Os jornais cobram muito caro e exploram os parentes nos anúncios de óbito
Seção de obituários dos grandes jornais, a pior fonte de informações sobre óbitos
Quando um desavisado procura a seção de obituários de qualquer jornal, ele pode concluir que já foi inventada a vacina contra a morte.
No jornal O Estado de Minas de ontem (29/08/2008) apareceu um único anúncio de óbito, e de autoria da própria empresa, pois se referia ao jornalista Wagner Seixas, ex-editor do caderno (Gerais) que veiculou a notícia.
Os outros quatro anúncios do obituário que apareceram na página 32 eram de missas de sétimo e trigésimo dia, e um do quinto ano de uma família saudosa.
No mesmo dia, a situação era pior nos dois principais concorrentes do EM: O Tempo não anunciava qualquer falecimento e o Hoje em Dia só anuncia os óbitos informados por uma funerária, com a qual tem convênio (eram dois, um deles o de Wagner Seixas).
Considerando que o Estado de Minas é o mais importante jornal de um Estado ocupado por 20 milhões de almas vivas, podemos concluir que as pessoas não estão morrendo?
Ou, então, que a imprensa está informando mal, e pouco...
Mas um pedido de orçamento ao departamento comercial de qualquer jornal encaminha para outra conclusão: custa caríssimo cumprir o singelo dever de avisar os amigos.
A imprensa adotou, talvez definitivamente, a ilógica lógica capitalista de que é preferível ganhar muito dinheiro com poucos clientes, do que pouco com muitos.
Nenhum órgão governamental, que eu saiba, tentou fazer este papel, ocupar este espaço, criando uma fonte-central de informações.
Um empreendedor esperto apareceu na internet tentando ocupar este nicho e criou o site www.obitosbh.com.br.
Cobra 100 reais por anúncio.
Está tentando tornar o seu serviço conhecido através de publicidade na mídia tradicional, como os outdoors, mas tenho dúvidas quanto ao sucesso.
Por ser de baixo investimento, pode até dar um lucrinho para o dono da idéia, mas duvido que vire uma fonte de consulta de grande alcance.
Para piorar, o assunto morte é quase um tabu, provoca medo, preocupação.
Parece mórbido consultar diariamente uma fonte de informações sobre óbitos...
Sem interesse da população, dificilmente alguém vai conseguir criar uma Super Central de Informações de Óbitos e nós vamos continuar a descobrir o desaparecimento de amigos, e até de parentes, muito tempo depois.
Ou nem tomar conhecimento da infausta notícia.

Valparaíso, antiga capital federal do Chile, e ainda hoje a capital legislativa, é uma cidade em dois planos: ao nível do mar, a empresarial; nos morros, a residencial. Num dos pequenos bairros do morro, agradáveis e bem recuperados, encontrei em 2006 o aviso fúnebre acima, com o seguinte texto: Se comunica a los vecinos del cerro, el sensible fallecimento del Sr. Eduardo Gonzalez H. (Don Lalo) (O.E.P.D.) sus funerales serán mañana domingo, a las 14:30 hrs. em la Iglesia de nuestro cerro Los Carmelitas. La família.
Categoria: Mídia
Escrito por Márcio às 19h45
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Dunga atribui baixa popularidade a Galvão Bueno
Globofobia = ódio à TV Globo
É muito curioso o sentimento de globofobia que existe em substancial parcela da população brasileira.
Globo = Rede Globo de Comunicações; fobia = antipatia, ódio.
Boa parte da globofobia cai na conta da Teoria da Conspiração, na procura de um fator externo possuidor do poder – e do desejo – de influenciar o povo na direção dos interesses dos donos do capital.
Mas há quem não goste dela por causa da liderança de seu carro-chefe, a televisão.
Liderança já antiga e tão destacada que determina uma influência que fere interesses.
Nas semifinais do torneio olímpico de futebol, a seleção brasileira foi facilmente derrotada pela Argentina por três gols a zero.
No dia seguinte, a imprensa noticiou que o técnico Dunga atribuía ao locutor Galvão Bueno e à equipe de esportes da TV Globo uma campanha negativa contra ele.
