Márcio de Ávila Rodrigues


Ronaldo Fenômeno e o travesti

Jogador Ronaldo Fenômeno tem um caso com – ou contra! – um travesti

Um colega pediu a minha opinião sobre o caso acontecido com o jogador Ronaldo Nazário, o Ronaldo Fenômeno.

(No dia 28/04/2008 ele foi acusado pelo travesti André Luiz Albertino, conhecido como Andréia Albertine, de ter feito um programa com ele/ela durante cinco horas e não pagar, além de consumir cocaína.)

(Ronaldo foi à delegacia e declarou que contratou três prostitutas, mas ao chegarem ao Motel Papillon, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, descobriu que eram travestis e os dispensou)

Dei uma sugestão cruel.

Sugeri que ele (o colega) se colocasse no lugar da morena Andréia:

— Se você fosse um traveco, um pária social, vivendo profissionalmente do sexo, convivendo minuto a minuto com o submundo, e tivesse um início de encontro com um cara rico e famoso, você não tentaria aproveitar a chance de extorquir um dinheirão?

Considerando esta lógica, a versão do Ronaldo torna-se uma possibilidade plausível.

Acrescento que ele é um atleta com histórico de mulherengo e sua biografia recente sugere que não cometeria a burrice de consumir drogas com três travestis da categoria dos michês baratos, michês de rua.

Quanto a confundir os travestis com mulheres numa conversa rápida na rua, à noite, e descobrir só no motel, isto é cabível, é possível.

O acontecido não deve ser suficiente para criar um problema policial ou judicial para ele, mas o prejuízo moral e financeiro é certo: segundo o jornal Extra, a noiva já deu o fora e o contrato com a Nike está em risco, pois proíbe escândalos.

Voltando à questão da semelhança entre mulheres e travecos, muitas vezes nos deparamos com alguns casos em que fica difícil identificar a qual categoria pertencem.

Nos anos 70 eu ia freqüentemente ao Rio de Janeiro com amigos para alguns dias de praia e corridas de cavalos.

Uma vez caminhávamos em um grupo de quatro na região do Flamengo-Glória e passou por nós uma figura loura, feminina.

Turfistas sempre apostam: dois acharam que era mulher, os outros dois apostaram que era um travesti.

Jamais saberemos quem ganhou a aposta.

Mais recentemente (ou menos antigamente), em Belo Horizonte, tive a mesma dúvida quanto a uma figura loura, jovem, de mais de um metro e oitenta, que estava parada na casa lotérica Campeão da Avenida, na Praça Sete.

Fecho o comentário retornando ao ex-melhor jogador de futebol do mundo:

Sugiro aos leitores que façam aos seus amigos a pergunta que fiz com a finalidade de entender a real participação de Ronaldinho na história: colocar-se no lugar da Andréia. Ou seria do Andréia?

Que maldade!



Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 19h53
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A mídia e a emoção coletiva III

As videocarpideiras na Montanha dos Sete Abutres

Volto à análise do comportamento das multidões que acompanham de perto as reportagens da mídia sobre o caso Isabella Nardoni, que se aglomeram junto ao prédio em que ela residia.

O jornalista Eugênio Bucci, que teve uma passagem complicada pelo governo lulista (saiu criticando e atirando), escreveu um artigo sobre o tema n’O Estado de São Paulo, edição de 24/04/2008.

Ele fez uma longa comparação com o filme A Montanha dos Sete Abutres (The Big Carnival), que pode ser resumido assim: um rapaz fica preso numa caverna durante dias, um jornalista transforma a tragédia num circo, num big carnaval, e multidões se aglomeram no local para acompanhar o desenrolar dos acontecimentos.

O tal jornalista faz quaisquer coisas – aéticas, inclusive – para manter o suspense e o interesse dos leitores e espectadores.

O título do artigo é “O Fator Leo Minosa”, uma referência ao personagem que faz o papel agora representado por Isabella Nardoni.

Extraí (selecionei) os seguintes trechos do texto:

... um efeito específico que as coberturas sensacionalistas podem causar na audiência: o de promover a aglomeração de multidões nos locais onde um crime ou uma tragédia aconteceram - ou onde um assassinato é apurado, debatido ou julgado.

A despeito de tantas inovações, ainda somos, ao menos em parte, uma sociedade regida por velhos padrões de comunicação - e o sensacionalismo é uma afirmação enfática dessa verdade incômoda.

Embora as novas possibilidades tecnológicas da internet tenham acentuado a autonomia individual e propiciado o fracionamento do público numa gama virtualmente infinita de temáticas e focos de interesse, as massas, as velhas massas, às vezes voltam a ganhar a cena pública, exatamente como há 15, 30, há 60 anos.

Repórteres de todos os cantos do país chegam à Montanha dos Sete Abutres. Com eles vem a multidão sedenta de sensações, pronta para seguir de perto os lances mais emocionantes.

Voltemos ao Brasil dos nossos dias. As imagens de centenas de manifestantes no meio da rua cantando Parabéns a você para Isabella no dia em que ela completaria 6 anos, com bolo de aniversário e tudo, trazem de volta, com exatidão, a trama de Billy Wilder.

De sua parte, a multidão não foi atraída pelo suspense de saber se uma pobre alma soterrada sobreviverá ou não, mas, movida pela fome aparentemente sagrada de justiça, grita para apressar o desfecho da novela.

O que agoniza em praça pública não é mais a vítima da violência, mas a reputação dos suspeitos. As massas querem sangue - físico ou moral, tanto faz. Elas não amam ninguém - não amam Isabella nem amavam Leo Minosa. Elas amam alucinadamente o êxtase das tragédias.

Ao lado disso, ou acima disso, amam a sensação de ser aceitas no espetáculo, um amor infantil. Seguram o bolo para Isabella diante das câmeras com a mesma convicção com que abrem um cartaz onde se lê 'me filma, Galvão' num estádio de futebol.

Forte!

O texto pode ser acessado clicando AQUI



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 19h22
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Humorismo

Piada vagamente erótica

Uma mulher leva um bebê ao consultório do pediatra. Depois de alguns momentos de espera na sala, a enfermeira a manda entrar no consultório. Após a apresentação, o médico começa a examinar o bebê e vê que o seu peso está abaixo do normal e pergunta:

– O bebê toma leite materno ou de mamadeira?

– Leite materno, diz a senhora.

– Então, por favor, mostre-me os seus seios.

A mulher obedece e o médico toca, apalpa, aperta ambos os seios, gira os dedos nos mamilos; primeiro suavemente, depois com mais força, coloca as mãos em baixo e os levanta uma vez, duas vezes, três vezes, num exame detalhado. Faz um beicinho e sacode a cabeça para ambos os lados e diz:

– Pode vestir a blusa.

Depois de a senhora estar novamente composta o médico diz:

– É claro que o bebê tem peso a menos. A senhora não tem leite nenhum.

– Eu sei, doutor. Eu sou a Tia. Mas adorei ter vindo...



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 18h37
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A mídia e a emoção coletiva II

As videocarpideiras à luz da psicanálise

Dando continuidade ao tema de ontem (o público que acompanha de perto as reportagens da mídia sobre o caso Isabella Nardoni), transcrevo, abaixo, dois pequenos trechos de um artigo do psicanalista Contardo Calligaris, colunista da Folha de São Paulo, publicado em 24/04/2008:

Os repórteres de televisão sabem que os membros dessas estranhas turbas respondem à câmera de televisão como se fossem atores. Quando nenhum canal está transmitindo, ficam tranqüilos, descansam a voz, o corpo e a alma. Na hora em que, numa câmera, acende-se a luz da gravação, eles pegam fogo.

