Márcio de Ávila Rodrigues

Mídia


 
 

O entrevistado faz uma crítica dura, mas contra um órgão público que não conhece...

O jornal Estado de Minas, o de maior tiragem do Estado, produziu uma reportagem algo escandalosa no último domingo (22/11/09) sobre os editais de concursos públicos suspensos pelo Tribunal de Contas de Minas Gerais.

Curiosa a decisão editorial quanto ao destaque: só o título “Tribunal suspende 77 concursos em Minas” ocupou quatro linhas em letras garrafais da parte superior da primeira página, praticamente 40% do espaço vertical.

Analisando a matéria sob a ótica da técnica jornalística, o trecho mais curioso saiu na página 4, sob o título “Vaivém de processos”.

Naquele trecho, o entrevistado é o chefe do Departamento de Recursos Humanos da prefeitura de Maravilhas, Miguel Tavares, que disse para a reportagem a seguinte pérola: “não conheço o tribunal, mas já me disseram que lá, para um office-boy levar um documento de um setor para o outro, demora um mês”.

Pergunto: qual é a relevância jornalística de se publicar uma declaração crítica e dura mas ilógica, resultante de uma brincadeira ou ironia, de alguém que afirma não conhecer o órgão criticado?

E esta foi a matéria de destaque da edição dominical, o dia de maior vendagem da semana.



Escrito por Márcio às 11h48
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Alguns casos de fraudes na fotografia jornalística brasileira

O jornalista Sérgio Buarque de Gusmão publicou, entre 1995 e 2000, uma revista eletrônica sobre a mídia com o nome de Boletim do Instituto Gutenberg.

Editou 34 números, sendo que os 20 primeiros também foram impressos.

Em 1999 ele escreveu um artigo intitulado “O polvo dialético” (como ele gosta de títulos pomposos...) para a efêmera revista Jornal dos Jornais falando sobre as fraudes na fotografia jornalística.

Transcrevo abaixo alguns casos interessantes:

à (...) a propósito de uma foto distribuída pela agência de notícias Reuters em 14/1/99, dia em que disparou a desvalorização do real. A foto documentava uma cena trivial no Brasil: estóicos contribuintes aglomeravam-se numa agência do Banerj, no Rio, para pagar o IPVA de seus carros. A legenda mudou a interpretação da cena: "Brasileiros formam uma longa fila no lado de fora da porta de um banco no Rio", dizia, na primeira linha, relacionando a aglomeração com a "profunda crise financeira" do país. A conclusão óbvia era a de que as pessoas acorriam ao banco para sacar reais ou trocá-los por dólares. A foto era verdadeira, mas a legenda, mentirosa.

à A repercussão ainda estava quente quando, em 25/1, o Jornal do Brasil estampou em quatro colunas uma foto da agência France Press mostrando uma criança numa escada de Pequim, ao lado de um caneco. A foto ilustrava um artigo sobre pedintes, desemprego ou queda de renda na China? Nenhuma dessas coisinhas miúdas. A reportagem, creditada à agência EFE, informava que as autoridades chinesas temiam repercussão da crise brasileira em sua economia. Como um polvo dialético, a legenda serpenteava: "Menina pede esmolas nas ruas de Pequim, onde o governo garante que não haverá mudança na economia, muito menos na política cambial".

à O inequívoco caráter documental da fotografia tem sido subvertido por práticas antiéticas na produção e registro de cenas jornalísticas. É comum fotógrafos produzirem informação ou ajeitar a cena para obter a imagem desejada. Há os que fazem uma pré-produção, agindo como um diretor de teatro que coordena a postura dos atores. A revista O Cruzeiro, a Veja dos meados do século, imprimiu um disco voador no céu da Barra da Tijuca, no Rio, numa produção de Ed Keffel e João Martins. Outra dupla famosa da revista, Jean Manzon e David Nasser, flagrou o deputado Barreto Pinto de casaca e cueca. O deputado alegou que estava se vestindo, os repórteres disseram que ele posou, mas ao final do bate-boca Barreto Pinto foi cassado por indecoro parlamentar.

à Em março de 1998, o jornal carioca O Dia foi acusado de montar uma foto do mecânico O. e sua mulher S. cheirando cocaína espalhada sobre a Bíblia. Com eles estava o filho J., de oito anos. A reportagem integrava a série "Os filhos do vício". O governador Marcello Alencar mandou investigar o crime do mecânico. A versão de O. para a polícia: o repórter Rodrigo França deu-lhe R$ 50 para se deixar fotografar fungando um pó branco que na verdade era maisena. O repórter, apoiado pelo jornal, admitiu ter dado o dinheiro, mas sustentou que o pó era cocaína.