Mas acompanhei o torneio pela Globo e não observei nada além dos comentários adequados: elogios aos acertos, críticas aos erros.
A seleção fracassou no jogo contra a Argentina, gerando muitas críticas e nenhum elogio.
Toda a mídia reagiu igual, mas a TV Globo alcança um público muito maior que a concorrência.
Em conseqüência, o fracasso de Dunga tem nela a sua maior difusora, pois a absoluta maioria das pessoas que acompanharam o jogo ouviram a narração e os comentários emocionados de Galvão, e os comentários técnicos, discretos mas também críticos, do ex-jogador Falcão.
Na cabeça de Dunga, se a TV Globo não tivesse o alcance que tem, o público se dividiria entre opiniões distintas, não sofreria a influência de uma única pessoa, ou de um único meio de comunicação.
É o ônus do sucesso, em qualquer atividade: palmas e vaias se dividindo, carreando admiração e ódio.
Categoria: Mídia
Escrito por Márcio às 14h04
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Policiais das operações-de-nome-bonito algemam presos e afrontam STF
Quando a algema só tem a patológica função de humilhar... (II)
É decepcionante perceber, mais uma vez, que nossa sociedade é tão atrasada que obriga sua mais alta corte de Justiça a realizar longa sessão com a finalidade de exigir que órgãos inferiores apenas cumpram uma lei vigente, baseada num costume internacional.
Aconteceu no dia 07/08/08, quando o Supremo Tribunal Federal limitou o uso de algemas aos casos em que há risco de agressão ou fuga.
Em suma: reafirmou que a algema é um equipamento de segurança, o que deveria ser ponto pacífico.
Mas o espírito retrógrado voltou a se manifestar cinco dias depois, quando a Polícia Federal prendeu e algemou 32 pessoas suspeitas de envolvimento com corrupção, na Operação Dupla Face.
O delegado responsável ainda levou a imprensa para fotografar e filmar a humilhação aos presos.
Deixou clara sua postura de confronto e desafio ao STF.
A decisão de algemar parece ter sido tomada pelo delegado federal em Cuiabá, Luciano de Azevedo Salgado, que se aproveitou de um detalhe burocrático: a decisão do STF ainda não foi devidamente redigida e publicada; portanto não está em pleno vigor.
A Psicologia e a Sociologia são úteis na análise do caso.
Pela Psicologia, o ato faz lembrar a atitude infantil-adolescente de desafiar os pais, de negar o proibido para mostrar um suposto poder e testar a capacidade de reação do mais forte.
Já a Sociologia explicaria o caso como a atitude social de recusa à hierarquia, da disputa exacerbada de poder; enfim, da incapacidade de uma sociedade em lutar pelo objetivo de promover a organização de classes e funções e alcançar uma distribuição funcional harmônica.
E o Terceiro Mundo segue mais perto do espelho do que do Primeiro Mundo.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 19h46
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Traição no STF: Ministro Marco Aurélio incita os demais a criticar a filha do Ministro Cezar Peluso
Quando a algema só tem a patológica função de humilhar... (I) Em tese, as algemas são um equipamento policial destinado a submeter os prisioneiros perigosos, que podem colocar em risco a vida do policial. Contrariando este conceito, as operações da Polícia Federal de alcance midiático levam para os aparelhos de televisão as imagens de presos algemados de periculosidade zero, como banqueiros e políticos cinqüentões e sessentões, que só sabem manejar a arma virtual da corrupção. No dia 07/08/08 o Supremo Tribunal Federal decidiu limitar o uso de algemas aos casos em que há risco de agressão ou fuga, isto é, apenas determinou o cumprimento da legislação vigente, da prática correta da atividade policial. Durante a sessão, o caso mais curioso e incrível aconteceu com o Ministro Cezar Peluso, que criticou duramente uma juíza que determinou o uso de algemas em um réu de um julgamento. Depois do julgamento, a imprensa descobriu que a juíza era filha dele que, aparentemente, não conhecia este detalhe. Mas liguei o acionador da