Eles realizam uma cena da qual eles supõem que seja o que nós, em casa, estamos querendo ver. Parecem se sentir investidos na função de carpideiras oficiais: quando a gente olha, eles devem dar evasão às emoções (raiva, desespero, ódio) que nós, mais comedidos, nas salas e nos botecos do país, reprimiríamos comportadamente.

O título do artigo é A turba do "pega e lincha". Apesar de recente, já foi transcrito em vários sites da internet. Quem quiser o texto completo, basta digitar o título no Google.



Categoria: Mídia
Escrito por Márcio às 21h21
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A mídia e a emoção coletiva

As neocarpideiras, ou as multidões que choram quando as câmeras são ligadas 

O primeiro evento público envolvendo emoção e desespero que acompanhei de perto foi a agonia e morte do presidente eleito Tancredo Neves, em 1985.

Na época, eu era repórter free-lancer da extinta sucursal mineira (em Belo Horizonte) do jornal O Globo.

Como a mídia noticiava que, durante as missas católicas, estavam ocorrendo casos de emoção coletiva por causa da doença do presidente, recebi a incumbência de investigar o fato na nossa catedral, a Igreja São José.

O padre que me atendeu desmentiu, me contando que recebia apenas pedidos de orações por Tancredo.

Mas a jornalista (ou talvez "o jornalista", já esqueci...) que ganhou a obrigação de fundir as informações em um texto destinado à matriz, no Rio, acabou escrevendo que as pessoas estavam chorando nas igrejas.

O seu objetivo era apenas um ganho de produtividade: esta notícia teria mais chance de ser publicada no O Globo, elevando o índice de matérias elaboradas pela sucursal que eram efetivamente utilizadas.

Embora não fosse exatamente verdadeira...

Mas o maior impacto do evento estava na imagem televisiva de pessoas que choravam copiosamente junto aos muros do Hospital das Clínicas, em São Paulo, onde agonizava o presidente.

Só que um dos jornais entregou o jogo: a maioria dos chorões e choronas conversavam normalmente até que as câmeras de TV das grandes redes eram acionadas, momento em o cérebro delas descarregava o estoque de lágrimas e alterava as expressões faciais.

O caso da morte da menina Isabella Nardoni reúne ingredientes comuns ao Caso Tancredo.

Já li pelo menos dois textos falando do exibicionismo popular.

No Caso Tancredo ressaltou-se a exibição da emoção triste, chorosa; no Caso Isabella ressalta-se a exibição do moralismo, da sede de justiça, do espírito de vingança.

Exibição destinada às câmaras e microfones das emissoras de rádio e televisão.



Categoria: Mídia
Escrito por Márcio às 22h04
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Uma piada blogolóide

Como é que mineiro escolhe advogado!

– Imagine o doutor que eu comprei uma fazendinha, coisa de nada. Pois não é que o meu vizinho, que tem um fazendão, não veio criar pendenga comigo por causa de um pedacinho de terra à toa? Comprei de papel passado, diz que meu terreno vai até o riacho além da cerca dele. Ele diz que aquele pedaço é dele, por usucapião, e está ocupado há mais de trinta anos, pode provar. Plantou uma árvore lá quando chegou.

– Você tem escritura registrada, tudo direitinho, tudo em ordem?

– Tudo direitinho doutor, tudo em ordem.

– Então deixa comigo. A causa está ganha.

– E a árvore?

– Que árvore que nada. Uma árvore não prova coisa alguma.

Ele agradece a vai saindo de fininho. Parte para outro advogado, e a conversa se repete. Assim, de advogado em advogado, acaba encontrando um que se recusa a aceitar a causa:

– Usucapião é coisa séria. A posse do outro é que conta. Ele pode provar, é fácil arranjar testemunha. E tem a tal árvore que ele plantou há mais de trinta anos. O senhor vai perder na certa.

– Então é o senhor mesmo que eu quero – decide o mineiro. – Eu sou o outro. O da árvore.



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 19h20
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Geopolítica brasileira

Brasil é o vizinho bonzinho, aquele que tudo dá para os compañeros

Meses depois de tomar posse, o presidente boliviano Evo Morales forçou o empresário brasileiro Eike Batista a desistir da instalação da empresa EBX no seu país.

O novo megamilionário brasileiro perdeu 20 milhões de dólares (estimativa dele) no negócio e a Bolívia perdeu uma importante fonte de impostos e empregos.

O alvo seguinte de Morales foi a Petrobras: o exército boliviano invadiu a refinaria e o campo de gás que a empresa brasileira possuía naquele país.

Depois que esmaeceu o impacto midiático, a Petrobras voltou a funcionar por lá, mas o presidente Lula, que é o dono da empresa (nomeia presidente e diretores) cedeu à chantagem: passou a pagar muito mais do que constava no contrato.

Percebendo que Lula cede sempre, os três principais candidatos ao governo do Paraguai prometeram, durante a campanha, tomar mais dinheiro do Brasil na compra da energia da usina de Itaipu.

O jornal Estado de Minas de hoje (24/04/2008) publicou uma matéria interessante, assinada pelo repórter Paulo Paiva, chamando o Brasil de “O bom vizinho”, aquele que sempre cede às pressões, embora seja muito mais rico.

Transcrevo uma parte da matéria, com um resumo das disputas com cinco vizinhos (mauzinhos?):

BOLÍVIA — Em maio de 2006 o presidente Evo Morales nacionalizou a produção de hidrocarbonetos, atingindo diretamente as atividades da Petrobras no país, onde já havia investido US$ 1,5 bilhão. Pouco tempo depois, a estatal brasileira foi praticamente obrigada a vender aos bolivianos as duas refinarias que mantinha no país, pelo preço de US$ 112 milhões. Ambas haviam sido compradas pela Petrobras em 1999 por US$ 104 milhões, em estado lastimável.

VENEZUELA — O presidente Hugo Chávez acaba de nacionalizar a produtora de aço Sidor, a maior do país e uma das mais importantes do continente. A mineira Usiminas já havia investido mais de US$ 100 milhões para obter participação na Sidor e em projetos de modernização.

ARGENTINA — A presidente Cristina Kirchner está exigindo que o Brasil reduza a quantidade de gás natural que importa da Bolívia, para que possa sobrar mais gás para os argentinos. Quer também que o Brasil envie eletricidade para amenizar a crise do inverno.

EQUADOR — O presidente Rafael Correa está tentando cancelar contratos de exploração de petróleo da Petrobras no país. Em outubro passado, elevou de 50% para 99% os royalties pagos pelas empresas de petróleo sobre ganhos extras com os preços do combustível. A Petrobras conseguiu reduzir esse percentual para 90%, mas ainda assim está perdendo rentabilidade. E pode ter que deixar o país a qualquer momento.

PARAGUAI — O presidente eleito, Fernando Lugo, quer rever o preço das tarifas de energia que o Paraguai vende ao Brasil, gerados pela binacional Itaipu. A fórmula do cálculo da tarifa foi estipulada pelo Tratado de Itaipu. O presidente Lula já avisou que poderá rever o preço.