à Há casos em que a fonte diz que se arrepende de montar a cena para a foto. O comerciante Carlos Farinha, dono de uma loja de CDs importados, deplorou na seção de cartas da Folha de S.Paulo (22/1) que foi induzido pelo fotógrafo Eduardo Knapp a fazer um cartaz sob medida para a reportagem "Preço de livro e CD sobe até 30% em São Paulo". Segundo Farinha, o fotógrafo pediu que ele escrevesse e pregasse na vitrine um aviso de que os preços dos CDs importados estavam em dólar. "Sendo assim e sob orientação do fotógrafo, afixei o cartaz na vitrine da loja apenas para que as fotos fossem feitas, sendo imediatamente retirado após isso." Knapp rebateu: "...foi dele a iniciativa de colocar um aviso na vitrine. Em momento algum isso lhe foi pedido. Esperei que ele fizesse o cartaz, fiz a foto e fui embora." É a palavra de um contra a do outro, mas, em ambas as versões, fica patente que o cartaz não existia antes da chegada do fotógrafo, e se foi retirado ocorreu aí uma fraude.

à O ilusionismo é tradicionalmente enriquecido com o recurso da fotomontagem. Exemplo: em 28 de novembro de 1977 a revista Manchete chegou às bancas soltando rojões: " Exclusivo – A verdadeira origem do homem – O antropólogo Richard Leakey e sua descoberta, o Homo Habilis". A foto exibia Leakey, respeitabilíssimo arqueólogo, ao lado de um africano com uma máscara simiesca. Anos depois, o editor Roberto Mugiati se disse surpreso com o efeito do estelionato: "A capa vendeu 95% da edição e – curioso – em muitas regiões do interior do Brasil os leitores acharam que retratava, fielmente, uma variedade perdida da raça humana".

à A manipulação de imagens tem sido farta na TV, por edição e dramaturgia. Os jornalistas precisam levar em conta que sua presença altera o comportamento das fontes e, por conseqüência, dos fatos que vão narrar. É comum a cena ser inspirada pela filmagem. Quantas vezes já não vimos torcedores ou foliões passarem da abulia à ebulição ao virem a câmera, e só então o repórter afirmar: "Reina grande animação aqui..."

à A TV Globo é mestra em preparar textos que trombam com as imagens. Um dos mais rumorosos foi o das "torneiras de ouro" da casa do embaixador Marcos Coimbra em Miami. Não passavam de lata dourada.

Para acesso ao artigo, CliqueAqui.



Escrito por Márcio às 15h53
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Existe uma ditadura da imagem nos meios de comunicação

Até a metade do século 20 a imagem não passava de uma parte acessória, periférica, da comunicação social, da mídia.

O motivo era exclusivamente técnico: a limitação da tecnologia então existente.

A melhoria da impressão gráfica nos anos 1960 e 70 promoveu a expansão da imagem estática (fotográfica) na mídia impressa.

E a posterior evolução da televisão e da internet valorizou a imagem dinâmica, indispensável para satisfazer o público e aumentar a audiência.

A estética tornou-se um diferencial: o público aumenta junto com a qualidade da imagem.

Para obter uma imagem espetacular, o fotógrafo (ou cinegrafista) conta com o talento e com a sorte.

Mas também é frequente a interferência artificial do autor; no caso da fotografia, a esperteza na “composição” do quadro.

Ele  não explica para o público – às vezes, nem para seus próprios chefes ou editores – que alterou o cenário ou a atitude e posição das pessoas que aparecem nas imagens.

O IMPACTO DO VIDEO

O jovem século 21 atravessa o seu momento de expansão da imagem dinâmica, do vídeo; aos tradicionais canais de tv em vhf juntam-se a tv a cabo, os canais de uhf, as parabólicas, a internet.

A imagem forte e impactante é o grande diferencial pra o sucesso, para os picos de audiência.

É tão essencial que exerce um domínio ditatorial sobre a reportagem, notícia ou matéria.

Teriam os atentados de 11 de setembro de 2001 o mesmo impacto se as câmaras não estivessem transmitindo suas consequências ao vivo, mostrando toda a dramaticidade?