Teoria da Conspiração e concluí que o incidente foi provocado pelo Ministro Marco Aurélio Mendes de Farias Mello, o relator do processo. A praxe nos tribunais é de os julgadores acompanharem o relatório elaborado por um deles, o relator, e votar sem ler o conteúdo do processo. O relatório de Marco Aurélio não trazia (que coincidência!) o nome da juíza que havia presidido o caso (um pedreiro condenado por homicídio) e os membros do STF a criticaram por determinar que o réu acompanhasse algemado o próprio julgamento. O próprio Cezar Peluso foi muito duro, sem saber que magistrada criticada se chamava Glaís Peluso. É difícil de acreditar que a assessoria de Marco Aurélio, ao elaborar o relatório, não tivesse percebido o sobrenome da juíza, que inclusive é bastante raro. Acrescente-se o passado jurídico e familiar de Marco Aurélio: chegou ao STF pelas mãos de seu primo Fernando Collor e lá foi responsável por várias picuinhas e também por decisões equivocadas, como a libertação do banqueiro Salvatore Cacciola em 2000. (Cacciola aproveitou o habeas corpus e fugiu para a Itália, sendo recapturado apenas em 2007.) A mídia nunca falou em confrontos pessoais entre os dois ministros, mas deve-se levar em conta que Cezar Peluso foi o responsável por um dos mais duros atos do Judiciário brasileiro: chegou a mandar para a prisão os desembargadores José Eduardo Carreira Alvim e José Ricardo Regueira, além do juiz Ernesto da Luz Pinto Dória, durante a Operação Hurricane, em abril de 2007. Naquele mesmo mês, o STF decidiu, por 9 votos a 1, remeter o processo para Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e para o Superior Tribunal de Justiça (STJ) para permitir a punição dos magistrados. O único voto contrário foi de Marco Aurélio.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 22h36
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Jornalistas maltratam ginastas brasileiras
Folha de São Paulo afirma que jornalistas maltratam a ginasta Jade Barbosa para provocar choro
Numa rara matéria em que a mídia se critica, num raro caso de anti-corporativismo, a Folha de São Paulo fez uma matéria em 10/08/08, com o título “Pronta para chorar”, que deixa alguns jornalistas (não nominados) com a pecha de desumanos.
Garante que eles maltratam a ginasta Jade Barbosa para abalar seus nervos e provocar o choro, para enriquecer as imagens televisivas.
Quando não maltratam, no mínimo apelam para sua emotividade, lembrando de sua mãe falecida.
Selecionei os seguintes trechos:
Apesar de público e mídia cultivarem a percepção de uma “Jade ingênua, frágil”, a atleta revela ter plena noção de que, por vezes, é usada.
“Os repórteres usam a morte de minha mãe para conseguir uma tragédia, algo assim. Para me fazer chorar e conseguir uma reportagem. Então isso apareceu bastante. Falavam dela, e eu chorava."
A cena se repetiu no Pan do Rio. “Alguém questionou: Jade, quando você chegou, pensou na sua mãe, ‘mãe me ajuda?’.” Foi aí que Daiane dos Santos disparou: “Vocês estão querendo fazer ela chorar”.
Após resultados inferiores aos esperados em torneios no exterior, Daniele Hypólito, no início da carreira, era recepcionada no aeroporto com questões como: “Não está envergonhada por decepcionar o Brasil?”.
Já Daiane, após falhar em Atenas e escutar questões que envolviam até seu pai e a frustração olímpica, desafiou a mídia: “Vocês não vão me fazer chorar”. Mas não conseguiu cumprir a promessa.
“Tem duas coisas que eu detesto. Essa coisa de querer fazer chorar a toda hora as ginastas e essa infantilização. Sempre é as menininhas, as coitadinhas”, fala Vicélia [presidente da confederação de ginástica].
Jade diz que, no Pan, só lembrou da mãe, que morreu há oito anos, vítima de aneurisma cerebral, quando levou o ouro. “Ao pensar em minha mãe, penso em coisas que gostava de fazer com ela, quando ela ficava feliz comigo... Não quando estou errando. Tento não fazer dela um objeto para mim, entendeu? Quero só lembrar de coisas boas.”
Para acessar a matéria completa, CliqueAqui.
