Roubo nos portos marítimos
A Petrobras e os ladrõezinhos de portos e aeroportos
A Polícia Federal do Rio de Janeiro anunciou, dia 28/02/08, a prisão de quatro vigilantes sob a acusação de serem os ladrões dos notebooks que conteriam informações secretas da Petrobras.
O caso estava sendo tratado como espionagem industrial desde que foi chegou ao conhecimento público.
A própria Petrobras levou meses para dar queixa.
Também contribuiu para as especulações o fato de que a empresa responsável pelo transporte deste e de outros equipamentos da Petrobras ser a americana Halliburton, que tem o vice-presidente dos EUA Dick Cheney como grande acionista.
Para a PF bastou checar a escala de horário dos vigilantes e interrogar os que tiveram acesso ao equipamento.
Infelizmente para o nosso povo brasileiro, a hipótese da PF é altamente provável.
O índice de furtos nos portos e aeroportos nacionais é alarmante, e não há viajante que não enumere múltiplos casos.
Improvável é a teoria de que Cheney teria acionado uma empresa internacional, da qual é sócio, para a realização de um crime.
É como um furto em casa de família: a empregada doméstica vira suspeita segundos após o desaparecimento do objeto.
A empregada ainda pode procurar outro emprego, mas a Halliburton poderia quebrar, liquidando o emprego de milhares e o capital dos acionistas.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 18h35
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Humorismo
A lenda do Fiat 147
Recebi esta brincadeira pela internet. Na década de 80 eu tive um Fiat-147 ano 1978 e em três anos com ele tive mais problemas que nos outros 26 anos dirigindo só Chevette e Corsa. Em homenagem ao meu Fiat 147 branco dedico esta criativa gozação:
Certo dia, eu estava na estrada com o meu FIAT 147, e como era de se esperar, a jabiraca quebrou. Então, encostei o 'Podrão' no acostamento e fiquei esperando alguém passar. Apareceu um Porsche Boxter bi-turbo, a 170km/h.
Nisso, o cara do Porsche dá marcha ré e volta até o FIAT. Ele se oferece para rebocar a porcaria do FIAT, e eu aceitei a ajuda, mas pedi para não correr muito senão a jabiraca desmontava (óbvio). E combinei que piscaria o farol toda vez que o Porsche estivesse correndo demais. Então, o Porsche começou a rebocar a jabiraca e toda vez que passava de 60km/h, eu fazia sinal com o farol (no singular mesmo), porque para variar um deles estava em curto e não funcionava. E o cara do Porsche ia puxando a 'batedeira' a 60 km/h no máximo, morrendo de tédio...
Então aparece um Mitsubishi 3000 GT, que intima o Porsche, este não deixa barato e vai pro pau! 120, 130, 150, 190, 210, 240 km/h. Eu já tava desesperado, piscando o farol que nem um louco, e os dois alinhados...
Os caras passam por um posto policial, mas nem vêem o radar, que registra impressionantes 240 km/h !!!
Então, o policial avisa pelo rádio o próximo posto:
— Atenção, um Porsche vermelho e um Mitsubishi preto disputando racha a mais de 240km/h na estrada, e, juro pela minha mãe morta...,
um FIAT 147 atrás deles dando sinal de luz para ultrapassar!!!!!
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 21h09
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Turismo sexual no Brasil
O trópico-turismo sexual dos europeus
Ao criticar [post de ontem] o tratamento revanchista contra o turista espanhol que chega ao Brasil, não estou avalizando todos os turistas que aqui chegam.
O que não se justifica é o uso das generalizações.
Há um tipo que é danoso ao nosso país: o turista sexual.
Estimula atividades degradantes (para a vendedora de corpo) e criminosas, e ainda prejudica a imagem da Terra de Cabral na Europa.
Em novembro de 2007 eu passei seis dias em Marajó, a maior ilha marítimo-fluvial do mundo.
Na Pousada dos Guarás havia um grupo de três portugueses na faixa etária de 35-50 anos, que andavam sempre juntos e não se relacionavam com os outros hóspedes, apesar da língua.
Uma atitude rara entre turistas, geralmente abertos ao contato com as pessoas.
Mas depois um hóspede brasileiro nos contou que os viu com uma garota, provavelmente uma prostituta menor de idade.
Entendemos o porquê de estarem sempre em conversas reservadas com um guia contratado (um cicerone, aproveitando a oportunidade para relembrar vocábulos de pouco uso nos nossos tempos).
Ficou claro o motivo da atitude de indiferença conosco: eram turistas sexuais, não queriam aproximação pois tinham culpa no cartório.
O problema existe, mas não pode ser combatido com a expulsão, ainda no aeroporto, de qualquer europeu suspeito de se enquadrar neste grupo.
O problema só deve ser combatido através das polícias estaduais, através de flagrantes e diligências.
O funcionamento adequado das instituições (a competência funcional) é essencial para o desenvolvimento social.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 18h28
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Revanchismo no balcão de imigração
Calhordice na expulsão de turistas espanhóis em Salvador
Texto publicado no setor de notícias do site UOL garante que no ano de 2006 quase 22 mil brasileiros foram expulsos da Inglaterra, Estados Unidos e Espanha.
Recentemente dois estudantes brasileiros, pós-graduandos, foram detidos no Aeroporto de Barajas, em Madri — onde estavam apenas fazendo uma conexão para Portugal —, e devolvidos para o Brasil.
Conseguiram muito mais divulgação na mídia do que os outros milhares de expulsos.
Indiscutivelmente o que foi feito com eles não está correto: portavam provas de não serem candidatos às vagas de clandestinos.
Por outro lado, só o jornal Folha de São Paulo (pelo menos, entre os que eu li), em matéria de 07/03/08, percebeu que eles cometeram a infelicidade de se portar de forma inadequada durante a entrevista com os policiais da imigração.
Repito o trecho mais importante daquela matéria, transcrito do post que bloguei neste espaço em 08/03/08: O estudante disse ao pai que credita a proibição a uma espécie de punição ao comportamento do casal brasileiro. Lima admitiu ao pai ter sido "muito irônico" quando abordado pelos guardas espanhóis. Já Patrícia, segundo ele, ao saber que estava detida, teria sofrido uma crise de nervos, atirando-se ao chão, com gritos e muito choro.
No calor do noticiário, a Polícia Federal de Salvador, Bahia, recusou a entrada (ou expulsou, para ser mais exato) de alguns turistas espanhóis sob alegações parecidas: dinheiro vivo insuficiente para a estadia, falta de reserva em hotéis.
Como se não existisse o cartão de crédito, e nem o check-in feito diretamente na entrada dos hotéis...
A expulsão dos espanhóis foi um revanchismo infantil, bobo, com o agravante de ter sido realizado por escalões inferiores, provavelmente à revelia dos escalões maiores.
Talvez usando a oportunidade para um exercício de sadismo, disfarçado de nacionalismo.
Um dos casos acabou sendo gravado com uma câmara oculta (talvez de celular) em razoável qualidade: o policial civil (identificado como delegado) nega o carimbo de entrada e ainda diz para a vítima que existe uma relação com o caso dos brasileiros detidos em Barajas.
O pobre do espanhol custou a entender.