No Brasil, um bom exemplo foi o Pastor Que Chutou A Santa: em 12/10/95 o pastor Sérgio von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, deu pontapés numa imagem de Nossa Senhora em um culto gravado para exibição na televisão, com a finalidade de demonstrar seu desprezo pela sacralização de imagens, mas causou tamanha reação negativa que o próprio líder da seita, Edir Macedo, declarou em biografia que aquele foi o pior momento de sua carreira.

Duas imagens destruíram a carreira do recém-falecido ex-deputado federal Sérgio Naya: a afirmação de que falsificou a assinatura do ex-governador Newton Cardoso (numa reunião com vereadores do interior mineiro) e as ironias sobre as pessoas pobres (gravada por um participante do encontro regado a uísque).

O primeiro flagrante de Naya foi a consequência da mistura da prepotência com o desconhecimento do poder da imagem: contou a história da falsificação da assinatura numa reunião gravada por uma produtora de video.

Já o segundo foi através de uma câmera escondida, consequência da miniaturização tecnológica que permitiu gravar os muitos flagrantes de corrupção política que chocaram os telespectadores e destruíram carreiras.

REPÓRTER INDUZ CRIANÇA AO ERRO

Os jornais televisivos só permitem um bom tempo de transmissão para uma reportagem se as imagens em vídeo estiverem muito boas.

Nem que seja meramente ilustrativa, como aconteceu no Bom Dia Brasil (jornalístico matinal da TV Globo) de 14/08/09: o assunto era o desconhecimento da população sobre a importância do saneamento básico.

Durante a “passagem” do repórter, realizada numa favela não identificada, uma garotinha de no máximo 10 anos pegou uma folha de papel “embolada” e a atirou num esgoto a céu aberto.

O repórter não criticou — e nem poderia — o ato antiecológico da menina, pois certamente havia combinado com ela para fazê-lo no exato momento em que o botãozinho vermelho da filmadora estivesse aceso, recording on.

Dificilmente haverá consequências para o jornalista: a família e os vizinhos da menina não devem ser espectadores fixos do BDB.

Fosse num país de Primeiro Mundo, logo depois da transmissão vários advogados estariam tocando a campainha dos pais da menina, com uma procuração para uma ação de indenização contra a emissora.



Escrito por Márcio às 10h52
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O “manchetismo”, ou a tática de prender o leitor através do título escandaloso

Segunda-feira, 20/09/2009, caiu uma chuva forte à tarde em Belo Horizonte; a rede de transmissão elétrica foi atingida e vários bairros ficaram horas sem luz.

Manchete de capa do jornal Estado de Minas (o de maior circulação no Estado) no dia seguinte, em letras enormes, garrafais: “Temporal alaga, destrói e deixa a cidade em trevas”.

O texto da matéria a respeito, na página 23, é mais brando: Um temporal, com rajadas de vento de mais de 60 km/h, marcou a despedida do inverno ontem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A chuva causou deslizamentos, inundações, queda de árvores e deixou centenas de milhares de pessoas sem energia elétrica. A causa foi a chegada de uma frente fria ao estado e a convergência de umidade, altas temperaturas e muita energia na atmosfera.

A matéria não fala em mortos, feridos ou desabrigados.

No título, destaque para os verbos dramáticos alagar e destruir; na primeira frase do texto, a poética alusão à “despedida do inverno”.

Título sensacionalista é uma tradição secular do jornalismo; o uso da hipérbole – a multiplicação da realidade – faz parte do processo.

Dez ou 20 anos atrás meu pai estava turistando em Caldas Novas (Goiás) quando ouviu a notícia de que Belo Horizonte estava “debaixo d’água”.

Telefonou bastante preocupado e respondemos que realmente chovera horas antes, mas nem sabíamos que estávamos submersos.

De outra feita a TV também anunciou que a cidade de Orlando, nos EUA, estava debaixo d’água, mas não havia vítimas, nem mesmo feridos.

Como poderia uma cidade de mais de 200 mil habitantes, larga e espalhada, estar submersa e não haver vítimas?

Mas a resposta era simples: submersa era uma força de expressão, bem mais força do que expressão.

O fato é que existe uma relação safada entre mídia e público, algo meio sádico-masoquista.

A mídia sabe que o título absurdamente exagerado não vai levar a uma perda de leitores, mas também sabe que nas rodinhas humanas será ouvida à exaustão uma frase do tipo “é por causa destes exageros que vou parar de ler este jornal, só tem mentiras”.