Ilustrada com a charge abaixo (Evo, Chávez, Cristina Kirchner, Correa e Lugo):

 



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 20h05
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O povo e a falta de educação

Proibido jogar lixo

Flagrante na rua Mármore, a principal do bairro santa Tereza, Belo Horizonte.

Algum morador deste prédio extravasou sua revolta com os porcos (os da espécie bípede) que sujam as ruas.

Mandou fazer uma faixa com os dizeres: “Proibido jogar lixo”.

O interessante é que a entrada do prédio é na rua Quimberlita; a faixa está sobre um muro lateral.

Sinal que os sujismundos não estão perdoando nada.

 

Três quarteirões adiante o flagrante (sem foto) tem outro motivo: a invasão cultural da língua inglesa.

Na minha infância, a principal loja de roupas da região era a Casa Paraibana.

Ela continua lá, na esquina da rua Gabro, mas a nova geração de proprietários optou pela sofisticação: a placa agora é CAP Fashion.

A expressão Casa Paraibana vem abaixo, em letras pequenas.

Segundo o livro Notas cronológicas do Bairro Santa Tereza, de Luiz Góes (2001), a Casa Paraibana, atual CAP Fashion, foi inaugurada em 10/1/48 por Virgílio Martins de Abreu Filho e sua esposa Edite.



Categoria: Belo Horizonte
Escrito por Márcio às 18h25
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A prisão de Roberto Cabrini

Polícia faz armação para desmoralizar o jornalista Roberto Cabrini

A mídia está cheia de dedos para tratar do episódio da prisão do jornalista Roberto Cabrini, atualmente trabalhando na Rede Record.

Para refrescar a memória: no dia 15/04/08 ele foi detido com dez papelotes de cocaína e ficou dois dias na cadeia.

Ele alega ser vítima de armação.

Contra ele, o depoimento de sua acompanhante, que se declarou sua amante e garantiu que ele é viciado.

Particularmente, sou de opinião que ele é inocente e o flagrante foi forjado.

Meu argumento-chefe: é muita coincidência ele ser flagrado e detido exatamente no dia que estava com a droga.

Mesmo que ele fosse usuário constante – algo improvável, incompatível com a sua vida hiperativa – por que a polícia ia parar um jornalista famoso, figurinha fácil na mídia televisiva, e optar por uma revista completa?

Dirijo há 30 anos e só me lembro de umas duas blitzes que incluíram a revista do porta-malas do meu carro.

Para quem não conhece de perto o sistema policial, o ato de forjar flagrante parece difícil e problemático.

Mas a minha experiência jornalística me ensinou que é fácil: infelizmente, grande parte dos policiais carregam consigo, diariamente, equipamentos irregulares.

Um deles é um conjunto de trouxinhas de maconha ou cocaína, para colocar numa cena de crime ou no bolso de um alguém-alvo.

Outro equipamento é uma arma sem registro, que não pode ser rastreada caso seja disparada em alguma situação irregular.

Voltando ao caso Cabrini: se ele for inocente, a mulher faz parte da conspiração.

Mas se ele não conseguir uma prova bem convincente, vai ficar com uma nódoa na carreira e um inquérito policial pra apurrinhar.

E se a Justiça entender que 10 papelotes caracterizam tráfico, a encrenca será mais feia.



Categoria: Mídia
Escrito por Márcio às 18h54
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A preguiça e a ginástica

A força de vontade é indispensável na hora da ginástica

Sou um especial admirador do médico Dráuzio Varella e habitual leitor de suas colunas, publicadas todo sábado na Folha de São Paulo.

No dia 12 de abril de 2008 ele conseguiu explicar as razões antropológicas da preguiça humana, do porquê de as pessoas sempre adiarem a ginástica.

E o fez de forma brilhante, usando a sua conhecida facilidade para escrever, em texto fluente e agradável.

Extraí os seguintes trechos:

...o exercício físico vai contra a natureza humana.

A preguiça para movimentar o esqueleto não é privilégio de nossa espécie: nenhum animal adulto gasta energia à toa. No zoológico, leitor, você jamais encontrará uma onça dando um pique aeróbico, um gorila levantando peso, uma girafa galopando para melhorar a forma física. A escassez milenar de alimentos na natureza fez com que os animais adotassem a estratégia de reduzir o desperdício energético ao mínimo.

Por causa dessas limitações biológicas, se você é daquelas pessoas que esperam a visita da disposição física para começar a fazer exercícios com regularidade, desista. Ela jamais virá.

Encare a atividade física com disciplina militar ou esqueça-se dela. Na base do "quando der, eu faço", nunca dará.

O final, o fecho do texto, é igualmente interessante. Dráuzio Varella abomina o paternalismo comumente empregado quando alguém se queixa da preguiça e de outras dificuldades que alega ter para realizar as atividades físicas:

No passado, diante desses argumentos, eu ficava condoído e me calava. Os anos de profissão mudaram minha atitude, entretanto: escuto as explicações em silêncio, mas não me comovo com elas. O coração vira uma pedra de gelo. No final, quando meu interlocutor pergunta como poderia encontrar tempo para a atividade física regular, respondo:

"Isso é problema seu."



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 21h59
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Cartões corporativos

A ex-ministra Matilde Ribeiro não resiste ao furor consumista

Esta vai na íntegra, extraída da coluna semanal-dominical do jornalista Daniel Pisa, n’O Estado de São Paulo de 13/04/08:

Foi de rir-chorar a declaração de Matilde Ribeiro sobre seus gastos com cartão corporativo em 'free shop' no aeroporto, de que ela precisa aproveitar a oportunidade e comprar 'mesmo' aquelas coisas que não existem em território nacional.

Ecoou dona Marisa dizendo que tirou cidadania italiana para os filhos porque quer dar a eles um 'futuro melhor'.



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 22h06
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Mídia na política - Muriaé

A mídia e a política de Muriaé

A mídia vista e ouvida de Muriaé está nas mãos de políticos.

Pior, políticos que freqüentaram seguidamente a grande mídia, na condição de acusados de alguma coisa.

Das quatro rádios da cidade, duas (98 FM e Challon) pertencem ao ex-deputado federal Sérgio Naya, cassado em 1998.

Já a Rádio Atividade e a TV de mesmo nome pertencem ao deputado Lael Varella.

A imparcialidade política de Muriaé depende dos pequenos jornais locais.

Muriaé é uma agradável cidade de 100 mil habitantes na zona da Mata, quase na divisa com o norte do estado do Rio de Janeiro.



Categoria: Mídia
Escrito por Márcio às 21h49
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Um texto pretensiosamente erudito

Um texto em formato antijornalístico, mas publicado no Estadão

Sou fã da linguagem jornalística, do texto jornalístico.

É mais social e mais democrática, pois é de entendimento mais fácil, e, por isso, cativa mais o leitor.

Em conseqüência, aumenta o número de leitores, difunde mais a informação.

Uma característica é o resumo da notícia no primeiro parágrafo, o lide (do inglês lead).

Se o leitor quiser se aprofundar, segue lendo os demais parágrafos; se não quiser, pelo menos adquire a informação básica.

Outra característica é a preferência por palavras de uso cotidiano, evitando gírias e expressões eruditas, também com o objetivo de agradar o maior número possível de leitores.