Categoria: Mídia
Escrito por Márcio às 23h01
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Tradição, Família e Propriedade (III)
Relembrando a atuante TFP – Tradição, Família e Propriedade (III)
Meu único contato pessoal com a TFP – Tradição, Família e Propriedade ocorreu no final de 1971 ou início de 1972, já na minha adolescência.
Naquela época, minha família tinha o saudável hábito de passar férias escolares na Colônia de Férias Sylla Veloso, em Venda Nova, distrito de Belo Horizonte.
A colônia pertencia ao SESC – Serviço Social do Comercio, parte do Sistema S, criado pelo governo Getúlio Vargas para assistência social às classes trabalhadoras do país.
Os associados disputavam, com antecedência, as vagas para os períodos de 15 dias oferecidos pelas suas colônias de férias.
Duas semanas de mergulho completo em uma vida social e esportiva: refeições coletivas, natação, futebol, vôlei, peteca, jogos de cartas, cinema, leituras.
E naquela época sua localização era rural, embora dentro da área da capital do Estado, pois da Pampulha até Venda Nova havia poucas casas, e do centro de Venda Nova, do final da Rua Padre Pedro Pinto até o Sesc, só mato e mata.
Praticamente não tínhamos qualquer contato com a vida urbana de Belo Horizonte até o final da quinzena.
No domingo eram permitidas visitas, e eu recebi duas: o velho amigo Carlos Antônio e o colega Paulinho Gaiola, hoje médico em algum lugar.
Eles me convidaram para conhecer o sítio da TFP, que era ao lado do Sesc, dividindo cercas.
Cursávamos o antigo ginasial (atualmente englobado pela quinta à oitava série do primeiro grau), eles um ano atrás, e o convite partiu de um professor deles, que tentava atrair adeptos.
Ouvimos com fingido interesse as explicações sobre os ideais da TFP, sobre as intenções demoníacas do comunismo; aprendemos que os teefepistas só usavam camisas fechada até o último botão, com ou sem gravata.
Mas só queríamos divertir e satisfazer a curiosidade.
Depois participamos de uma brincadeira, que na verdade era uma simulação de guerra.
O nome era algo como Jogo da Bandeira e envolvia disputas de territórios, tomada de bandeiras e outras situações bélicas.
Meses depois, nosso rescaldo foi aplicar um trote telefônico na TFP.
Eu já trabalhava na Gráfica Editora Delmarco, que editava uma revista sobre as corridas de cavalo do Hipódromo Serra Verde, e tinha um colega gráfico muito chato, chamado Manoelzinho.
Telefonamos para a TFP e pedimos que um de seus doutrinadores fosse à gráfica para tentar converter o Manoelzinho.
A resposta foi inesquecível:
— A princípio, pensamos que se tratava de um trote, mas agora estou percebendo que estou falando com uma pessoa séria. Gostaríamos muito de converter o seu Manoel, mas eu estou sozinho aqui e você terá que telefonar para outra pessoa, em outro dia.
Gravamos a conversa num daqueles encorpados gravadores da época, com o dinossáurico microfone do lado do telefone.
Doces lembranças da adolescência!
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 19h14
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TFP – Tradição, Família e Propriedade (II)
Relembrando a atuante TFP – Tradição, Família e Propriedade (II)
A entidade seguidora da TFP que mais corre à cata de doações financeiras é a Associação Católica Nossa Senhora de Fátima.
Dois ou três anos atrás tomei o primeiro contato com ela, durante uma campanha maciça, via Correios, de distribuição de mini-posters de Nossa Senhora.
Eram pinturas da mãe de Jesus Cristo, tamanho aproximado de papel ofício, impressão colorida em alta qualidade, entregues dentro de um envelope plástico dourado, brilhante.
Jamais se esqueciam de uma carta de apresentação, apelando fortemente para os sentimentos religiosos do destinatário, sempre acompanhada do boleto bancário para doações.
Pensei, inicialmente, que fosse vigarice pura de algum espertalhão, mas pesquisas pela internet me indicaram a existência do vínculo religioso.
Encontrei até uma descrição – mas não ponho a mão no fogo pela seriedade – que descreve a associação como filhote da TFP.
Seu site oficial não cita nomes de diretores, o que mantém acesas minhas desconfianças.