Sábia, repete a dose no dia seguinte, no dia seguinte ao seguinte.

Ad infinitum, ou até a mentalidade de seu público mudar.



Escrito por Márcio às 10h25
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Deputado Edmar Moreira move 44 processos contra a mídia nacional

Existe uma velha história — quase um provérbio — na mídia: se o cachorro morde o dono, é problema da medicina; se o homem morder o cão, então é notícia, é manchete.

O fato é que o público prefere as notícias bizarras às convencionais, e a mídia sai à cata delas para sobreviver.

O deputado federal Edmar Moreira era um político discreto até tomar posse no cargo de corregedor da Câmara Federal; os repórteres decidiram pesquisar se ele tinha uma vida pública imaculada, adequada para o cargo, e rapidamente descobriram que era proprietário de um prédio suntuoso numa área rural da pequena cidade mineira de São João Nepomuceno.

 Parecia um castelo, e assim o caso foi tratado.

A vida do deputado foi devassada, e outras supostas irregularidades foram encontradas.

Mas agora ele partiu para o contra-ataque: segundo a Folha de São Paulo, Edmar Moreira abriu 44 processos contra a mídia.

Também existem processos contra ele mas, como tem foro privilegiado, ou terão tramitação lenta ou serão arquivados.

O que lhe dá grande vantagem: posa de vítima mas não tem condenação definitiva, e isto pesa nos processos de calúnia que está movendo.

Segue uma reportagem da Folha (online) a respeito:

15/09/2009 - 08h27

Dono de castelo move 44 processos contra órgãos de imprensa

RANIER BRAGON, da Folha de S.Paulo, em Brasília

O deputado Edmar Moreira (PR-MG) move na Justiça de Minas Gerais 44 processos em que cobra de vários órgãos de imprensa, locais e nacionais, indenização por danos morais.

Além de jornais regionais e segmentados, como o "Estado de Minas", "O Tempo" e a "Folha Universal", o deputado aciona jornais e revistas de circulação nacional, como a Folha, "O Estado de S. Paulo", "O Globo", "Veja" e "IstoÉ", TVs --"Band", "SBT" e "Record"--, o site UOL (ligado ao Grupo Folha), jornalistas e apresentadores, entre eles José Luiz Datena, Jô Soares, Marcelo Tas e Hebe Camargo.

Edmar foi corregedor da Câmara por sete dias. Ao tomar posse, em fevereiro, defendeu que a Justiça, e não mais o Conselho de Ética da Casa, passasse a julgar os deputados acusados de quebra de decoro. Ele renunciou ao posto uma semana depois e pediu desfiliação do DEM devido à repercussão da notícia de que havia colocado à venda um castelo no interior de Minas Gerais, com torres de até oito andares e 36 suítes.

Réu no STF (Supremo Tribunal Federal) sob a acusação de ter se apropriado de contribuição previdenciária de funcionários, além de ser investigado, também no STF, por suspeita de crime contra a ordem tributária (inquérito que corre em segredo de Justiça), teve processo arquivado pelo Conselho de Ética da Câmara em julho. A suspeita era de uso de verba pública para pagamento de sua empresa de segurança por serviços não prestados.

Edmar afirma que já pagou o que devia ao INSS e diz que construiu o castelo com renda de suas empresas de segurança, tendo o repassado a dois filhos.

Dos 44 processos movidos pelo deputado, 2 já tiveram decisão: um, contra o jornal "Folha Universal", foi julgado procedente, e o veículo foi condenado a pagar R$ 30 mil de indenização, mais a publicação da sentença em espaço proporcional à notícia veiculada. Outro, contra "O Tempo", não foi aceito e Edmar foi condenado a pagar R$ 1.000 pelos honorários e custos do processo. Em ambos os casos, cabe recurso.

Os 44 processos correm em diversas varas cíveis. A consulta pela internet não dá acesso à íntegra. Mas a Folha apurou que a reclamação básica de Edmar é que a imprensa informava sobre o castelo e levantava suspeita de que ele o havia omitido das declarações de renda.

A Folha tentou falar com o deputado na sexta-feira e ontem. Seu gabinete informou que nem ele nem os advogados dariam entrevistas.

A maioria dos processos é contra os jornais mineiros "Estado de Minas" e "O Tempo". No caso da Folha, os processos são contra o jornal, o site UOL e os jornalistas Fernando Rodrigues e Josias de Souza.