Os jornais modernos uniformizam o uso da técnica de redação jornalística entre seus funcionários, mas abrem exceções quanto ao texto de convidados, de quem  escreve artigos na condição de autoridade ou especialista desvinculado daquele órgão de imprensa.

Mas a correta tendência em vigor recomenda que sejam recusados os textos excessivamente deslocados das técnicas jornalísticas: ou mal-escritos, ou pretensiosos/eruditos, ou apenas chatos.

Ou o público não lê, ou lê e não entende, o que dá no mesmo.

No caderno Aliás, de O Estado de São Paulo, edição de 17/2/08, comecei a ler um texto de Renato Lessa, professor de Teoria e Filosofia Política da Universidade Federal Fluminense, sobre a falta de transparência do governo.

Mas o primeiro parágrafo anula meu interesse: a erudição pretensiosa consegue transformar um tema interessante numa leitura cansativa.

Vejam vocês mesmos:

 

A despeito de surtos governamentais de virtude auto-atribuída, é da natureza dos governos a opacidade. A idéia de um governo transparente soa - ou deveria soar - a ouvidos adultos quase como um oxímoro. Com efeito, o planeta parece estar ocupado por governos que praticam em maior ou menor grau - e com doses diversas de pudor - a arte do segredo. Ao que tudo indica, eventuais tendências declinantes nas taxas de segredo público são antes função da irredenção da saloiada que da capacidade governamental de auto-reforma.



Categoria: Mídia
Escrito por Márcio às 18h00
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Política e ética

Ferreira Gullar e a ética na política e no cotidiano

Na Folha de São Paulo de 11/12/05, o jornalista e poeta Ferreira Gullar publicou uma interessante crônica sobre um cidadão que, aparentemente, era ético até a flor da medula, mas no escurinho...

[Não percam tempo procurando flor da medula no dicionário.]

A crônica é ficcional, mas ele abriu com uma (também interessante) teorização sobre a ética na política e no cotidiano.

Entende que é até humano e natural desejar alguma coisa que não seja ética, como um auto-aumento de salário (cita uma proposta do ex-deputado Severino Cavalcanti), mas sentencia: “A ética, muitas vezes, implica contrariar nossos desejos e necessidades”.

Transcrevo a bela introdução à crônica-conto:

 

Um homem de moral

FERREIRA GULLAR

As pessoas são, em parte, seus valores e, em parte, sua história, como se comportaram e se comportam na prática da vida. E pode se dar como certo que, quase sem exceções, há distância entre o que elas pensam, dizem e o que fazem, já que é mais fácil imaginar e dizer do que realizar. Como se sabe, a teoria, na prática, é diferente...

É verdade, porém, que, como as pessoas não são iguais, em algumas delas a diferença entre o que dizem e o que fazem é menor ou maior. Pode-se dizer mesmo que o esforço do indivíduo para agir o mais coerentemente possível com os seus valores é o que se pode definir como ética. O sujeito ético, a meu ver, não é aquele que não se sente tentado a cometer algum deslize e, sim, aquele que, embora tentado, não se permite cometê-lo, mantendo-se fiel a seus valores. Quem nunca se sente tentado a errar não é ético, é santo. Aliás, mais que santo, porque estes também estão sujeitos a tentações, haja a vista santo Antônio.

Lembram-se de quanto Severino Cavalcanti, ao assumir a Presidência da Câmara dos Deputados, propôs dar aumento de salário aos deputados, inclusive a si próprio? Quando alguns deputados declararam que eram contra o aumento, ele disse com rara franqueza: "São uns hipócritas. Estão todos querendo o aumento, mas fingem que não estão!". É que Severino, destituído de toda noção de ética, não compreendia que desejar o aumento é normal, mas inaceitável do ponto de vista ético. A ética, muitas vezes, implica contrariar nossos desejos e necessidades. Hipocrisia é declarar-se contra o aumento publicamente e, nas encolhas, agir para consegui-lo.

 

Para surpresa minha, após uma eficiente colaboração do meu amigo Mr. Google, não encontrei nenhum site na internet que transcreveu a crônica. Quem quiser lê-la na íntegra terá que pedir emprestada a senha de algum cliente do provedor UOL, que pertence à Folha e dá acesso ao seu texto integral. Ou me mandar um e-mail.



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 18h41
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Lula é da esquerda mesmo?

Historiador mexicano diz que Lula pertence à esquerda boa

Transcrevo os três primeiros parágrafos da entrevista do historiador citado, publicado na Folha de São Paulo de 13/01/08:

Em maio de 2006, o economista e historiador mexicano Jorge Castañeda, 54, causou uma controvérsia internacional ao declarar, num artigo para a "Foreign Affairs" ("Latin America's Left Turn"), que a esquerda na América Latina estava dividida em duas.

Uma, que considerava "má", era representada pelo autoritarismo e por uma visão passadista do socialismo. Nela se enquadravam Venezuela, Equador e Argentina. A outra, tida como "boa", identificava-se com a democracia e tinha uma posição moderna com relação ao funcionamento das instituições e às preocupações sociais.

Aí estariam o Brasil de Lula e o Chile de Michelle Bachelet.

Hoje, olhando para essa análise, Castañeda se considera um visionário. "Tudo o que eu dizia se confirmou. O continente continua dividido e polarizado exatamente desse modo."

Não é uma posição isolada. Só acrescento que a atual classificação de Lula como “esquerdista” ocorre mais por tradição do que por análise técnica.



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 16h09
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O desvio de função da Finatec

Reitor que usava apartamento de luxo pode ser inocentado

O reitor da Universidade de Brasília (UnB), Timothy Mulholland, renunciou ontem (14/04/08) ao cargo.

Não resistiu ao escândalo do apartamento funcional e a uma greve de estudantes.

O primeiro problema estourou na rabeira do escândalo dos cartões funcionais que derrubou a ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial.

Apesar do uso dos tais cartões pelo reitor, o caso não era idêntico.

A grande mídia explorou o gasto com artigos de luxo e de supérfluos no apartamento da UnB que é destinado ao reitor e sua família.

Nos primeiros dias, a expressão “apartamento funcional” não foi bem explicada pela grande mídia e parte do público entendeu que o imóvel era de propriedade pessoal dele.

O absurdo deste caso não era o supérfluo, era o fato de o dinheiro ser originado da Finatec, uma fundação destinada a investir dinheiro em pesquisas científicas.

Em sua renúncia, ele declarou que espera ser inocentado.

E acredito que o será, pois dificilmente alguém de seu nível intelectual cometeria uma ilegalidade flagrante.

Provavelmente seu contador encontrou uma brecha na lei que legaliza esta destinação espúria.

Para benefício dele, o Judiciário brasileiro é muito formalista e tende a absolver o réu quando o desrespeito à lei não está inteiramente evidenciado.

O grande exemplo é o ex-presidente Collor, que foi absolvido em um processo julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e proclama uma inocência beneditina.

Num país mais civilizado, o reitor não teria chance... de sair livre.

Por falar em Primeiro Mundo, Timothy Martin Mulholland é um nome sofisticado, soa a britânico, mas na internet não encontrei a origem familiar do cidadão.



Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 18h28
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A nadadora Rebeca Gusmão e o doping

Rebeca Gusmão, de gazela a Hulk

A nadadora Rebeca Gusmão, de 23 anos, pode encerrar sua carreira vitoriosa sem voltar às piscinas de competição.