Agora, a nova investida de marketing é um kit-rezadeira.
Dentro de um estojinho vem um terço protegido por uma espuma de plástico e um livreto de 64 páginas, ricamente ilustrado e colorido, de autoria do padre João Scognamiglio Clá Dias.
Bem juntinho, o inevitável boleto bancário e a também inevitável carta de apresentação, bem sentimental, quatro páginas, definindo o terço-brinde como “a chave do céu”.
Segundo a revista Veja, o padre João Clá é o líder real, mas não oficial, da atual TFP e de seus filhotes, principalmente o grupo Arautos do Evangelho, que estaria hoje até mais influente e poderoso do que a matriz Tradição, Família e Propriedade.
O movimento possui várias entidades registradas em cartório e vários sites na internet, inclusive a página pessoal do seu líder.
Oxalá eles tenham realmente intenções humanistas e a coleta financeira tenha a finalidade sincera de manutenção de seu trabalho.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 19h27
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Tradição, Família e Propriedade (I)
Relembrando a atuante TFP – Tradição, Família e Propriedade (I)
À época de minha infância e adolescência, a mais conhecida entidade religiosa e tradicionalista/conservadora do país era a TFP – Tradição, Família e Propriedade.
Fundada por Plínio Corrêa de Oliveira, teve especial influência em Minas Gerais, Estado então considerado conservador e tradicionalista.
Falava-se muito, então, na “tradicional família mineira”.
O próprio nome da entidade exprime os lemas e ideais básicos dos integrantes da TFP.
Lembro-me vagamente, ainda na minha distanciante infância, de suas passeatas no centro de Belo Horizonte, vestidos com mantos e portando enormes estandartes.
No quesito “propriedade”, o grupo foi um forte apoiador da ditadura militar, pois ambos escalaram o comunismo como principal adversário.
O líder PCO morreu em 1995, aos 86 anos, provocando bizarras manifestações de idolatria, com visitas místicas ao seu túmulo e ao de sua mãe Lucília.
Apesar dos lemas cristãos e humanistas, seus seguidores vêm se digladiando na disputa da herança ideológica.
O grupo que atualmente controla a entidade só chegou ao poder por ordem judicial e denunciou o desaparecimento de valiosos tapetes e imagens da sede.
Segundo matéria publicada na revista Veja em 2004, não são apenas os ideais religiosos que estão em jogo: a força da sigla TFP ainda carreia muitas doações financeiras de antigos simpatizantes.
Também gerou filhotes, entidades apêndices ou dissidentes que difundem os ideais conservadores.
(Qualquer semelhança não é exclusivamente mera coincidência: a TFP me faz lembrar a Opus Dei, grupo católico tradicionalista radical e conservador de fortes ligações com a ala também conservadora da Igreja, eterna suspeita de algumas atividades inortodoxas e duramente retratada no best-seller O Código Da Vinci.)
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 21h55
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Disputa entre Brasil e Paraguai por Itaipu
Faltam quatro dias para recomeçar a disputa entre Brasil e Paraguai... por Itaipu
Faltam quatro dias (será dia 15 de agosto, sexta-feira) para a posse do novo presidente do Paraguai, o ex-bispo católico Fernando Lugo.
São 04 dias de contagem regressiva para o reinício das discussões sobre o pagamento da energia elétrica excedente de Itaipu que o Brasil compra do Paraguai.
Prazo para Lugo voltar a posar de vítima do imperialismo brasileiro nas entrevistas para a mídia e nos discursos em público.
Vai continuar gritando que o Brasil paga um preço abaixo do mercado, mas não vai contar que a diferença representa a amortização do empréstimo bilionário que seu país recebeu para participar da construção da obra que é classificada como “a maior usina hidrelétrica do planeta, em potência instalada”.
Exatamente como consta do contrato assinado pelos dois países.
A verdade é que qualquer contrato de longuíssimo prazo gera controvérsias depois de decorridas duas ou três décadas.
As pessoas e as circunstâncias serão sempre outras.
No caso de países independentes e instáveis, pior ainda.