Escrito por Márcio às 11h48
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Em memória ao grande jornalista Geraldo Mayrink

Morreu em São Paulo, em 28/08/09, o respeitado jornalista Geraldo Mayrink. Em homenagem, e numa tentativa (mais simbólica do que objetiva) de manter na memória coletiva o seu trabalho, transcrevo a matéria que o jornal Folha de São Paulo publicou no dia seguinte:

GERALDO MAYRINK (1942-2009)

Escrevia sem sofrimento, com humor, graça e leveza

TALITA BEDINELLI

DA REPORTAGEM LOCAL

"Os jornalistas, em geral, escrevem penosamente. Alguns escrevem sem sofrimento nenhum, mas transferem esse sofrimento para o leitor. Geraldo Mayrink produzia coisas notáveis, sem sofrimento para ele ou para quem lia seus textos", afirma o amigo e colega de profissão Humberto Werneck.

Mayrink foi um jornalista completo: capaz de pensar em boas reportagens, realizá-las e editá-las. O resultado final era um texto de absoluta graça e leveza, lembra o amigo. Em 1972, descreveu assim Mané Garrincha para uma reportagem da revista "Veja": "Suas pernas formavam um arco. A esquerda, onde a deformação era mais notável, tinha seis centímetros mais que a outra. Já era um milagre que andasse. Inadmissível que jogasse futebol".

Mayrink começou a carreira em Juiz de Fora (MG), sua cidade natal, no semanário "Binômio", uma espécie de precursor do "Pasquim". Passou pelas redações da revista "Manchete" e pelos jornais "O Globo" e "Jornal do Brasil", no RJ. Mudou-se para a "Veja", em São Paulo, em 1968, após ser convidado pelo jornalista Mino Carta para participar da equipe de fundação da revista.

Exerceu a profissão por 46 anos. Havia três, lutava contra um câncer de pulmão e de boca. Morreu anteontem à tarde, em São Paulo. Deixou a mulher e um casal de filhos. A missa de sétimo dia será quarta-feira, às 9h, na igreja Nossa Senhora de Fátima, em Pinheiros, na zona oeste da cidade.



Escrito por Márcio às 19h36
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Rede Record experimenta várias duplas de apresentadores no Fala Brasil

Sílvio Santos tem a fama, aliás verdadeira, de ser o principal experimentador da televisão brasileira.

Desde que ganhou a concessão de sua rede, que na época se chamava TVS (TV Studios), ele cultiva o hábito de gastar fortunas contratando ou demitindo equipes inteiras, trocar horários e alterar formatos.

Chegou ao cúmulo de extinguir todos os telejornais e, anos depois, recomeçar contratando jornalistas globais por alto salário.

Os concorrentes são mais conservadores nesta prática, mas a Rede Record está imitando o velho apresentador e empresário no seu primeiro telejornal da programação diária.

(Não me lembro de mais ninguém chamando o Senor Abravanel, nome real de Sílvio Santos, de “velho”. O espírito jovem e ativo se une às plásticas para distanciar a aparência da certidão de nascimento.)

A opção da Record para este programa sempre foi pela participação de uma dupla de apresentadores no horário de 7 às 8 horas, em concorrência com o Bom Dia Brasil, da TV Globo.

A grande variação foi na dupla de apresentadores: passaram muitos nomes, de muitos estilos. Infindáveis experiências.

Pelos frequentes elogios nos cadernos de cultura e variedades, parecia que a penúltima dupla ia se firmar: a jornalista Luciana Liviero e o apresentador Marcos Hummel.

Mas já foram substituídos por uma dupla de mulheres jovens e bonitas, as jornalistas Carla Cecato e Roberta Piza.

Parece que a aposta foi num detalhe: a grande semelhança física entre elas, como se fossem irmãs (ver foto abaixo). Ou “japonesas”.

Será que algum mago da programação acredita que uma mera curiosidade possa prender a atenção de um padrão de espectador que tem um discernimento no mínimo razoável, pois afinal é um consumidor de informações?



Escrito por Márcio às 19h51
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Crescimento de jornais populares alavanca mídia impressa no Brasil

O jornalão O Estado de São Paulo segue em confronto direto com a família Sarney por causa de um processo judicial de um filho dele, Fernando, que pediu a proibição de divulgação de notícias negativas (a ele).