O exame antidoping deu positivo e ela já perdeu as medalhas dos Jogos Panamericanos de 2007.

A substância encontrada, o hormônio masculino testosterona, pode ter sido o responsável pela transformação de seu corpo esguio e feminino em um tanquinho, formato Hulk.

São impressionantes as fotos das duas fases (2003 e 2007), que publico abaixo.

Seus melhores resultados são da fase tanquinho, comprovando a eficiência do doping.

Nos Jogos Panamericanos de 2003 (quando foi tirada a primeira foto) ela ganhou a medalha de bronze (coletiva – quatro participantes por equipe).

Nos de 2007 ganhou duas medalhas de ouro, mas teve que devolvê-las pois foi desclassificada por causa do exame de urina.

O doping só ganhou relevância esportiva, e atingiu o rótulo de ilegalidade, depois de alguns casos de morte súbita de atletas – especialmente ciclistas escandinavos – nos anos 50 ou 60.

Mas a medicina esportiva continua com sérias dificuldades por separar o joio do trigo: o que é medicamento para tratamento da saúde do que é estimulante e, portanto, antidesportivo.

No passado, o problema era causado pelos estimulantes de ação rápida, como a cafeína e seus aparentados, que fazem efeito durante algumas horas.

Hoje o problema maior é com os produtos de efeito duradouro, que ao longo de meses vão aumentando a massa muscular, como os hormônios e os anabolizantes.

No caso dos hormônios, a dificuldade dos laboratórios é certificar se a substância detectada é natural do corpo ou foi adicionada através da medicação.

Esta briga ainda vai longe.

Seguem as fotos comparativas da Gazela e da Touraça:

Em 2003:

 

Em 2007:

 



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 19h02
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Autonomia nas reservas indígenas

Conflito de fazendeiros e índios em Roraima promete derramamento de sangue

A esquerda brasileira conseguiu implantar na Constituição de 1988 instrumentos de poderosa proteção aos povos indígenas.

Ou povos autóctones, como gostavam de dizer os intelectuais que defendiam os tais instrumentos, por eles considerados “avançados”.

Mas há controvérsias.

O problema desembarcou na grande mídia por causa da extensa reserva Raposa do Sol, no Estado de Roraima

Órgãos públicos tentam expulsar os não-índios de lá e o confronto promete derramamento de sangue.

Por ora, vou me ater a selecionar dados de duas fontes e deixar uma análise para outra oportunidade.

Começo com o deputado comunista (PCdoB, de orientação chinesa-maoísta) Aldo Rebelo, ex-presidente da Câmara, que em artigo publicado n’O Estado de São Paulo de 10/04/08 assim escreve (trechos selecionados):

A demarcação contínua da reserva Raposa Serra do Sol foi um erro geopolítico do Estado brasileiro. Sobressai no noticiário a caricatura de um enfrentamento polarizado entre índios não-aculturados e capitalistas-tubarões-predadores, mas, em verdade, também são protagonistas do problema os caboclos, pequenos agricultores, pecuaristas, comerciantes e até o Exército, impedido de exercer a sua missão constitucional de vigiar extensas faixas de fronteira com a Guiana e a Venezuela. Uma parcela dos índios apóia a permanência dos não-índios na área conflagrada de Roraima, inclusive dos arrozeiros, que a Polícia Federal foi expulsar de lá. A demarcação da reserva deveria, portanto, ter levado em conta os interesses legítimos dos diversos estratos sociais ali presentes. Ainda há tempo de identificá-los e acomodá-los de forma justa e fraterna, pois ocorre em Roraima a desavença que o dirigente chinês Mao Tsé-tung chamou de 'contradições no seio do povo'.

Os números da reserva Raposa Serra do Sol, no entanto, suscitam discussões. São 1,74 milhão de hectares de área contínua, pontilhada de fazendas, roças, arrozais, estradas, linhas de energia elétrica, quartéis, cidades e vilas. Foi reservada para uso exclusivo de aproximadamente 15 mil indivíduos, distribuídos em cerca de 150 aldeias. Nada menos que 46% do território estadual constitui terras indígenas.

(Para acessá-lo na íntegra, clique AQUI)

A fonte número dois é o advogado Ives Gandra Martins, ativo articulista na grande midia, que no artigo “876 índios”, publicado no Jornal do Brasil de 05/05/05 escreveu (trechos):

O Governo Federal, segundo noticiou O Estado de São Paulo, pg. A7 da edição de 20/04/05, reservou 599 mil hectares do território nacional para o fantástico número de 876 - repito 876 - índios. A distribuição é a seguinte: 224 índios Kokamas receberão 61 mil hectares na reserva de São Sebastião; 121 índios kokamas receberao 33,8 mil hectares no Espírito Santo; 302 índios xapixanos e nakixis receberão 13 mil hectares na reserva de Tabalascada; 198 índios guajás receberão 116,5 mil hectares em Awá; e 31 índios Carajás receberão 375 mil hectares em Maranduba.

Como cada hectare tem 10.000 mil metros quadrados, multiplicando 599.000 mil hectares por 10.000, receberão eles 5.990.000.000 m2; ou seja, 876 índios receberão 5 bilhões e novecentos e noventa milhões de metros quadrados do território nacional, passando a ser titulares destas terras como constituindo povos diferentes dos brasileiros, não podendo ser perturbados, nem suas terras vistoriadas pelas polícias estaduais.

(Para acessá-lo na íntegra, clique AQUI)



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 16h09
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Ignorância eleitoral do brasileiro II

Unaí, o mais emblemático dos casos de amnésia eleitoral popular

No dia 28 de janeiro de 2004 a cidade de Unaí foi palco de uma tragédia: a chacina de três fiscais e um motorista do Ministério do Trabalho.

Dias depois o Judiciário decretou a prisão do acusado: o latifundiário Norberto Mânica, um dos maiores produtores de feijão do Brasil.

O irmão dele e braço político da família, Antério Mânica, também foi acusado (mais alguns dias depois) e preso.

Enquanto estava na prisão, candidatou-se a prefeito da cidade e foi eleito com mais de 72% dos votos (cumpre atualmente o último ano do mandato).

E olha que Unaí não é nenhum vilarejo desinformado e perdido no sertão: eram 81 mil habitantes na estimativa de 2006 (segundo a Wikipedia).

A decisão de povo de eleger um suspeito de crime grave para o cargo de prefeito foi tão impressionante que houve quem achasse que a chacina foi positiva para a sua campanha.

A tese: ou o episódio o revestiu de uma aura de Poderoso, ou a simples repetição do seu nome na mídia teria influenciado o voto dos leitores incautos, incapazes de associar o nome à suspeita de crime.

Em sociedades avançadas, jamais uma pessoa sob grave suspeição seria eleita para um cargo político importante.

Esta posição é um dogma, inalterável mesmo se muitos desses suspeitos vierem a ser inocentados.

Merece a repetição do final do texto de ontem, sobre a prisão de Alberto Bejani, prefeito de Juiz de Fora:

Acompanhando casos como este, facilmente se entende porque a educação só é prioridade no discurso dos políticos, jamais nos seus atos.

A deficiência da educação pública é a garantia da eleição inconseqüente.



Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 18h29
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Ignorância eleitoral do brasileiro

O povo gosta de votar em corrupto

Ontem (09/04/08) a Polícia Federal disparou a Operação Pasárgada, prendendo mais de 50 pessoas, a maioria absoluta em Minas Gerais.