A melhor análise informativa da questão que li faz parte de uma entrevista da historiadora Ivone Carletto Lima, professora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, concedida ao jornal O Estado de São Paulo, edição de 27/04/2008, caderno Aliás, página J-5.
Ela é autora da obra Itaipu, as Faces de um Mega Projeto de Desenvolvimento.
Transcrevo, abaixo, trechos selecionados da entrevista:
Foi o Banco do Brasil que emprestou a parte paraguaia da composição do capital inicial de US$ 100 milhões. Ao todo, a obra custou quase US$ 30 bilhões, uma dívida que o Brasil assumiu no exterior e que pagou sozinho.
Quando contam sua história, os paraguaios ressaltam até hoje essa luta árdua para conseguir tudo o que queriam. Quando se definiu o local da usina ali na região onde ficava o Salto de Sete Quedas, em Guaíra (PR), a opinião dos técnicos brasileiros era de que deveríamos construir a usina sozinhos e pagar royalties pelo uso parcial de águas paraguaias.
A decisão foi política. Precisamos compreender o contexto da época. Só aconteceu porque ambos os países viviam um momento muito especial, que era o auge de suas ditaduras militares, com o general Stroessner lá e Médici aqui.
Foi uma maneira [assinar um contrato naqueles termos] de apaziguar o Paraguai, garantir a energia e, ao mesmo tempo, ele [um dos engenheiros responsáveis pela obras] disse isso literalmente, “pagar uma dívida histórica com o país vizinho”. É uma referência à Guerra do Paraguai.
A idéia de erguer uma grande hidrelétrica na região de Sete Quedas nasceu nos anos 50 dentro da Comissão Econômica para América Latina, a Cepal (...)
Naquela região, além de haver um volume de água muito grande, o Rio Paraná enfrentava um declive de 120 metros que impunha uma alta velocidade à correnteza. O problema é que não havia, no mundo, tecnologia para represar uma água daquelas.
O link para a entrevista completa é: CliqueAQUI.
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 21h55
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Insulfilm nos automóveis e a violência social
O insulfilm teve culpa na morte do menino João Roberto
No dia oito de julho de 2008 foi enterrado no Rio de Janeiro o corpo de um menino de três anos, morto pela polícia.
Dezenas de tiros foram despejados no carro da família, com mais dois suspeitíssimos passageiros, além dele: a mãe e o irmãozinho de menos de um ano de idade.
A mãe foi atingida por estilhaços e a barra metálica da cadeirinha do bebê ficou com a bala que teria aumentado a tragédia.
Os dois policiais que fizeram os disparos seguem detidos no quartel e os detalhes não foram ainda revelados, mas sabe-se que eles pensavam estar atirando contra bandidos.
Desconfiei logo que o carro das vítimas não permitisse boa visibilidade para os policiais, mas só depois de ler as matérias de vários jornais encontrei uma que confirmou que os vidros estavam revestidos por insulfilm, aquele plástico que dificulta a visão de fora para dentro.
Independentemente dos detalhes deste caso macabro, aproveito o ensejo para comentar sobre as incoerências causadas pelo agravamento da questão da segurança pública no Brasil.
A legislação já exigia que os carros usassem vidros claros, que permitissem boa visibilidade de fora para dentro, mas a própria população, assustada com o aumento dos assaltos a automóveis, optou por investir no ofuscamento dos vidros.
Entendia que o bandido, por não ter uma visão plena dos passageiros, tenderia a não cometer o crime.
Subestimou o fato que, nesta situação, a polícia também não sabe quem está dentro do carro, que tanto pode ser uma gentil senhora de 80 anos ou um terrível e violento assassino de 20.
E a quantidade de policiais mortos no Brasil é tão grande que, na dúvida, o reflexo os faz atirar primeiro e perguntar depois.
São as incoerências da nossa terra, e particularmente acho que o insulfilm deveria ser proibido.
Reconheço que os vidros claros facilitam para os bandidos mas, por outro lado, facilitam para a polícia.
O Poder Público não pode assumir o ônus da omissão, pois as situações ambíguas chegam a ser corriqueiras numa sociedade injusta como a nossa.