O Estadão está fazendo matérias diárias sobre a questão da liberdade de imprensa e no último domingo (16/08/09) publicou uma página inteira com o título “Liberdade de imprensa é prioridade nos 30 anos da ANJ”, de onde pincei os três últimos parágrafos, baseados numa entrevista do jornalista Ricardo Pedreira, diretor executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ):

Na Europa e nos Estados Unidos, a internet é apontada como a causa da queda de circulação dos jornais. No Brasil, o impacto é sentido de forma diferente, principalmente por conta do crescimento dos jornais populares, coincidente com os ganhos de renda obtidos nos últimos anos pelas camadas mais pobres da população. "Não houve canibalização dos títulos mais tradicionais, mas a formação de um novo mercado. Muita gente não tinha renda e hábito de leitura. É fenômeno típico de economias emergentes, também aconteceu na China e na Índia", disse Ricardo Pedreira.

Para a ANJ, ainda é cedo para avaliar o impacto da crise econômica sobre o setor. "Vínhamos até setembro, outubro do ano passado num processo de crescimento de circulação e isso foi interrompido. Mas trata-se de uma questão conjuntural. Felizmente as notícias sobre a economia são cada vez mais positivas, e a circulação dos jornais voltará a crescer", previu Judith Brito [presidente da ANJ].

Sobre a concorrência das novas mídias, Pedreira afirma que é preciso buscar um modelo sustentável. "Nos Estados Unidos criou-se a cultura de que a internet é território da informação livre e gratuita. Isso não fecha. Como é que uma empresa vai produzir seu conteúdo e entregá-lo gratuitamente?" O fato de jornais dos Estados Unidos e da Europa enfrentarem concorrência mais forte da internet pode ser vantajoso para o Brasil, segundo o diretor da ANJ. "Podemos aprender com os erros e com os caminhos que eles percorrerem."



Escrito por Márcio às 19h33
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Ancelmo Gois define o Rio de Janeiro como uma Meca Gay

O colunista de O Globo Ancelmo Góis se permitiu a um terrível cacófato (obviamente proposital) na sua coluna de hoje (02/07/2009), que estampo abaixo.

Um cacófato meio escatológico.

Deixo as críticas – pró ou contra este deslize de linguagem – por conta do leitor.

                



Escrito por Márcio às 23h11
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Indicação de um bom blog jornalístico: Cefas Alves Meira

Descobri o blog do Cefas durante as pesquisas sobre a morte do meu ex-colega Luiz Otávio Madureira Horta, o Tatá.

Cheguei a conhecer o Cefas de vista na redação do Estado de Minas, mas creio que nunca conversamos. Como eu não cheguei a trabalhar lá, apenas fazia assessoria de imprensa para o Jockey Club, meu contato sempre foi com o pessoal de Esportes.

Agora fizemos uma amizade internética e saudosista, trocando lembranças de velhos colegas falecidos que deixaram saudade: Achilles Márcio Reis, Fernando Carlos de Carvalho, Túlio Berti, Xoxó, Naeme Mansur.

Achilles e Fernando Carvalho foram diretores do Jockey Club de Minas Gerais e meus preceptores jornalísticos nos idos de 1970 e pouco.

Indico a leitura do blog do Cefas (para acessar, CliqueAqui), que vai ganhar um lugarzinho nas minhas sugestões de links.



Escrito por Márcio às 19h55
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Merval Pereira fala sobre a queda do diploma jornalístico

O jornalista Merval Pereira, que é articulista do jornal O Globo, publicou em sua coluna de 19/06/2009 um artigo com o título “O diploma e o monge” a respeito da queda da obrigatoriedade do diploma jornalístico determinada pelo Supremo Tribunal Federal em 17/06/2009.

Ele explicou o título da matéria logo na abertura: Gostei muito de um comentário do Carlos Heitor Cony em seu programa com o Arthur Xexéo na CBN. Disse ele: "O diploma não faz o jornalista, assim como o hábito não faz o monge".

Selecionei, ainda, os seguintes trechos do artigo (que pode ser facilmente encontrado na íntegra com a ajuda do Google):

Cony completaria a explicação salientando que nós, jornalistas, somos que nem os jogadores de futebol, testados no campo, no dia a dia da profissão. Não adianta ser amigo do técnico, nem ser indicado por amigo do patrão ou do chefe. Se o jornalista não for competente na sua função, não resiste na carreira, ou vai ficar marcando passo. Com ou sem diploma.