Uma vingança babaca: para punir o ato xenófobo cometido por um funcionário da imigração, agride-se o turista que vem apreciar o Brasil.
Diplomacia internacional é um ato de Estado, que não pode ficar sujeito às reclamações de cidadãos prejudicados, às reportagens da mídia, e aos humores de funcionários públicos de escalões inferiores.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 18h43
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Alexandre Garcia fala bonito sobre a violência e a postura dos cidadãos
O jornalista Alexandre Garcia anda fazendo uns editoriais irados, fortes, incisivos, no Bom Dia Brasil, entre 7h30m e 8 horas da manhã.
Transcrevo abaixo o de 17/03/08, com o título de Vidas Blindadas, que me tocou especialmente:
Tem cada vez mais gente vivendo e se movendo blindadas, como em uma guerra. Blindam-se carros, blindam-se casas; daqui a pouco vamos ter que blindar nossos corpos.
Blindam-se carros, blindam-se casas; daqui a pouco vamos ter que blindar nossos corpos. Não aconteceu de uma hora para outra; foi aos poucos se implantando, inclusive com a nossa contribuição.
Pouco a pouco, fomos enfraquecendo a lei que deveria nos proteger. É estacionar em lugar proibido; furar o sinal vermelho; oferecer propina para o guarda; sonegar imposto; ser cúmplice do crime ao comprar fita pirata ou droga. Essas coisas do dia-a-dia que criaram a cultura de que obedecer às leis é para os trouxas. Aí, enfraquecemos a lei e agora descobrimos que ela não é forte o suficiente para proteger nossas vidas e bens.
Como não podemos nos mudar para países próximos, como o Uruguai, onde não é preciso chave na porta nem muro na casa; ou no Chile, onde o perigo é o terremoto e não o bandido, vamos nos blindando. Os que podem fazem turismo nos Estados Unidos ou na Ásia e Europa, onde podem passear a qualquer hora do dia ou da noite com risco mínimo.
Alguns acreditam. Outros fingem acreditar nas autoridades que nos dizem que o crime é um problema mundial e que é normal o que temos aqui. Não é. Somos campeões em homicídios, assim como somos campeões em blindagens. E não nos despertam nem mesmo choques, como aquela série de ataques em São Paulo, em maio de 2006; nem o arrastar de João Hélio pelas ruas do Rio, antes do carnaval do ano passado.
Pois não virão os marcianos, nem a ONU para resolver isso. O problema é nosso, a responsabilidade é nossa, a menos que já tenhamos nos rendido atrás da blindagem, admitindo que a vida e nossos bens não sejam mais nossos.
Clicando AQUI você tem acesso ao vídeo.
Escrito por Márcio às 19h09
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Um castigo impressionante
Esta aconteceu em São Paulo, no mês de janeiro.
Dois jovens irmãos, de 21 e 24 anos, roubaram um Fiat Marea, chamaram duas moças e saíram para dar um rolê.
Acabaram batendo num muro e morreram todos.
Pela foto dos destroços, nem viram a morte chegar.

Escrito por Márcio às 19h21
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Religião e comunismo
O ateísmo acabou sendo o ponto fraco do marxismo
O ser humano passou por todo o processo civilizatório à procura do seu Criador.
Todas as sociedades, tribais ou avançadas, criaram deuses ou entidades místicas e, com eles, as lendas da criação dos seres vivos, geralmente iniciadas por um primeiro casal.
Quando não criaram, incorporaram os deuses de outros grupamentos humanos.
O ateísmo é um fenômeno recente.
Na primeira parte do século 19, Karl Marx usou rios de tintas para analisar o sistema capitalista de sua época e procurar uma solução além dele, baseada em uma organização mais comunitária.
Como parte de seu complexo idealístico, passou a defender o ateísmo como atitude formal e prática para uma nova sociedade baseada na organização social controlada pelo Estado, na produção de bens voltada exclusivamente para o interesse público, e em um padrão de vida equivalente para toda a população.
A Rússia, primeira sociedade a se reformar dentro dos princípios marxistas, adotou o ateísmo com prática de Estado, a ponto de perseguir e proscrever as organizações religiosas.
O mesmo aconteceu com nações que seguiram o seu exemplo, com exceção de uma das mais recentes, Cuba.
Neste caso, único a adotar o comunismo-marxismo na América Latina, houve repressão a religiosos, não aos religiosos, não às religiões.
Mas o comunismo perdeu a batalha ideológica e ruiu.
Onde persiste, ou foi modificado, ou está sendo contestado.
Terá a religião participação na derrocada marxista?
Não tenho dúvida!
Pessoas, indivíduos, podem viver sem a crença religiosa, mas as sociedades, NÃO.
O ateísmo jamais coexistiu, na História, com o processo social.
O ser humano — não estou falando de indivíduos específicos, mas de grupos civilizados — não consegue se ver como produto de forças não racionais, de uma natureza sem face.
E tem a necessidade psicológica de se submeter a uma força superior, criadora e protetora.
A falta de percepção de Karl Marx desta necessidade imperiosa, da imperiosidade da necessidade, pode ter sido a causa do fracasso das tentativas de aplicação prática de suas idéias.
Pois a adoção incondicional destas idéias obriga a um rompimento total e permanente com o sobrenatural: Deus, deuses, forças criadoras do universo e da vida.
Entendo que, se Marx tivesse retirado de suas teorias a necessidade do ateísmo, talvez ele tivesse sido o mentor de outras experiências comunistas, e mais duradouras.
Digo isto porque sinto que a idéia, o sonho, de uma sociedade igualitária é muito forte.
As distorções do capitalismo chocam as pessoas.
O desperdício abusivo da riqueza fácil ofende a extensa e absoluta maioria da espécie humana.
A desumanidade da carência e da pobreza humanas também afronta os sentimentos de todos, ou melhor, da extensa e absoluta maioria.
Assim, teorias sobre uma sociedade justa e igual têm apelo profundo, especialmente quando baseadas em estudos, análises e propostas extensas, como é o caso de Karl Marx.
Mas o apelo não é suficiente para se abdicar da religiosidade.
O tópico “ateísmo” derrubou o marxismo, é o detalhe que derrubou o conjunto, o todo.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 19h32
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Tráfego selvagem
O stress inútil do motorista brasileiro
Em 1996 eu fiz uma viagem turística à Flórida, EUA. Um dia, em Miami, estacionei o meu carro alugado e atrás dele encostou outro, transportando um casal, já idoso.
Observando com atenção o veterano motorista, tive que elevar a gradação do "já idoso". Ele era mais do que isso, era muito idoso mesmo. Talvez beirando os 90 anos.
Me impressionei em estar num país em que o motorista se sente em condições de dirigir normalmente até os extremos da terceira idade, numa hipotética quarta idade.
Fato raro em nossa sociedade, com seu tráfego caótico e selvagem, onde velhos motoristas são olhados com desdém e criticados, até de uma forma direta, pelo risco que expõem a si e aos outros.
Se dissecássemos a mente do motorista impaciente e abusador, encontraríamos um pensamento mais ou menos assim: "Estou impaciente, não quero perder tempo e, além do mais, é assim que se dirige, todos dirigem assim."