Acusação: fraude de documentos para permitir liberação irregular do FPM, uma verba destinada aos municípios.

Entre os detidos, aproximadamente 13 prefeitos mineiros.

Até a hora que escrevo não foram liberadas todas as informações oficiais: Justiça, Ministério Público e Polícia Federal limitavam-se a informações genéricas.

Não podemos criticá-los, pois o objetivo maior era a eficiência das detenções.

A mídia precisou montar microcentrais de processamento de dados para cruzar as informações recebidas e publicar as atualizações na internet.

O cruzamento incluía a constante verificação dos sites adversários.

Entre os detidos, o figurão-mor era o prefeito de Juiz de Fora, Alberto Bejani.

Independentemente de como ele vai sair dessa, Bejani é um notório caso de amnésia eleitoral popular.

Radialista, elegeu-se pela primeira vez em 1988 com base nos seus pronunciamentos inflamados e moralistas pelos microfones das emissoras locais.

Mas seu mandato (1989-92) superou largamente os de seus antecessores em denúncias de irregularidades.

Ainda assim, foi eleito duas vezes deputado estadual e em 2005 voltou à prefeitura nos braços do povo (como se dizia antigamente sobre os populistas).

Uma curiosidade: existe uma velha brincadeira de se referir a Juiz de Fora como uma extensão do Rio de Janeiro e, coincidentemente, Bejani é fluminense de São Gonçalo.

Durante a prisão, a casa dele foi revistada e a Polícia Federal encontrou e apreendeu 1,12 milhão de reais em dinheiro vivo, além de duas carabinas e duas pistolas (sem registro)

Acompanhando casos como este, facilmente se entende porque a educação só é prioridade no discurso dos políticos, jamais nos seus atos.

A deficiência da educação pública é a garantia da eleição inconseqüente.



Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 20h12
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Sindicalismo e política brasileira

A falácia da reforma sindical via petismo

Maria Celina D’Araújo é a mais conhecida e ativa pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo de 06/04/08 ela falou sobre o envolvimento do sindicalismo brasileiro com a política e o governo Lula.

Garantiu que o Partido dos Trabalhadores (PT) não tem interesse em fazer a prometida (pelos seus líderes) reforma do sistema sindical brasileiro, e que a própria classe patronal também não tem interesse.

Tem lógica: afinal foi por esta estrutura que Lula, Berzoini, Meneghelli y sus compañeros saíram da pobreza, ou da vida simples, para o ápice do poder político da nação.

Selecionei os seguintes trechos da entrevista:

 

A senhora diz ver mais semelhanças do PT de hoje com Perón do que com Vargas.

O PT foi fundado com base em uma estrutura sindical oficial. Embora Lula criticasse o sindicato pelego e fosse a favor de sindicatos autênticos, o PT acabou sendo formado, e a CUT, a partir dessa estrutura legal oficial. E hoje esse compromisso está mais sério do que nunca. Por isso não se fala mais em acabar com o imposto sindical, não se fala mais em liberdade sindical, na Convenção 87 da OIT. Porque o arranjo político está feito em cima dessa tradição corporativa.

No início do governo, falava-se em reforma sindical. Isso não volta mais?

Essa estrutura sindical não vai mudar porque não interessa ao PT mudar. Mas também não interessa aos empresários porque eles aprenderam a conviver com essa estrutura. Se a gente tiver mudança na lei sindical que permita liberdade financeira, com o fim do imposto sindical, isso significará mudanças profundas no sindicalismo. O imposto sindical mantém a estrutura vigente.

Ou seja, patrões e empregados, nesse ponto, têm medos semelhantes?

E interesses semelhantes, têm medo da mudança. Porque o empresário brasileiro sabe exatamente como agir se tiver uma greve de metalúrgicos. Se houver uma greve de metalúrgicos, vai parar a Fiat e a Chevrolet. Se a gente tiver pluralidade sindical, pode parar a Fiat e não parar a Chevrolet.

Os interlocutores mudam?


Não só isso. A pluralidade sindical vai obrigar o empresariado a competir entre si. Se tiver pluralidade sindical, um sindicato faz greve, o outro não. O empresariado brasileiro só tem negociado como grupo, não como empresários individuais. Acabar com o imposto sindical, mudar a lei, significa mudar a cultura de negociação.



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 19h28
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Comparação: pobres e ratos

Os Ratos e a metáfora da luta do pobre pela sobrevivência

A historieta blogada ontem me fez vasculhar a memória a respeito dos milhões de brasileiros que não conseguem se profissionalizar e sobrevivem, dia após dia, disputando suas migalhas em incontáveis formas e situações.

Talvez a grande obra literária brasileira sobre a vida cotidiana das pessoas que lutam diariamente pela sobrevivência real seja Os Ratos, de Dyonélio Machado.

Foi escrito em 1935 e narra a história de um modestíssimo funcionário público, que ganha uma merreca insuficiente para o sustento de sua família.

Todo o livro se passa no espaço de 24 horas, começando no momento em que ele acorda e terminando com o mesmo acordar na manhã seguinte, quando começará uma jornada provavelmente igual à da véspera.

Entre o acordar e o dormir ele passa o dia lutando por migalhas: para conseguir pequenas quantidades de dinheiro faz serviços extras, joga, aposta, pede empréstimos, faz penhor, adia dívidas.

É honesto, apenas ganha mal e administra pior.

Acho que na história também há personagens menos honestos, tipo pequenos-golpistas, mas já transcorreu mais de uma década de minha leitura e os neurônios já ocuparam as ligações químicas com informações mais recentes.

O autor Dyonélio Machado era médico e escritor, de vida longa (morreu em 1985, aos 90 anos) e obra literária curta; Os Ratos é geralmente classificado como uma obra do Modernismo tardio.

Apesar da horripilante metáfora dos ratos, o autor não desprezava o povão: inclusive era comunista de coração.

O mais bizarro, para mim, é o nome do personagem principal: Naziazeno.



Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 16h24
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Os pedintes do século 21

Domingo é o dia D dos pedintes modernos e suas histórias mal contadas

Domingo é o dia internacional do descanso.

Não vale para todos pois, para que a maioria descanse, alguns têm que trabalhar.

É o dia mais atípico da semana.

Como em nossa sociedade qualquer razão gera distorção, domingo está se tornando o dia preferido dos pequenos golpistas, daqueles que se valem de pequenos artifícios, truques e mentiras para ganhar seus trocados e continuar sobrevivendo longe do trabalho pesado, da vida profissional.

Eles descobriram que os reais trabalhadores aproveitam o domingo para pequenas caminhadas nas proximidades de casa e neste dia estão menos stressados, mais propensos a ouvir suas fantasiosas histórias de dissabores e dificuldades.

Também descobriram que é o dia mais associado ao espírito religioso, quando o coração domina a razão, e os idosos e aposentados ficam mais propensos a ajudar o próximo, até para garantir um desconto na passagem para o Reino de Deus.

Reino desejado nas orações e temido pela razão.

É só iniciar a caminhada matinal que ele chega com uma conversa qualquer e, logo depois – pimba –, o bote é certo.

Hoje (30/03/2008) o bote foi de um homem de uns 30 e poucos anos, aparência de trabalhador classe média baixa.

Me parou para perguntar onde ficava o orelhão telefônico mais próximo.