A decisão do STF tem a particularidade mais especial de colocar a profissão em sintonia com o movimento de transformação por que passa a profissão, com o advento das novas tecnologias.

Cony ainda deu um exemplo perfeito sobre como, desde sempre, a arte de informar e divulgar acontecimentos esteve ao alcance de qualquer um que tenha uma boa fonte de informação: os relatos de Cristo e seus apóstolos mudaram o mundo.

Concordo também com a definição que saiu da reunião do Supremo, de que o diploma é obrigatório para as profissões que põem em risco a segurança de terceiros ou a segurança pública.

Ninguém se torna ético ou assimila valores morais apenas durante um curso superior de jornalismo ou de qualquer outra profissão, mas este é um ponto em que as universidades de jornalismo têm papel importante: na formação de um indivíduo, que se refletirá no seu exercício profissional.



Escrito por Márcio às 20h29
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Um comercial inteligente e bem dirigido (Nova Schin)

Ocasionalmente algum comercial na TV me encanta. O troféu vai, neste momento, para o da cerveja Schincariol, agora usando o nome comercial de Nova Schin.

Estou falando, especificamente, de um filmete que usa as festas juninas como temática. O rapaz quer se aproximar da garota e escreve um bilhetinho bem caipira, com este texto que ela lê, a princípio animada, depois irritada:

— Você gatinha, mas está a perigo. Quer desencalhar comigo?

Ela responde alto, como se estivesse falando com ele: “Vai pra...”

A imagem volta para ele, que pisca o olho como se aquilo tivesse sido um sonho e a seguir aparece tomando cerveja com a Gatinha a Perigo.

Espertos os criadores do filme, que optaram pelo tradicional final feliz.

O mérito maior foi na escolha da gatinha, uma lourinha bonita que dominou o comercial com o sotaque caipirês e suas caras e bocas adequadas, na proporção exata.

O comercial está no YouTube, e o link é CliqueAqui.



Escrito por Márcio às 21h12
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Jornalista José Luiz Datena, um brigão assumido

Muita gente boa defende a autenticidade extrema no relacionamento humano, o direito de falar o que se quer, ainda que soe ofensivo.

Não concordo. Vivemos em sociedade, o coletivo é mais importante que o particular.

Neste sentido, impressiona a entrevista que o jornalista José Luiz Datena concedeu ao caderno TV do jornal Estado de Minas de hoje (07/06/09):

A briga de José Luiz Datena com Gilberto Barros em uma churrascaria há pouco mais de uma semana voltou a colocar o apresentador da Bandeirantes sob os holofotes, menos por seus feitos no programa Brasil urgente, na Rede Bandeirantes, que por seu temperamento explosivo.

"Amigo dificilmente dá bronca em mim, mesmo porque eu não tenho quase nenhum. Meu último grande amigo, que não tenho contato diário, é o (jornalista Jorge) Kajuru. Ele é como eu. Os caras lá achavam a gente uma dupla meio explosiva. Não concordo. O saco é que você paga caro por ser sincero. Tem gente que você não gosta e tem de tolerar. Eu não tolero quem não gosto. Por isso eu estou aqui nesse buraco (seu camarim na Band, longe da redação). Eu tinha uma sala de vidro lá na redação, as pessoas olhando para mim, e sentia que tinha 90% que não gostavam de mim. E eu não faço questão nenhuma de ser agradável com os caras. Sei que o cara está me olhando e quer me f... E se falar comigo, falo logo “sai fora”. Não sei quanto tempo tenho de vida ainda e quero aproveitar esse tempo de forma sincera."

"Tenho 52 anos e meus horários estão complicados. Acordei às 4 da manhã. Fiz uma cirurgia grande há uns três anos (para retirar) um tumor no pâncreas, que por sorte não era cancerígeno. Não sou um zero-quilômetro. A cabeça está legal, o corpo não. Eu tomo uma série de medicamentos para pressão que me deixam meio calmo. Tem hora que quero gritar (no ar), mas não consigo."

Cruzes!



Escrito por Márcio às 23h07
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Jornal incentiva o contribuinte a desistir de devolução no imposto de renda

A função da mídia é orientar é beneficiar o público, mas o jornal Estado de Minas, pelo menos nesta questão da restituição do imposto de renda retido irregularmente sobre férias de trabalhadores, continua trafegando na contramão.