Ele não consegue perceber que o ganho do motorista infrator, numa cidade grande e de trânsito movimentado, é de poucos minutos e não compensa o risco das freqüentes trombadas e acidentes.
E nem o custo do stress.
O motorista norte-americano e europeu aceita com naturalidade e conformismo a existência de um padrão de velocidade média e de um limite máximo.
Troca a emoção pela segurança e tranqüilidade.
No caso deles não se trata apenas de uma opção, mas de uma imposição, contudo a reação é de conformismo e aceitação natural, sem reação.
E, por favor, não me venham com as exceções (abundantes nos news), pois são estatisticamente insignificantes, o que não é o nosso caso.
É interessante – e também estranho – para o brasileiro trafegar numa estrada ou numa larga avenida norte-americana e sentir que todos seguem a mesma velocidade, cada um em sua pista, sem encostar na traseira, sem forçar ultrapassagem, sem jogar luz de farol, sem apresentar atitude perigosa. Sem encher o saco...
E no peito aquela sensação de prisão e contenção, de algemas limitando as mãos ao volante e travando os pés junto ao acelerador, o motor moderno suplicando por uma rotação decente.
Mas nada é mais importante do que as estatísticas de acidentes.
A conseqüência é uma sociedade mais justa, confortável e humana.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 22h09
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Obrigações sociais
Constituição brasileira: muitos direitos, poucos deveres
Viver em sociedade é uma arte, segundo os que gostam de embelezar as idéias com adjetivos.
Uma forma mais fria de dizer isso: a vida social é muito complexa.
Não há sociedade que consiga se organizar usando somente as (assim chamadas) coisas positivas.
Em que todos só tenham direitos e vantagens.
Para tristeza dos idealistas, as sociedades de sucesso impõem muitos deveres aos cidadãos.
No Brasil, a sociedade idealizada começa na própria Constituição.
É famosa pela profusão de direitos e escassez de deveres.
O jornalista Elio Gaspari, em sua coluna publicada na Folha de São Paulo de 17/02/08, publicou uma estatística dos nossos direitos e deveres constitucionais, utilizando dados levantados pelo ex-ministro da Fazenda Pedro Malan.
É uma estatística informal, só trabalhando com as palavras e não com os conceitos, mas vale como curiosidade.
Eis a materinha:
MALAN E SEU CTRL+L
O professor Pedro Malan, ministro da Fazenda do tucanato, deu-se a um exercício de ciber-constitucionalismo. Botou o texto da Constituição na tela, teclou Ctrl+L e obteve o número de ocorrências da palavra "direitos" no texto: 74. Repetiu a operação com o termo "deveres" (no sentido de obrigações da patuléia) e as referências foram cinco. Concluiu: "Talvez isso diga algo sobre nós mesmos e a sociedade que estamos construindo".
A piada é ótima, mas a conclusão tem a sabedoria de um teclado. Se Malan repetir o exercício com a Constituição Americana, verá que "direitos" aparece 15 vezes e "deveres", no sentido que usou para o texto de Pindorama, nenhuma. A Carta americana tem 7.000 palavras, a brasileira, 80 mil.
Se a relação entre os direitos e deveres constitucionais fosse suficiente para caracterizar povos ou sociedades, Cingapura, com seu regime ditatorial, seria um paraíso. Lá o placar é de 33 direitos para 3 deveres. Há uma Constituição detalhista ao enumerar as obrigações da patuléia, é a de Cuba, com 24 deveres para 52 direitos.
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 22h59
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Adolescência e gravidez
A cafetina brasileira e a maternidade na adolescência
As mídias americana e brasileira acompanham atentas o caso da cafetina Andréia Schwartz, a principal responsável pela renúncia do governador de New York, Eliot Spitzer.
Na reportagem de O Estado de São Paulo de 17/03/05, página A-13, me chamou especialmente a atenção a impressionante freqüência da maternidade precoce na família dela. (para acessar a matéria, clique AQUI)
Começando pela ordem de importância, a própria Andréia, hoje com 33 anos, teve um filho (que a matéria chama de T.) aos 19 anos. Separou-se um ano e meio depois e deixou o tezinho permanentemente com o ex-marido.
A mãe dela, a costureira Elza Dias Lenke, tem 48 anos, portanto teve a filha Andréia com apenas 15.
Luzia, mãe de Elza e avó de Andréia, tem 65 anos, portanto já era mãe aos 17.
Confesso que, após esta introdução fácil, extraída de um texto jornalístico, tenho alguma dificuldade de continuar a escrever sobre este caso, com medo de parecer excessivamente pudico e moralista.
O problema é que não vislumbro outra coisa senão a relação entre a deficiência de formação familiar que aparece nesta seqüência genealógica e os seus fracassos profissionais, que desaguaram na vida fácil, na marginalidade, na prisão e nas páginas policiais.
A paternidade/maternidade responsável, para a nossa sociedade, é apenas um dogma lógico; para os países que deram certo, é uma obrigação cotidianamente fiscalizada e tenazmente perseguida.
Mulheres jovens não possuem experiência de vida para criar corretamente uma criança, e as exceções só servem para confirmar a regra.
A propósito, um dos cinco filmes indicados ao Oscar 2008 foi Juno, cujo tema é exatamente a gravidez na adolescência.
O filme vai confundir os organizadores das prateleiras das locadoras: não é um drama e também não é exatamente uma comédia, mas provavelmente esta vai ser a opção na hora do rótulo.
Os realizadores conseguiram solucionar a questão da criação do bebê da personagem Juno, de 16 anos, de forma não piegas, mas de acordo com o moralismo norte-americano: foi adotado por uma riquinha infértil.
O filme não deixou de ser moderninho, já que a mãe adotiva se separou do marido no decorrer da história.
E a personagem principal retomou a adolescência.
(Ainda bem que já está quase saindo de cartaz: há quem pregue a pena de morte para aqueles que contam o final de um filme.)
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 16h54
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Produtos orgânicos
Agricultura orgânica, à espera da primeira suspeita de fraude
O programa Globo Rural faz freqüentes reportagens sobre as culturas orgânicas, que são mais saudáveis para o consumidor; mais trabalhosas e mais lucrativas para o agricultor.
A oferta cresce aceleradamente no mercado alimentício.
Dia desses, uma loja do ramo contratou um desses moderninhos grupos de três ou quatro palhaços (os de verdade, vestidos a caráter) que desceram pela rua Mármore (bairro Santa Tereza, Belo Horizonte) apregoando loas aos alimentos orgânicos e gritando o endereço da loja do patrão.
É só um exemplo, mas o crescimento do mercado é um fato.
É bonito ver na telinha que muitos agricultores, especialmente os mais humildes, estão ganhando mais e melhorando de vida com a novidade.
Mas o mercado é pendular.
Em algum momento a oferta vai superar a procura e os preços vão cair, puxando o lucro para baixo.
Os mais otimistas esperam evitar ou atenuar a teoria econômica com a expansão do mercado, apregoando aos quatro ventos as vantagens para a saúde.
Pessimistas como eu ficam temendo pelo dia – inevitável, perante nosso determinismo – que os vigaristas, uma classe profissional muito representativa nesta Terra de Cabral, vão aderir ao negócio.