Só porque as duas alternativas são ruins, não se justifica que não se escolha nenhuma.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 21h51
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Inelegibilidade, processo transitado em julgado
O STF acertou ao condicionar a inelegibilidade de políticos ao final do processo judicial
Em demorada sessão realizada no dia 06/08/2008, o STF decidiu que só a sentença judicial definitiva (processo transitado em julgado) torna inelegível um candidato a cargo político.
Apesar do estardalhaço, apenas confirmou o procedimento existente: a decisão negou o pedido formulado pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), que propunha que a existência de um processo judicial fosse suficiente para impugnar candidaturas.
No noticiário do julgamento, alguns jornais adotaram a expressão “ficha-suja” para os candidatos com processos judiciais em andamento.
Mas estão equivocados.
Não se trata apenas de formalismo, de submissão às teses jurídico-éticas que defendem que só a sentença definitiva caracteriza a culpa.
Trata-se de entender o contexto brasileiro, de constatar que neste país muitos processos são abertos por irregularidades mal apuradas e não comprovadas, por suspeitas vagas, e até por motivo torpe.
Para agravar, o Poder Judiciário é ineficiente em seu controle interno, e magistrados incompetentes, corruptos, ineficientes, irresponsáveis, e até “meio loucos” (quando não o são inteiramente), existem às mãos-cheias.
Há magistrados da primeira instância que têm suas sentenças seguidamente derrubadas na instância superior, mas continuam atuando no mesmo lugar, intocados.
E, ao contrário do chamado Primeiro Mundo, iniciar aqui um processo é fácil, basta a assinatura de um autor e de um advogado.
A demora no andamento de um processo facilita a vida do infrator, mas não justifica nenhum ato precipitado, pois a dispensa da sentença judicial pode ser uma injustiça maior, grande fonte de erros.
Não há como fugir da verdade: nossa sociedade é tão problemática que a busca de soluções perfeitas é uma utopia; é mais racional, e mais objetivo, concentrar exclusivamente na escolha da alternativa menos negativa.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 22h47
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A nova Praça Raul Soares e a politica de obras públicas
A Praça Raul Soares e a política de reformar as reformas
A Praça Raul Soares, no centro de Belo Horizonte (mais exatamente: no final do centro, colada nos bairros Santo Agostinho e Barro Preto) foi reformada e entregue à população.
Coincidentemente, poucos dias antes do início da campanha eleitoral para a prefeitura.
Acho que o Partido dos Trabalhadores deveria pagar royalties ao atual senador Eduardo Azeredo, o descobridor da importância da reforma das praças perante o eleitorado.
Ele era apenas um profissional da informática quando foi indicado vice-prefeito da capital, companheiro de chapa de Pimenta da Veiga.
Foi eleito por genética: é filho de Renato Azeredo.
Pimenta da Veiga trocou a prefeitura pela naufragada candidatura ao governo do Estado e Eduardo Azeredo herdou a cadeira.
Com um mandato parcial (1990-1993) e um país em crise econômica, ele teve a percepção da importância de reformar as principais praças públicas, que estavam muito degradadas.
O povo gostou, e ele depois virou governador e senador, em votação direta, mas agora está com a carreira prejudicada pelo escândalo denominado “Mensalão Mineiro”.
O PT entendeu o recado e evoluiu para a técnica de “reformar a reforma”.
As mesmas praças, totalmente reformadas por Azeredo, foram (outra vez) totalmente reformadas por Fernando Pimentel.
É a política brasileira, da qual nenhum partido ou administrador consegue fugir: é mais eleitoreiro gastar dinheiro com obras de vulto, localizadas em áreas de grande visibilidade, do que com pequenas obras, espalhadas.
A avenida dos Andradas, nas proximidades da Câmara Municipal, estava com o asfalto ótimo, mas agora está sendo recapeada.
Os políticos descobriram que grandes obras têm forte impacto no imaginário do eleitor, e que só uma parcela pequena avalia, objetivamente, a relação custo-benefício.
Reclama dos prejuízos causados ao trânsito, mas a memória é curta: quando chegam as eleições, associa o candidato apenas à obra terminada, jamais ao seu transcurso.

