até alguns veterinários defendem a teoria que o ato produz um choque fisiológico positivo, levando o organismo a acelerar o metabolismo para suprir a perda, ocasionando uma melhoria que persiste mesmo depois da recuperação.
O aspecto negativo é que a sangria é usada de forma rotineira e frequente por cuidadores de cavalos: além do óbvio desconhecimento da medicina veterinária, eles trabalham sob pressão por melhores resultados e menores gastos.
Retornando às mais frequentes lesões esqueléticas, a técnica da cauterização química tem um pouco mais de eficiência do que a sangria, mas também padece do mau uso.
Ela consiste em aplicar produtos químicos na pele, sobre o osso ou a parte inflamada deste.
A filosofia do funcionamento é a mesma: o estímulo fisiológico.
Acreditam os especialistas que o cauterizante químico produz forte inflamação na pele e vai levar o organismo a se mobilizar para resolver o problema.
Como a lesão óssea está contígua, ela também se beneficia desta mobilização local e o tempo de recuperação se acelera.
Usei este procedimento algumas vezes e não tenho dúvidas de que funciona: é um adjuvante do tratamento, jamais um “curador milagroso”.
Mas muitos cavalos já sofreram miseravelmente nas mãos de leigos que agiram como os antigos curandeiros populares: por desconhecimento ou ignorância aplicaram os produtos errados, ou do jeito errado.
Meu contato cotidiano com eles, principalmente nos galpões e cocheiras dos hipódromos brasileiros, me ensinou que os cuidadores leigos associam a agressividade do cauterizante à sua eficiência: quanto maior a lesão da pele, melhor para a cura.
Em resumo: acham que se a pele não ficar ferida, é porque não funcionou.
Se a ferida for grande, extensa e feia, seu cauterizante ganha fama.
E o sofrimento do cavalo se transforma em cruel alegria para o seu pretenso protetor e cuidador.
Fecho com um pequeno exemplo:
Antônio de Oliveira Santos, o Dudu, foi jóquei, treinador e funcionário administrativo nos dois hipódromos de Belo Horizonte entre os anos 1940 e 1990, e até hoje é lembrado como “inventor” de um cauterizante que “arrebentava” a pele.
Espertamente ele difundiu o apelido de “formigueiro” e nunca contou a fórmula, que desapareceu com a sua morte.
Seus contemporâneos sem conhecimento técnico ainda se recordam que era o “remédio para queimar” que provocava as maiores e “mais perfeitas” feridas que eles conheceram.