Quando um ou mais deles mostrar a cara no Jornal Nacional, seguro no cangote por policiais federais de jaqueta escura preta e óculos idem, meus leitores podem anotar: na manhã seguinte, em todos os mercados, mercadinhos e mercadões da ex-Terra de Vera Cruz, começam a encalhar os alimentos orgânicos.
Que os candidatos à manchete global não me leiam: é fácil burlar o consumidor na venda destes produtos.
Falsificar um produto industrializado é muito mais difícil: para montar um DVD-player da Sony sem roubar nenhuma peça, construindo o gabinete externo e os circuitos por metade do preço, é preciso tanto genialidade que o autor merece até perdão.
(Não estou pregando a impunidade, pois ninguém vai conseguir aplicar este golpe.)
Agora, se alguém pega uma batatinha, tasca um plástico em volta e cola um rótulo onde está escrito “produto orgânico”, com o quádruplo do preço, que consumidor vai provar que não é?
Mas a polícia, com câmeras ocultas e interceptações telefônicas, um dia chega lá.
Porque no meio dos malandros Jack Daniels Made in Scotland tem sempre os malandros coca-cola.
É só esperar.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 17h44
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Brasileiro: mais prazer, menos trabalho
Quem desvaloriza o Trabalho como valor humano, se dana...
Há 15 ou 20 anos atrás li uma entrevista da atriz Irene Ravache que me chamou a atenção.
Me grilou, me encucou.
Ela alegava estar arrependida por ter dado uma educação excessivamente liberal para os filhos.
Contou que descobriu, na maturidade, que criança e adolescente precisam de uma mão forte, dominadora, determinando os caminhos.
Pouquinhos anos atrás me desencuquei.
A mídia noticiou o sério envolvido do filho mais velho dela, Hiran, com as drogas.
Conversando recentemente com uma senhora um tantinho além da meia-idade (tipo eu), ela me contou que não levou a filha para ajudar na loja (uma pequena firma no centro de Belo Horizonte) na adolescência por excesso de zelo.
Queria protegê-la, evitar que começasse a trabalhar cedo, para ter uma vida mais folgada, com mais tempo para se dedicar aos estudos e ao futuro.
Só que a mãe tem prazer de trabalhar e muita consciência disto.
E a filha atualmente cursa a faculdade, mas não demonstra a mesma energia e disposição.
Mais uma do time dos arrependidos.
São exemplos de uma cultura curiosa, que supervaloriza a esperteza, o ócio, o dinheiro fácil, a tolerância.
Partindo destes dois exemplos (diferentes, que fique bem claro!) e com base em minhas experiências, estudos e conclusões, me atrevo a definir, de forma bem generalizada, a formação moral do jovem em culturas internacionais e divergentes:
a) A criança (e o jovem) primeiro-mundista se desenvolve cercada por um ambiente (casa, escola, sociedade) que professa as idéias de trabalho, esforço, procura de objetivos de vida, honestidade. Uma minoria de desgarrados reage contra esta pressão social e adota os conceitos de ócio, malandragem e até criminalidade.
b) A criança (e o jovem) terceiro-mundista se desenvolve cercada por um ambiente (casa, escola, sociedade) que valoriza as idéias de ganho fácil, de prazer, de esperteza.
O caso mais positivo – e minoritário – reúne os brasileiros que se criaram num ambiente em que os pais ou responsáveis eram bastante convictos dos conceitos relacionados com o vínculo do trabalho com o prazer e a obrigação.
Percebo que, no Terceiro Mundo, a influência negativa a respeito da idéia do trabalho faz com que muitas pessoas só mudem depois do amadurecimento.
"Se eu tivesse me esforçado mais na escola [ou no trabalho] minha vida estaria muito melhor hoje": esta frase é tão comum que às vezes chega a ser cansativa.
Conviver com a juventude no Brasil, na América Latina, e em outros lugares que colecionam fracassos coletivos, é sentir na pele a procura intensa e constante do prazer e também a falta de percepção do futuro e dos problemas sociais.
Pelo menos os mais conscientes, mais racionais, são capazes de, depois de algum tempo, modificar conceitos.
Os demais levam a coleção de fracassos para o túmulo.
[Acho que vou procurar um tema ameno para postar amanhã e não correr o risco de perder leitores, assustados com a abordagem e o unhappy end de hoje.]
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 19h22
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Titubeante política brasileira (conclusão)
Órgãos públicos lavam as mãos e abandonam projetos quando encontram dificuldades
Sou muito impressionado com os aspectos culturais do nosso povo, em ver como certas atitudes se repetem em diferentes épocas e lugares.
E me decepciona este comportamento de abandonar a completa execução de uma atividade quando a reação da população impede a plena realização do projeto elaborado (vide texto de ontem).
Em alguns casos a população pode estar errada e o projeto deve ser imposto.
Em outros casos ambos podem estar parcialmente errados, e o caminho é a realização de um projeto modificado.
Mas o mais comum, como nos dois exemplos, a decisão da autoridade é abandonar o projeto.
O ato de lavar as mãos, do governador Pôncio Pilatos, fez história.
E o curioso é que esta atitude dele pode nem ter acontecido.
Arqueólogos e historiadores da religião, em entrevistas a documentários televisivos, disseram que é improvável que um todo-poderoso representante do Império Romano tenha se omitido num fato tão importante como a punição ao líder de um grupo rebelde, que não acatava a sua autoridade.
Acham mais provável que tenha havido um erro de interpretação ou de tradução.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 21h16
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Titubeante política brasileira
Órgãos públicos abandonam projetos quando encontram reação contrária
O jornal Hoje em dia de 15/02/2008 apresentou uma reportagem sobre o abandono e acúmulo de lixo no Mercado Distrital de Santa Tereza.
Recapitulando: por má administração, todos os mercados distritais da capital mineira passaram os últimos anos em decadência e deterioração.
Até meados de 2007, o de Santa Tereza estava com poucos lojistas, poucas bancas e poucos fregueses.
Quase entregue às moscas.
A Prefeitura decidiu fechá-lo e lá instalar a sede da Guarda Municipal.
Mas os comerciantes do mercado conseguiram mobilizar moradores e a Prefeitura recuou do propósito de alojar a Guarda, acossada por passeatas e até um plebiscito.
Mas prosseguiu no despejo e conseguiu tirar os comerciantes; depois eles voltaram através de ações judiciais; depois eles foram mais uma vez sacados de lá.
E então nada mais aconteceu, a não ser a inexorável ação maléfica do tempo.
Parece que a Prefeitura, mineiramente, optou por deixar tudo parado para não perder voto em ano de eleições municipais.
O velho e famoso “deixa pra lá!”.
O DEIXA PRA LÁ – NA UFMG
Este caso me fez lembrar um parecido, dos meus idos tempos de estudante universitário.
Quando eu cursava o primeiro ou segundo ano (1980 ou 1981) da Escola de Veterinária da UFMG, o Colegiado aprovou seu projeto de novo currículo para o curso.
Sob a alegação que o currículo privilegiava a especialização do profissional e que o veterinário deveria ser mais generalista, líderes estudantis (dirigentes de grêmios) provocaram uma greve e os professores recuaram, aprovando um currículo com modificações sugeridas pelos estudantes.