Aproveitou para esticar a conversa:

— Minha mãe mora na rua Bom Despacho [a dois quarteirões de distância] mas vim aqui de bobeira pois ela viajou. Acabei de terminar o plantão mas o encarregado não levou o vale-transporte pra gente.

Indiquei o caminho por onde ele poderia encontrar um orelhão, desejei boa-sorte e me mandei, mas ele me realcançou uns 20 metros depois.

— Senhor, fico com vergonha de pedir, mas tenho que voltar para Itabirito e preciso de uma ajuda.

— Sinto muito, mas saí de casa só para uma caminhada e não trouxe dinheiro.

Me acompanhou por mais um quarteirão, encontrou o orelhão e comentou a descoberta em voz alta, para os meus ouvidos.

Gastei uns 20 minutos até retornar pelo mesmo ponto, onde ele continuava sentado num degrau, próximo ao orelhão, à espera da próxima vítima.

Amarrei a cara para passar em frente, já que o jornal dominical e uma sacola de supermercado denunciavam a minha mentira sobre a falta de dinheiro no bolso.

Com algumas variações, centenas de milhares de brasileiros vivem como ele

Enquanto isso, puristas, esquerdistas, filósofos, freqüentadores de bar e religiosos se digladiam verbalmente sobre a causa dos problemas sociais, sobre os culpados, sobre as soluções.



Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 20h07
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Corrupção e política mineira

Januária, cidade mineira, pode chegar ao 7º prefeito desde 2004

João Ferreira Lima, 75 anos, prefeito municipal de Januária (norte de Minas Gerais) foi cassado pela Câmara Municipal no dia 03 de abril deste ano (2008).

Ele já estava afastado do cargo havia um ano pela Justiça, por envolvimento na Máfia dos Sanguessugas.

Era o seu quinto mandato e o motivo oficial da cassação foi "não-prestação de contas ao Legislativo".

O vice-prefeito Sílvio Aguiar foi empossado no cargo que já exercia interinamente, mas também corre o risco de cassação pois já está sob investigação dos vereadores por pagamento indevido de diárias.

Se for cassado, seu substituto será o sétimo prefeito da cidade desde o conturbado ano de 2004.

Segue a lista dos seis prefeitos:

1º) Josefino Lopes Viana exercia o cargo em 2004 quando foi cassado por crime eleitoral. Não foi sucedido pelo vice, igualmente punido na mesma sentença.

2º) João Ferreira Lima, o mesmo do dia 03 de abril de 2008, foi o segundo a ocupar o assento em 2004 (tinha sido em segundo lugar nas eleições), ficando 34 dias no cargo.

3º) O presidente da Câmara Manoel Ferreira Neto foi o terceiro da seqüência mas logo foi cassado pelos colegas vereadores por fraude em licitação.

4º) O sucessor Valdir Pimenta Ramos conseguiu chegar ao final do mandato.

5º) João Ferreira Lima acabou eleito em 2004 e iniciou o mandato em 2005, sendo afastado pela Justiça em 20/04/2007.

6º) Sílvio Aguiar, já candidato à degola, fecha a lista (por enquanto?).

Tomei conhecimento, pela primeira vez, do vínculo de Januária com o instituto da cassação em 1993 ou 1994, quando acompanhei, a dois metros de distância e por circunstâncias profissionais, uma entrevista da ex-prefeita de lá, Maria da Conceição Lima Mont'Alto, então residindo em Belo Horizonte.

Ela havia sido cassada em 1992: houve uma inundação na cidade e a prefeitura não fez a limpeza adequada porque as máquinas e bombas para sugar a água estavam na fazenda dela.

A tal entrevista foi conduzida pela repórter Adriana Spinelli, então no setor de assuntos gerais da TV Globo.

A ex-prefeita Conceição se fazia de vítima (chegou até a chorar) durante a saraivada de perguntas: se dizia uma pobre viúva, perseguida pelos inimigos políticos.

O ex-marido morrera assassinado por motivos políticos.

Num momento de relax, abriu a guarda e contou que tinha um fraco por armas de fogo e deu uma pequena aula sobre o perigoso assunto.

Mas a renitente repórter pressionava, repetindo incansavelmente a mesma pergunta: "A senhora entende que está lesando o patrimônio público?"

Na enésima repetição da pergunta, a ex-prefeita perdeu o controle e respondeu com rispidez, destacando o fato de ser funcionária pública regular (parece-me que já tinha sido professora estadual).

Era o que a repórter precisava: a única cena da entrevista que foi ao ar foi a resposta ríspida.

Ao lado das imagens de arquivo da cassação, da inundação e das bombas na fazenda dela.

E Januária, que pensava estar encerrando uma fase política negativa, mal sabia que o problema se multiplicaria uma década depois.



Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 21h35
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Mídia e Poder Judiciário II

O uso da mídia na disputa entre Folha SP e Igreja Universal

A disputa entre a Folha de São Paulo e a Igreja Universal do Reino de Deus não poderia passar ao largo dos vários veículos de mídia pertencentes a ambos.

O interessante é que, através deles, os dois lados já começam a cantar pequenas vitórias.

A mesma matéria da Folha Online de 14/03/08 noticia que a juíza Camila Coelho, da comarca de Abelardo Luz (SC), a 574 km de Florianópolis, arquivou um dos processos.

Teria sido o 15º julgado, com a 15ª sentença favorável.

Segue o trecho: A juíza Camila Coelho entendeu que o fiel Raimundo Jorge Vale de Melo é parte "ilegítima para pleitear a indenização". "Daqui a pouco não se poderá mais citar a profissão de ninguém, bem como partido político, time de futebol ou município de origem em qualquer meio de comunicação, porque os demais políticos, torcedores ou moradores alegarão ter sofrido abalo moral", escreveu a magistrada na decisão.

Já o principal jornal diário da IURD, o Hoje em Dia, de Belo Horizonte, na edição de 15/02/2008, página 12, destacou a decisão do juiz de Direito da cidade de Jaguarão, no Rio Grande do Sul, fronteira com o Uruguai, que se recusou a unificar todas as ações naquela comarca.

A argumentação do juiz era no sentido de que haveria prejuízo para os autores pela dificuldade de presença física nas audiências.

 

A TV RECORD SE ENVOLVE

Mas a minha maior surpresa foi a apresentação de longa reportagem sobre o caso, de mais de cinco minutos, no jornal matinal (Fala Brasil) da Rede Record, pertencente à IURD, no dia 18/02/2008.

Afinal, a rede de comunicação geralmente evita misturar os interesses religiosos com seus programas jornalísticos para não perder audiência.

A estratégia tem funcionado tão bem que a Record já superou o SBT na disputa nacional da vice-liderança.

Todos sabem que, nas mídias eletrônicas (rádio e tevê), o público muda de canal quando o material não lhe agrada.

No jornal impresso, apenas muda de matéria ou de página.

Como midiófilo, sigo acompanhando a questão.

Para acessar a problemática reportagem de 15/12/2007, clique AQUI.



Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 19h04
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Mídia e Poder Judiciário

Tribunais, palco do confronto entre a Folha de São Paulo e a Igreja Universal

A morosidade, a burocracia, o formalismo e a incoerência da Justiça brasileira criaram as condições necessárias (o caldo de cultura) para que o Poder Judiciário se transformasse no palco do confronto entre o jornal Folha de São Paulo e a Igreja Universal do Reino de Deus.