A nova fonte luminosa da praça
Categoria: Belo Horizonte
Escrito por Márcio às 17h53
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Hugo Chávez e a arte de sobrevivência no populismo
Hugo Chávez, o animal político que infla o populismo latino-americano
O presidente venezuelano Hugo Chávez vem se mostrando um artista da sobrevivência política.
O principal representante do velho populismo latino-americano também se destaca pela ambiciosa internacionalização de sua política pessoal.
Nos anos anteriores assumiu atos ousados na política externa.
Usando seu abundante petro-dinheiro, criou laços de relações comerciais paternalistas e influenciadoras com Cuba, Bolívia e Equador.
Entrou em confronto pessoal com Álvaro Uribe, presidente da Colombia; confronto tao forte que provocou até movimentos estratégicos de tropas militares.
E provocou risos planetários no cômico epísódio em que se referiu a George W. Bush como o Diabo, e ao seu cheiro de enxofre, em pleno território norte-americano.
Mas sofreu três grandes revezes (não necessariamente na ordem abaixo):
a) Foi derrotado num plebiscito nacional em sua pretensão de ganhar poderes quase ditatoriais;
b) Documentos encontrados com o vice-lider das Farc, grupo terrotrista colombiano, comprovaram que este recebeu ajuda financeira de Chávez, obviamente para minar a força política de Uribe;
c) Em imagem gravada pela TV e retransmitida para todo o mundo, o rei da Espanha perdeu a compostura e gritou para Chávez a agora famosa frase “Por qué não te callas!” durante as duras críticas que o venezuelano fazia ao primeiro-ministro espanhol.
Aí percebeu que precisava mudar para sobreviver, e se revelou um animal político em dois momentos marcantes:
a) Teve uma reunião com Álvaro Uribe e, na maior cara-de-pau, se proclamou seu hermano.
b) Também em ato público e cercado de fotógrafos e câmeras de tevê, reuniu-se com o rei da Espanha e não poupou as juras de amor.
Deu novo fôlego ao inesgotável populismo latino-americano, uma política que mantém a influência regional enquanto o mundo moderno segue avançando na tecnologia, na economia, et caterva.

Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 19h33
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Autógrafos - celebridades - ato mecânico
Autógrafo de celebridades, um estranho comportamento social
Até o dia da inauguração do Hipódromo Serra Verde, no inesquecível 17 de maio de 1970, minha paixão era o futebol, e especialmente o Clube Atlético Mineiro.
Em torno de 1967 ou 68 minha mãe era professora primária (o equivalente à primeira metade do atual primeiro grau) e me contou que Buião, então ponta-direita do Galo, ia visitar seus alunos no Grupo Escolar José Bonifácio, no bairro de Santa Tereza (Belo Horizonte).
Pedi que ela me conseguisse um autógrafo dele, no que fui atendido.
A folha de papel ficou guardada alguns anos, até que os cavalos de corrida a relegassem ao esquecimento e desaparecimento.
Autógrafos estão na moda há décadas, mas o comportamento de ídolos e fãs, dos autografadores e dos destinatários, me parece mecânico, frio; mera formalidade.
E não é só no Brasil!
Nas imagens feitas pelas emissoras de tevê nos aeroportos, os ídolos aparecem distribuindo autógrafos como se estivessem fazendo um trabalho industrial: em rápidos movimentos de caneta assinam papéis e camisetas, dezenas deles em menos de um minuto.
Não chega a ser uma assinatura, sequer uma rubrica: fazem dois ou três traços e passam para o próximo interessado.
Uma indústria de produção em série: dezenas de produtos por minuto.
Eu até arrisco um palpite: eles riscam uma média de dois e meio traços por autógrafo.
Até parece que usam ideogramas chineses.
A própria caneta foi padronizada: pincéis atômicos, para permitir um movimento rápido, sem falhas, e que pode ser usada na camiseta presa ao corpo da vítima sem machucar.
Meu renitente lado racional não consegue entender o valor sentimental ou comercial de algo que é feito sem emoção, mecanicamente, displicentemente, e distribuído em grande quantidade, de graça, para quem quiser pegar.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 19h44
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Márcio
de Ávila Rodrigues é médico-veterinário e jornalista. Reside
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