Mas currículo universitário é uma coisa complicada e exige muitos estudos prévios, pois muitas matérias são seqüências de outras, que precisam ser cursadas antes.
São os pré-requisitos.
Em represália, e também por medo de nova ação de rebeldia, o Colegiado não fez as adaptações necessárias e, nos anos seguintes, a cada início de semestre, os estudantes passavam por uma maratona para tentar fazer a matrícula.
Dependendo da matéria, a única opção era ir para a fila na véspera e passar toda a madrugada guardando vaga.
E, ainda dependendo da matéria, quem não cursasse não se formava.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 19h53
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Vida privada na mídia
Marido de Ana Maria Braga não paga pensão de filhos (dele) e ainda ameaça repórter
Esta história é tão insólita que resolvi transcrever, na íntegra. Foi publicada na Folha de São Paulo de 02/02/08, coluna Mônica Bergamo, página E-2. Nem comento.
"Vou adorar passar o Carnaval na cadeia"
O empresário Marcelo Frisoni, marido de Ana Maria Braga, é acusado de não ter pago pensão alimentícia para os dois filhos que teve com a advogada Patrícia Palma. Ela diz que conseguiu, na 6ª Vara de Família de SP, a decretação de um mandado de prisão contra ele. O Tribunal de Justiça alega que o caso corre em segredo de Justiça e não confirma a existência da ação. Frisoni falou ao repórter Diógenes Campanha.
FOLHA - Soubemos que foi expedido um mandado de prisão contra você...
MARCELO FRISONI - Não estou sabendo, mas estou à disposição. Vou adorar passar o Carnaval na cadeia. Pelo amor de Deus...
FOLHA - Mas você paga a pensão em dia?
FRISONI - Faz o seguinte: liga para a Patrícia, publica o que você tiver que publicar. Acha que eu vou esquentar a cabeça com ela? Vou ser sincero: publica o que você quiser. No dia seguinte, eu vou aí na Redação dessa bosta de jornal, eu encho essa Mônica Bergamo de porrada na frente de todo mundo. E nós vamos nos cruzar por aí de novo. Aí a gente vai conversar como homem. Se quer levar como ameaça, leva.
Nunca tive problema com ninguém. A única pessoa que me enche o saco é a Patrícia. Estou no mesmo escritório há dez anos e o Brasil sabe onde mora a Ana Maria. Se eu tivesse problema, já teria aparecido.
A única pessoa que tentou ferrar comigo foi o [Carlos] Madrulha [ex-marido e ex-empresário de Ana Maria] e eu acabei com ele. Hoje ele é secretário de cachorro, não consegue mais nada. A Patrícia tem raiva porque eu estou bem, porque eu estou feliz. O problema dela não é dinheiro, porque se eu der R$ 100 mil, ela vai querer R$ 200 mil.
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 17h15
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Ineficiência do serviço público (continuação)
UM CASO DE BUROCRACIA VERBAL
Décadas atrás, quando iniciei minha vida profissional, trabalhei num órgão público como datilógrafo.
Ao ser transferido de setor, caí numa sala que não tinha uma boa máquina de datilografia.
Requisitei ao setor de material uma Olivetti elétrica, modelo Tekne 3, hoje só existente onde a modernidade ainda não chegou.
Umas duas horas depois, sem resultado, cobrei e ouvi um “estamos providenciando”.
Fiquei preocupado, pois tinha que produzir, diariamente, um mínimo de 18 laudas (folhas) datilografadas.
Uma hora depois outra cobrança e outro “estamos providenciando”.
Mais uma hora e mais um “providenciando”.
No final da tarde, já conformado com a necessidade de horas extras não reembolsáveis para cumprir a produtividade, fiz uma tentativa pessoal junto ao funcionário responsável.
Para minha surpresa, ele pegou uma no armário e me entregou, com a maior facilidade.
Como mantive uma postura tranqüila e amigável, ele relaxou e me deu a seguinte justificativa: Muita gente pede material sem necessidade. Para dificultar, eu recuso ou então enrolo, adio. Se o funcionário insistir várias vezes, é sinal de que ele realmente precisa do material. Aí eu libero.
Jamais vou me esquecer!
O interessante é que o moço, que saiu de lá um ou dois anos depois (sinceramente não guardei o nome), nem era funcionário efetivo.
Era um apadrinhado político, que saiu de lá quando o padrinho (aliás, cunhado) deixou o cargo de diretor.
Deveria patentear a técnica de fazer a burocracia do bem: como criar empecilhos para dificultar os abusos.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 17h26
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Ineficiência do serviço público
A face positiva da burocracia
Bureau, em língua francesa, é um móvel. Uma escrivaninha, uma mesinha.
Nele ficava o funcionário público que atendia as pessoas que iam solicitar registros, documentos, autorizações.
Há séculos que, internacionalmente, a palavra bureau gerou os derivados burocracia (a classe do funcionalismo público) e burocrata (pessoa que faz parte do corpo de funcionários da burocracia).
Mas a lentidão de atendimento aos pedidos desde o período monárquico, na Europa e no Brasil, criou um segundo sentido (nosso) para burocracia.
Virou sinônimo popular de lentidão, morosidade, dificuldade.
A noção comum é que se trata de um estorvo.
Tenho, contudo, uma tese original, na contramão do senso comum.
Acho útil para o Brasil.
Útil porque a simplificação só é eficiente em uma cultura positiva e homogênea, onde a absoluta maioria das pessoas é honesta, rigorosamente honesta.
Onde o funcionário público vê a coisa pública como uma propriedade coletiva, tão merecedora de respeito quanto a propriedade pessoal.
Nossa cultura é estranhamente oposta: o que é público, não é de ninguém.
Uns tratam com desmazelo; outros levam para casa e no caminho pensam: “Não tem dono mesmo, e se eu não levar, o meu colega leva.”
E qual o percentual dos que seriam capazes de criar um inimigo, até de arriscar a vida, por causa de uma propriedade pública?
Burocracia representa, geralmente, excesso de papéis, de assinaturas, de testemunhas e de autorizações.
(O cartão corporativo era um atalho importante, reduzia a papelada, o tempo gasto e as etapas intermediárias. Deu no que deu.)
Mas exatamente aí está a face positiva: eleva-se a dificuldade para o desonesto.
Aumenta o seu risco.
Geralmente o desonesto prefere atacar quando a burocracia é discreta e os procedimentos de controle são simples: poucas autorizações na liberação de um material, de entrada e saída de pessoas e equipamentos, etc.
E a burocracia excessiva acaba se tornando uma arma de controle e fiscalização.
DESBUROCRATIZAÇÃO FRACASSOU
Uma das jogadas de marketing do último governo da ditadura militar no Brasil, o do general João Baptista de Oliveira Figueiredo (1979-85), foi a criação do Ministério da Desburocratização.
O primeiro ministro nomeado foi Hélio Beltrão, pai da gordinha, rouquinha e risonha apresentadora substituta do primeiro jornalístico Global diário, Maria Beltrão.
Mas seus decretos, portarias e projetos de lei foram sendo paulatinamente derrubados nos anos seguintes.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 18h35
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Reforma gramatical portuguesa
Parece que agora sai a reforma ortográfica
Quinta-feira, 07/03/08, o Conselho de Ministros de Portugal decidiu aderir ao acordo ortográfico entre os países de língua portuguesa, firmado em 1991 e até hoje não implementado.