Aproveitando uma reportagem mais dura, considerada negativa àquela organização religiosa (cristã-protestante-evangélica), seus advogados decidiram partir para uma cartada diferente: patrocinaram 74 ações de difamação que registram, como autores, fiéis da IURD que alegaram se sentir ofendidos.

Nenhuma delas teve a própria IURD como autora.

A jornalista Elvira Lobato, conhecida repórter investigativa e principal autora da reportagem, é também alvo pessoal das ações.

Matéria da Folha Online de 14/03/2008 informa que: Todos os processos judiciais movidos contra o jornal seguem uma mesma linha: têm textos semelhantes, foram ajuizados na Justiça Especial - que exige a presença das partes em cada audiência - e em cidades distantes das respectivas capitais.

Em resumo: espalharam as ações por todo o país.

Certamente para dificultar a defesa dos advogados da Folha e aproveitar diferenças conceituais dos julgadores.

 

OBJETIVOS DAS AÇÕES JUDICIAIS

Parece-me que querem conseguir, pelo menos, uma ou algumas condenações para usar na argumentação pública (perante mídia e fiéis).

Outra intenção seria a de intimidar futuros críticos.

Se o Judiciário nacional não possuísse aquelas desqualidades citadas (morosidade, burocracia, formalismo e incoerência), o caso seria decidido por uma ação simples do suposto caluniado (IURD) contra o suposto caluniador (Folha) no foro mais apropriado, que é São Paulo, a sede de ambos.

Penso que os advogados da IURD consideraram que as desqualidades poderiam ser usadas em proveito deles, tornando o caso longo, confuso e sujeito a pequenas vitórias, que teriam forte efeito psicológico e de marketing.

Já os advogados da Folha tendem a lutar pela unificação dos processos.



Categoria: Mídia
Escrito por Márcio às 18h12
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A mídia e o cinto de segurança dos carros

Cinto de segurança, um vilão supervalorizado

Não tem reportagem televisiva sobre o trânsito de veículos que não destaque a questão da falta do uso do cinto de segurança.

Quem vê muito telejornalístico sai achando que a falta de afivelamento do próprio é o pior dos crimes que o motorista pode cometer.

É só o carro parar numa blitz que o(a) repórter põe o microfone na boca do motorista sem cinto e cobra a explicação do terrível crime.

Ele pode até responder com bom humor mas, quando a matéria aparece na tevê, o repórter sempre dá um jeito de incluir em sua fala uma crítica ao sem-cinto.

Mas a verdade é que a falta dele é uma irregularidade tão fraquinha que o seu uso só se tornou obrigatório lá pelos anos 80.

Entende-se o porquê: o risco é exclusivo de quem está no carro e não o usa.

E no trânsito urbano são poucos os casos de batidas frontais tão violentas que transformam o cinto no limite entre a vida e a morte.

Inclusive, verifico na internet que a multa é R$ 115,33.

(Para a estrada esta discussão não vale: a velocidade é sempre alta e o risco também.)

(Outra dupla de parênteses: também não vale para o celular, que desvia a atenção do motorista e aumenta o risco para pedestres e outros motoristas.)

A rigor, é uma irregularidade tão banal que na maior parte da década de 90 a polícia tinha a recomendação de apenas advertir o infrator, sem aplicar a multa.

Então, por que o jornalismo televisivo faz tanto barulho?

Simplesmente porque é uma imagem fácil, freqüente; produz farto material para ilustrar as reportagens.

E rende assunto, explicações, texto. Especialmente para os programas mais sensacionalistas.

As irregularidades mais graves (batidas violentas, agressões, alcoolismo, fechadas, tráfego pela contramão, etc) são flagrantes raros (para o cinegrafista) e de ocorrência rápida.

O cinto de segurança é a carta fácil das coleções de figurinhas da infância.

E o pobre do motorista que se desinteressa do cinto porque anda devagar, na cidade, sem riscos para si e para os outros, aparece de vilão a todo instante.

Me lembro de uma repórter da tevê mineira que acompanhava uma blitz e seu cinegrafista havia conseguido uma imagem de um motorista sem o cinto.

Ele fez algumas perguntas simpáticas, para relaxar, a um policial de média patente, e depois endureceu:

— Mas por que vocês não multaram aquele infrator que estava sem cinto de segurança?

O homi se assustou, mas ainda conseguiu reagir com serenidade:

— É melhor você procurar o comandante da operação para tratar desse assunto.

Provavelmente a equipe teve que sair imediatamente dali, pois a empatia com os policiais se dissipou e estes perceberam que a conseqüência da reportagem não seria apenas a vaidade de aparecer na televisão mineira.

Aliás, esta mocinha (L.R.), por essa e por muitas outras, acabou se queimando e ficou anos fora das reportagens de rua.

Só voltou recentemente, em outro Estado.

Mas esta é outra história...



Categoria: Mídia
Escrito por Márcio às 18h42
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Roubos feitos por funcionários de aeroportos

Uma experiência pessoal: os ladrõezinhos de aeroportos

Este caso (post de ontem) demonstra a falha de segurança da Petrobras, que permite o acesso de vigilantes de porto a informações sigilosas e de alta importância estratégica.

Como não sou especialista em administração industrial, prefiro falar sobre a prática contumaz do furto no Brasil.

E especificamente sobre os cometidos por funcionários de aeroportos.

Em 25 de novembro de 2006 desembarquei no aeroporto de Cumbica, São Paulo, procedente de Buenos Aires, num avião da Aerolineas Argentinas.

Ao retirar a mala verifiquei que o pequeno cadeado havia sido arrancado.

Felizmente o que tinha de valor estava em uma maleta de mão e não dei falta de nada na mala.

Mas constatei que o roubo aconteceu já na retirada da mala do avião, na pista de Guarulhos, porque algumas roupas estavam úmidas.

Alguém enfiou a mão molhada lá dentro, tateando à procura de coisas valiosas.

E desde o despacho da mala em Ezeiza, Buenos Aires, o único contato com a água foi através da chuva fina que caia em Guarulhos, na chegada.

Uma vizinha de vôo teve menos sorte: estragaram o fecho-eclair da mala dela durante o furto.

Eu tinha uma conexão dali a poucos instantes e nem pude prestar queixa.

Para ninguém me tachar de anti-nacionalista, lembro que a primeira vez que tomei conhecimento disto foi numa reportagem sobre a descoberta de furtos no aeroporto de Los Angeles através de uma câmera escondida: o funcionário abriu rapidamente uma mala ao retirá-la do avião, tirou alguma coisa de dentro e fechou rapidamente.

Eles também enfrentam o mesmo problema, mas nós temos índices muito mais elevados.

E cada um que resolva o seu problema, não se escude nos erros alheios para fugir da solução.



Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 18h58
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Este blog divide meus textos em 4 partes:

Turfe - Vivi intensamente as corridas de cavalos do Hipódromo Serra Verde, de 1970 até meados de 2004. Crônicas, análises, história e lembranças foram registradas no computador e muitas delas aqui estão ou serão publicadas neste blog e também no site do Jockey. Para o blog ficam reservados textos mais curtos, mais leves, para não cansar o leitor.

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Márcio de Ávila Rodrigues é médico-veterinário e jornalista. Reside em Belo Horizonte-MG, Brasil, onde nasceu na década de 50.




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