E escolheu este assunto como manchete principal dos dias 5 e 24 de maio deste 2009, sendo o último um domingo, o dia de maior circulação e alcance do jornal.

Mas a opção foi pelo terrorismo fiscal, como se depreende do primeiro parágrafo da matéria de capa (24/05/2009):

Trabalhadores que tiveram desconto sobre as férias vendidas entre 2003 e 2007 têm direito a restituição dos valores, conforme informou o fisco recentemente. O valor estimado para devolução é de R$ 2 bilhões. Para receber parte desse dinheiro é preciso fazer declarações retificadoras. Mas deve-se pensar duas vezes. Se o empregador não enviar a confirmação dos dados, o que é facultativo, o contribuinte vai cair na malha fina.

Por toda a página 12 estampa uma entrevista com o o supervisor nacional do Imposto de Renda, Joaquim Adir, de título assustdor: “O trabalhador vai cair na malha fina”.

A abertura ficou na medida para desestimular o contribuinte a recuperar o dinheiro que lhe foi equivocadamente tomado pelo governo brasileiro através da Receita Federal, seu braço arrecadador:

Quem tem direito à devolução do Imposto de Renda (IR) pago a mais sobre a venda de férias deve pensar duas vezes antes de entrar com a retificadora. A chance de cair na malha fina é grande, se os dados da declaração não baterem com os informados anteriormente pela empregadora.

Mais adiante, a repórter apresenta uma questão ao representante do Leão: “Há comentários de que a Receita está dificultando a devolução do imposto porque não quer devolver mesmo”.

É para atordoar qualquer contribuinte.

Repito as obervações do post de 05/05/09 sobre a primeira matéria, também manchete de capa do Estado de Minas: a Receita Federal não tem capacidade operacional para fazer uma verificação ampla sobre este assunto.

Auditores são profissionais caros: eles só fazem o exame detalhado das declarações de uma pequena amostragem dos contribuintes e, se este novo grupo for incluído, vão deixar de examinar casos claramente suspeitos, financeiramente muito mais importantes para o governo federal.



Escrito por Márcio às 19h31
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Uma arapuca para o contribuinte ou para o leitor?

Recentemente a Receita Federal anunciou que devolverá cerca de dois bilhões de reais aos contribuintes que venderam 10 dias de férias aos seus empregadores nos últimos anos, indevidamente recolhidos.

O jornal Estado de Minas de hoje, 05/05/2009, mancheteou o assunto e anunciou na capa, em letras garrafais “Receita arma arapuca para contribuinte”.

Lendo a matéria com atenção, percebo que a escolha da palavra arapuca é um exagero, segue o velho refrão jornalístico de carregar nas tintas do título, que é o chamarisco do leitor.

Esta é a suposta arapuca: “A mesma instrução normativa que dá o direito ao contribuinte de receber o dinheiro de volta torna facultativa a decisão ao empregador. Se a empresa se recusar, o empregado corre o risco de cair na armadilha do Leão. Explica-se. Como os dados informados na retificação do trabalhador não vão bater com os já informados pela empresa em anos anteriores, ele vai cair na malha fina.

A abordagem da reportagem vai acabar prejudicando os contribuintes mais assustadiços e beneficiar indevidamente os cofres públicos: por medo do Leão, muita gente que tem este direito vai optar pelo prejuízo.

Um exercício de raciocínio lógico derruba a armadilha: a Receita Federal não tem capacidade de contratar e treinar auditores com a finalidade específica de examinar as declarações destes muitos milhares de contribuintes.

Seus avançados programas de computação vão, certamente, excluir da malha fina os casos abrangidos pelo equívoco dos 10 dias de férias.

Auditores são profissionais caros e raros: eles só fazem o exame detalhado das declarações de uma pequena amostragem dos contribuintes e, se o grupo da arapuca for incluído, eles vão deixar de examinar casos claramente suspeitos.

Por parte do governo, são dois graves erros: o recolhimento indevido de um dinheiro do cidadão e a transferência do ônus para a vítima, que precisa refazer as declarações de renda (2004 a 2007) para recuperar o que lhe foi tirado.

Mas a reportagem poderia ter evitado um caminho que vende mais jornal mas desinforma e assusta o leitor.



Escrito por Márcio às 09h59
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Márcio de Ávila Rodrigues é médico-veterinário e jornalista. Reside em Belo Horizonte-MG, Brasil, onde nasceu na década de 50.




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