Falta ainda a ratificação do Parlamento e o referendo do presidente da república, mas matéria da Folha de São Paulo do dia seguinte sugere que agora ficou mais fácil.
O acordo já estava aprovado por Brasil, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe.
O MEC – Ministério da Educação e Cultura, brasileiro, informou que o ministro Fernando Haddad vai se reunir com representantes do equivalente português e vai propor a adoção das novas regras em 2010.
Eis um resumo das novas regras elaborado pela mesma Folha:
O QUE MUDA:
- HÍFEN - Não se usará mais: quando o segundo elemento começa com s ou r, devendo estas consoantes ser duplicadas, como em "antirreligioso". Será mantido o hífen quando os prefixos acabam em r: "hiper-". Quando o prefixo termina em vogal e o 2° elemento começa com outra vogal: "autoestrada"
- TREMA - Deixará de existir, a não ser em nomes próprios
- ACENTO DIFERENCIAL - Não se usará para diferenciar: "pára" (flexão do verbo parar) de "para" (preposição)
- ALFABETO - Passará a ter 26 letras, com as letras
k, w e y »
ACENTO CIRCUNFLEXO - Não se usará: nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus derivados. Em palavras terminadas em hiato "oo", como "vôo"
ACENTO AGUDO- Não se usará: nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "idéia". Nas palavras paroxítonas, com "i" e "u" tônicos, quando precedidos de ditongo. Exemplo: "feiúra". Nas formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com "u" tônico precedido de "g" ou "q" e seguido de "e" ou "i", como "averigúe"
GRAFIA - No português de Portugal: desaparecerão o "c" e o "p" de palavras em que essas letras não são pronunciadas, como "acção". Será eliminado o "h" de palavras como "húmido"
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 21h04
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Estudantes brasileiros expulsos da Espanha
A formalidade é indispensável nos contatos profissionais
A tão decantada informalidade alegre e brincalhona do brasileiro tem um custo quando acontece nos contatos profissionais.
No plano interno, quando uma das partes tem uma postura mais formal.
No plano externo sequer pode ser utilizada, pois o padrão de comportamento nos contatos profissionais é sempre formal, distante, sisudo.
Matthew Shirts é um norte-americano que chegou ao Brasil há três décadas, sem falar português, para fazer pesquisas de pós-graduação (ele havia se formado em ciências sociais).
Hoje vive no Brasil, tem uma família brasileira e escreve crônicas no O Estado de São Paulo todas as segundas-feiras.
Em uma delas ele tocou neste assunto e contou um caso de uma dupla de adolescentes americanas que estava fazendo muita algazarra na fila da alfândega (lá nos EUA) enquanto ainda estavam distantes do balcão de atendimento.
Quando se aproximaram, mudaram a postura, ficaram quietas e conversaram com o funcionário seguindo os padrões de formalidade.
Estavam condicionadas para separar o comportamento pessoal do comportamento social.
Nesta linha, o caso de mais impacto que me lembro aconteceu algumas semanas ou meses depois da marcante data de 11 de setembro de 2001.
Dois jovens brasileiros ficaram cerca de três meses presos em uma cadeia norte-americana porque teriam dito, de brincadeira, ao funcionário da emigração num aeroporto de lá, que tinham uma bomba na mala.
Entrevistados pela mídia brasileira, seus familiares disseram que eles teriam se referido a uma bomb, que seria uma bomba de ar para encher pneus.
Quase acreditei, mas a mãe de um deles se traiu posteriormente com este pedaço de frase: "Nós [brasileiros] somos assim."
O caso do momento é a expulsão de alguns brasileiros que foram detidos no aeroporto de Barajas, Madri.
Ganharam destaque os dois jovens que desceram apenas para uma conexão com destino a Lisboa, onde estavam inscritos num congresso técnico (são estudantes de pós-graduação no Iuperj – Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro).
Como eles foram maltratados, o caso foi muito divulgado e, no primeiro dia, a imprensa chegou a falar que eram 40 os brasileiros detidos (o número real é bem menor, mas continua misterioso).
Mas a matéria da Folha de São Paulo de 07/03/08, página C-1, sugere que o caso deles pode ter chegado até onde chegou por causa de falhas na formalidade de diálogo e trato entre eles e a polícia alfandegária.
Eis o trecho da matéria, originário de uma entrevista com Luiz Carlos Lima, professor universitário e pai do jovem detido, Pedro Luiz Lima:
O estudante disse ao pai que credita a proibição a uma espécie de punição ao comportamento do casal brasileiro. Lima admitiu ao pai ter sido "muito irônico" quando abordado pelos guardas espanhóis. Já Patrícia, segundo ele, ao saber que estava detida, teria sofrido uma crise de nervos, atirando-se ao chão, com gritos e muito choro.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 17h52
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Política e negociações no varejo
A sina da política é a negociação sem fim
Vejamos alguns fatos isolados recentes e bastante divulgados pela mídia:
à A polícia espanhola detém cerca de 40 brasileiros que chegaram no mesmo avião ao aeroporto de Barajas, Madri. Eles foram tratados como suspeitos de imigração ilegal e, até a hora em que escrevo, havia previsão de deportação para 22. No entanto, alguns casos identificados pela mídia brasileira são de estudantes universitários que iam participar de um congresso em Lisboa e apenas faziam conexão na capital espanhola.
Em represália, na noite de 05/03/08, a Polícia Federal brasileira deteve oito espanhóis que acabavam de chegar a Salvador, sob alegação de pequenas irregularidades, como declaração incompleta de dinheiro transportado. Três eram agentes de viagem. Todos foram deportados mas a PF declarou à imprensa que nao foi represália.
à O ex-presidente José Sarney entrou em disputa com a ministra Dilma Rousseff pela nomeação de dirigentes nas estatais da área energética. Como Lula deixou a briga correr, ele anunciou que pediria licença no Senado, juntamente com a filha Roseana e mais um aliado. O governo perderia a garantia de três votos, o que seria perigoso em caso de alguma votação difícil. Aí o valente e brioso Lula assinou as nomeações exigidas.
à A Petrobras explora, há anos, a produção de gás da Bolívia, país que jamais conseguiu criar empresas com capacidade tecnológica de fazer este trabalho. Mas o presidente Evo Morales (um ex-representante sindical dos indígenas) mandou o exército cercar as instalações da estatal brasileira e assinou decretos tomando as propriedades e praticando a sub-indenização. Parecia até que a crise seria séria, mas eram muitos os fatores complexos. Para Morales, se o custo subisse muito, parte do mercado brasileiro trocaria definitivamente o combustível de seus motores industriais e automobilísticos e também a fonte de energia doméstica, e ele jamais voltaria a vender grandes quantidades de gás. Para Lula, um ex-operário, não interessava a publicidade negativa de um confronto com um indígena, representante (como ele) do ideário do Governo do Povo. Depois do marketing da invasão da Petrobras, eles voltaram a se entender nos bastidores e reacertaram o passo longe da mídia e do público.
à O exército colombiano penetra menos de dois quilômetros adentro do território do Equador para atacar guerrilheiros também colombianos. Quem reage primeiro é o presidente da Venezuela, que em tese nada tem com o problema. Anuncia até o risco de guerra. O presidente do Equador vem ao Brasil e é recebido por Lula, que se nega a comparecer depois à entrevista coletiva do visitante. Exércitos da Venezuela e Equador são colocados em alerta e tropas são transportadas para fronteira. Chávez fecha a fronteira da Venezuela com a Colômbia, afetando o extenso comércio entre os dois países. Muito dinheiro se perde, muitas pessoas são prejudicadas, mas Chávez tem o seu desejado ganho de marketing político (estava caindo nas pesquisas). Hoje o problema já foi transferido para a área diplomática. E tende a ficar exclusivamente nesta área, desde que não surjam fatos novos.
à Surge na imprensa a denúncia de relações pessoais entre Chávez e os guerrilheiros colombianos das Farc. A princípio, parece teoria conspiratória e campanha de maledicência. Mas os indícios têm lógica, pois envolvem interesses de ambos os lados. No final, seria uma compra e venda de diferentes tipos de valores, um comércio, um troca-troca. Chávez precisava da publicidade internacional de “salvador dos reféns”. O que se suspeita que ele fez? Pagou o resgate, com a condição de que este pagamento não seria revelado nem confirmado. Comprou a publicidade. Ele ganhou o marketing e os guerrilheiros receberam dinheiro para continuar atacando seus inimigos internos na Colômbia. Tem total lógica.
A história mais curiosa, que aparentemente ainda não foi confirmada: o acampamento dos guerrilheiros só teria sido localizado porque uma mensagem entre Chávez e o líder morto deles teria sido interceptada pela polícia colombiana. Seria uma situação impressionante se fosse confirmada. Mas, pessoalmente, acho que foi informação plantada, de interesse do presidente colombiano.
Atos versus retaliações; negociação e renegociação. É o troca-troca no cotidiano da política. Coisa que os moralistas e puristas renegam, mas nenhum governo eleito consegue acabar. Geralmente fazem o contrário: até incentivam e utilizam tais atos. Frequentemente os expandem.
Cada caso citado tem suas particularidades. Apenas destaquei exemplos do jogo do confronto na administração de uma sociedade.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 17h21
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Uma piada blogolóide
Terceira idade
Duas senhoras idosas estavam tomando o café da manhã num restaurante. Ethel notou alguma coisa engraçada na orelha de Mabel e disse:
"Mabel, você sabe que está com um supositório na sua orelha esquerda???"
Mabel respondeu:
"Eu tenho um supositório na minha orelha??"
Ela o puxou, olhou para ele e então disse:
"Ethel, estou feliz que você tenha visto... Agora eu acho que sei onde encontrar meu aparelho auditivo..."
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 17h59
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Chávez vs. Uribe - É guerra?
Ameaça de guerra na América Latina
Vamos resumir os fatos desta seqüência absurda:
1º) Um país, a Colômbia, é largamente afetado pela criminalidade originada da produção de cocaína e pelo narcotráfico.
2º) Em 2002 o novo presidente, Álvaro Uribe, toma uma atitude firme e se torna o primeiro dirigente político do país a combater duramente o narcotráfico e os grupos guerrilheiros associados a este.
3º) Os grupos guerrilheiros instalam suas bases junto às fronteiras, ou até nos países vizinhos, para dificultar o acesso do exército colombiano e também para inibir seus ataques (pelo risco de incidente diplomático).
4º) O principal grupo guerrilheiro (Farc - Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) instala o quartel-general do seu líder número dois (Raúl Reyes) no território do Equador, a 1.800 metros do rio Putumayo, que demarca a fronteira.
5º) O governo do país invadido pelos criminosos aparentemente nada faz para expulsá-los, evidenciando uma suspeitada relação de interesse e até proximidade ideológica.
6º) O exército colombiano entende como prioritária a destruição do QG e arrisca-se a uma medida ousada e, perante o Direito internacional, ilegal: atravessa o Putumayo e ataca os guerrilheiros também colombianos.
7º) O presidente (Hugo Chávez) de outro país (Venezuela), vizinho ao norte, distante da área de conflito, convoca uma coletiva da imprensa, repudia o ataque, fala em risco de guerra e mobiliza tropas para a sua própria fronteira com a Colômbia.
8º) Só depois desta reação, de iniciativa do presidente de um país não envolvido diretamente, é que o presidente do próprio Equador, Rafael Correa, se posiciona com declarações, movimento de tropas militares e expulsão de embaixador.
Aqui a seqüência se interrompe, à espera dos próximos movimentos do jogo de xadrez que é a geopolítica.
Mas a chave da postura de Chávez (com o perdão do trocadilho) é: político populista de origem militar, num momento de ineficiência administrativa e redução dos índices de popularidade sempre pensa na GUERRA como forma de exacerbar o nacionalismo e unir a nação tendo ele como centro.
E a América Latina segue escorregando na História: um passo para a frente, depois outro para trás.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 16h35
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Impunidade e religião
A impunidade do crime e a tolerância religiosa do povo brasileiro
O aumento da criminalidade é atribuído pelo povão à impunidade. É só o repórter abrir o microfone para os comentaristas de rua que o governo leva bordoada. "A culpa é da impunidade", bradam, exaltados, todos os comentaristas, acrescentando uma ou outra palavra para dar um toque personalista ao comentário. Nas rodas de boteco os três poderes da república apanham – democraticamente – em iguais proporções: o Executivo por não trancafiar direito a marginália, o Legislativo por fazer leis brandas e o Judiciário por assinar as ordens de soltura.
Mas a consciência das massas ora pende para a dureza com os criminosos, ora para a compaixão. O brasileiro se vê – e tem orgulho disso – como parte de uma sociedade bondosa, caridosa. Influência do catolicismo, com suas promessas de Paraíso Celeste para os fazedores de boas-ações. Um certo escoteirismo astral.
Me lembro de dois casos marcantes em que a caridade predominou. Marcantes também pelo fato de terem sido cenas comuns, cenas do cotidiano, que acontecem a todo momento, em todo lugar – desde que dentro do território brasileiro, protagonizados por nosso povo indeciso.
Um deles aconteceu na Avenida Afonso Pena, quase esquina com a rua Espírito Santo, umas duas décadas atrás. Feito um raio, passou por mim um rapazinho perseguido por uma meia dúzia de homens adultos gritando "Pega ladrão!". Me juntei ao grupo. Na esquina com a Rua Tupis o gatuninho e o perseguidor mais ágil atravessaram a Afonso Pena mas tiveram que parar no canteiro central, pois o trânsito seguia firme na mão de lá. Só que o sinal abriu para os carros na mão de cá e os dois ficaram sozinhos. Neste momento, o larapinho já estava nas mãos do perseguidor.
Enquanto o sinal não abria, formaram-se três grupos. Do lado oposto da avenida, um grupo de pivetes já havia se juntado e gritava, ameaçador, esperando a chance de socorrer o companheiro. Do lado de cá, os voluntários da brigada anti-ladrão. No canteiro central, o ladrãozinho e o candidato a herói.
Como o sinal se fechou para os carros no mesmo instante, e nas duas mãos, a turma do bem correu para o meio e a pivetada preferiu bater em retirada. Aí apareceu a vítima, uma mulher de meia-idade, que recolheu imediatamente a carteira roubada e, plena de espírito humanitário, pediu a liberação do rapazinho. "Você está falando sério? É um ladrão, te roubou!", disse o voluntário, olhar incrédulo. "Vamos dar outra oportunidade a ele", explicou a bondosa. "Se você, que foi vítima, não vai dar queixa, eu deixo pra lá, mas prometo que nunca mais ajudo ninguém", encerrou o ex-bom samaritano.
Em outro dia daquela mesma época estava eu iniciando a jornada de volta para casa, no ônibus Santa Tereza, centro da cidade, quando se ouviu o grito de “ladrão, ladrão”. O gatuno foi logo agarrado, na verdade um gatuninho, um pivete. A reação dele foi gritar, desesperado, pedindo socorro. Não foi espancado, mas gritava feito um louco.
Logo que os passageiros agarraram o menor, um casal de idosos saiu do extremo do ônibus e foi interceder por ele. Caridade, Deus, amor, nova oportunidade, fome, e falta de estudo foram as tradicionais expressões usadas para defender a libertação. Ainda gritando, o jovem candidato a ator conseguiu o desejado intento.
Em comum nos dois casos, o pivete. No final dos anos 80 apareceu um alarmante contingente de menores delinqüentes na capital mineira. Cometiam pequenos atos criminosos, esporadicamente feriam ou até matavam alguém (geralmente com um canivete). Esta geração cresceu e a partir dos anos 90 continuou no mundo do crime, desta vez substituída por criminosos violentos, movidos a droga e usando armas de fogo.
A questão da impunidade passa por aí. Pelo cotidiano, em seus pequenos atos.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 17h22
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O caráter do brasileiro
A honestidade, um problema no caráter do brasileiro
Dia desses, estava na Lojas Americanas do shopping Pátio Savassi, no corredor das guloseimas, quando percebi que uma moça à minha frente pegou um bombom e o colocou no bolso, num gesto rápido.
E seguiu pelo corredor, e depois até o caixa, com a cara limpa.
Na mesma semana, num supermercado, um adulto e uma criança, provavelmente pai e filho, comiam salgadinhos, tipo chips, pelo corredor.
Pela atitude de despiste, de disfarce, o papai não tinha intenção de pagar.
E o filho-bom-aluno, aprendendo a técnica, preparando-se para o futuro...
Na mesma época, talvez na mesma semana, na primeira loja do Supermercado Epa da Avenida Cristiano Machado (Belô) eu era o próximo a ser atendido na fila dos caixas.
À minha frente, uma mulher de meia idade enchia o carrinho de compras.
Quando a funcionária se virou para passar o cartão de pagamentos na máquina leitora, ele pegou o restante dos saquinhos de plástico e colocou no meio das compras.
Mas o cartão deu problema e ela teve que se afastar alguns metros para conversar com outra pessoa, com quem estava acompanhada.
Observei que a funcionária olhou para o carrinho, viu o pacotinho de sacos plásticos não utilizados (talvez uma dezena), fez uma expressão de indecisão, mas preferiu fingir que não havia percebido o micro-roubo.
Considerando que o carrinho estava cheio e que havia utilizado entre 30 e 50 saquinhos de plástico, quase todos reaproveitáveis, fiquei sem entender para que ela quereria mais uma dezena.
E por que seriam tão importantes para ela, a ponto de motivar um ato que, rigorosamente falando, é roubo?
Afinal, comprados no atacado, não devem ter custado ao Epa mais do que uns cinco centavos de real.
(A vi no estacionamento, pilotando um carro marca Palio, bem novo.)
Mas, pensando bem, lembrei que é algo tão comum que, em todos os supermercados, os caixas só colocam pequenas quantidades à disposição de cada freguês, deixando os restantes fora do alcance destes.
Esta malandragem compulsiva, esta tendência obsessiva e incontrolável de roubar, de surrupiar, de levar vantagem, faz parte do cotidiano deste país, é um traço da personalidade que já foi descrito por inúmeros estudiosos, hoje capitaneados neste campo por Roberto DaMatta.
Os eufemismos (surrupiar, levar vantagem, e dezenas de outros) ficam por conta dos atores.
No Primeiro Mundo é algo tão incomum que se torna assunto da psicanálise e da literatura, como aconteceu com o livro Marnie, que virou até filme do mestre do suspense, o inglês Alfred Hitchcock.
No Terceiro Mundo é tão corriqueiro que só chama a atenção dos puristas e dos observadores, analistas, sociólogos.
E um ou outro blogueiro.
Mas a nossa cultura é tão heterogênea que consegue manter a convivência de opostos.
Encontrei o oposto deste grupo na Casa Lira, uma loja de artigos musicais situada no piso superior do Mercado Novo, na Avenida Olegário Maciel.
Firma até antiga, fundada pelo pai da Clauzir e sua irmã, atuais proprietárias.
Deixei lá, para vender, um velho saxofone, herança de um tio-torto (o marido da tia de sangue), advogado de profissão, que certamente o recebeu como pagamento de cliente.
Venda sob consignação, em que a Casa Lira ficaria com módicos dez por cento.
E o sax nem tocava mais, um trombolho ofertado como artigo de decoração.
Vacinado pelo padrão de honestidade do povo brasileiro, fiquei surpreso quando ela adiou o fechamento da venda porque não me encontrou para ouvir a proposta.
Acreditando, por equívoco, que o negócio tinha se desfeito, ganhei outra surpresa quando ela telefonou, lembrando com finesse que eu ainda não havia ido buscar o dinheiro.
E na hora do acerto ainda recusou uma merecida gorjeta pela honestidade e eficiência.
Saindo do particular e voltando para o coletivo: é uma sociedade heterogênea, e por isso mesmo confusa.
Nas reuniões, as pessoas não falam a mesma linguagem, e por isso jamais chegam a um denominador-comum espontâneo.
As decisões são impostas, as maiorias usam os poderes regulamentados, as minorias obedecem até o limite da obrigação e necessidade.
É o império da democracia ditatorial.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 18h03
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O autor e seus objetivos
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Este
blog divide meus textos em 4 partes:
Turfe
- Vivi intensamente as corridas de cavalos do Hipódromo
Serra Verde, de 1970 até meados de 2004. Crônicas, análises,
história e lembranças foram registradas no computador e
muitas delas aqui estão ou serão publicadas neste blog e
também no site do
Jockey.
Para o blog ficam reservados textos mais curtos, mais leves,
para não cansar o leitor.
Crônicas e análises
- Assunto: qualquer um.
Dia-a-dia
- Comentários, notas, fotos interessantes.
Árvore
genealógica - Quando
me interessei pelas minhas raízes, descobri que poucos conhecem
suas origens familiares, seus ascendentes. Neste espaço
deixo um resumo de minha árvore genealógica e também um
pedido para quem tiver uma informação nova a respeito, que
mande um e-mail para marcio.avila@uol.com.br.
Márcio
de Ávila Rodrigues é médico-veterinário e jornalista. Reside
em Belo Horizonte-MG, Brasil, onde nasceu na década de 50.
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Outros
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Uma superpágina de informática
Blog do Márcio d'Ávila - o assunto é informática
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