Anglofilia IV
A inglesofilia começou no início do século 20
Temos a tendência de achar que certos costumes são recentes.
Décadas atrás, quando tive a oportunidade de conhecer a vida e obra de Noel Rosa, glória da música brasileira, descobri que ele já criticava esta adoração popular da língua inglesa.
A maior parte de sua produção artística foi concebida entre 1930 e 1937, quando ele morreu, com apenas 26 anos de idade e mais de 300 músicas compostas.
Uma de suas mais interessantes é “Não tem tradução”, em que ele ironiza exatamente esta mania.
Vejam a letra desta melodia:
O cinema falado é o grande culpado da transformação
Dessa gente que sente que um barracão prende mais que o xadrez
Lá no morro, se eu fizer uma falseta
A Risoleta desiste logo do francês e do inglês
A gíria que o nosso morro criou
Bem cedo a cidade aceitou e usou
Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote
Na gafieira dançar o Fox-Trote
Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição
Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês
Tudo aquilo que o malandro pronuncia
Com voz macia é brasileiro, já passou de português
Amor lá no morro é amor pra chuchu
As rimas do samba não são I love you
E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny
Só pode ser conversa de telefone...
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 19h45
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Anglofilia III
Fredielson, ou Fred mais Nelson
Na mesma viagem ao Pará (vide o post anterior) solicitei algumas informações de um jovem monitor do Parque Natural Emílio Goeldi, na capital Belém.
Ao olhar o crachá de identificação, verifiquei que o monitor se chama Fredielson, certamente uma mistura dos nomes ingleses Fred e Nelson.
Na ansiedade de agregar algo de maior valor cultural, seus pais resolveram fundir um duplo nome inglês, e também fizeram uma concessão à originalidade, criando uma palavra única e desconhecida.
Aliás, nomes próprios de origem inglesa com erro de grafia são impressionantemente comuns.
Outro caso interessante e parecido ocorre com o apostrofo seguido pelo “s”, um recurso típico da língua inglesa, que é muito comum em humildes bares e botecos do nosso país.
Milton’s Bar, Joca’s Bar, Antônio’s Bar, são nomes que ocorrem, às vezes às dúzias, em médias e grandes cidades brasileiras.
Ainda não vi um Zé’s Bar, que teoricamente deveria ser o mais freqüente, pois deve haver milhões de Josés no Brasil, mas a pronúncia soa tão estranha que ofende até os ouvidos dos mais simples americanófilos.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 17h41
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Anglofilia II
Parecia índio, mas era inglês
Recentemente perguntei o nome de um simpático garçom da Pousada dos Guarás, na ilha de Marajó, estado do Pará.
Ele me respondeu que se chamava Wauro.
Como a miscigenação com os índios é predominante na região, imaginei que fosse algum belo nome indígena, com algum significado ligado à mãe-natureza.
Perguntei a ele o que a palavra Wauro (ele pronunciava “Uauro”) significava, e a resposta foi surpreendente.
Ele me disse que seu pai escolheu nomes de língua inglesa pra todos os quatro filhos homens, e duas mulheres, todos começando com a letra W.
Fiquei mais surpreso ainda porque imaginei que o nome dele começava com a letra U e também porque jamais havia ouvido tal nome.
Ele me disse que procurou até na internet e nunca descobriu de onde o pai dele tirou esta suposta palavra inglesa.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 16h37
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Anglofilia I
A colonização cultural e a hipervalorização da língua inglesa
Na virada de 1975 para o ano seguinte eu trabalhei alguns meses como escriturário do extinto Banco do Estado de Minas Gerais, o Bemge.
Fiquei no departamento de pessoal e minha última tarefa foi fazer o controle do pagamento do abono-família.
Em pré-históricas fichas escrevíamos o nome e o cargo do funcionário e o primeiro nome de cada filho.
Com o tempo, comecei a observar que, na maioria das vezes em que filhos tinham nome em língua inglesa, o pai ocupava o cargo de contínuo.
Praticamente desaparecido da atualidade, contínuo era o equivalente a office-boy ou mensageiro interno, carregando documentos e recados que hoje trafegam, em sua maioria, por caminhos virtuais.
Era um cargo ocupado por pessoas alfabetizadas, mas que não precisavam ter sequer o segundo grau de escolaridade.
Aprendi naquele momento que o fascínio pela língua inglesa, ainda que comum a toda a nossa sociedade, é mais radicado nos grupos com menor padrão de escolaridade.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 18h31
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Turfe
Manduro, o melhor cavalo do mundo
Esta é mais para decorar o Blog do Márcio com belas imagens e enrolar o leitor.
A foto abaixo é de um cavalo de corridas, o alemão Manduro.
Ele acabou de ser eleito como o melhor do mundo por um respeitado órgão (IFHA - International Federation of Horseracing Authorities).
Em 2007 ele correu cinco vezes na França e ganhou todas, mas na última sofreu uma fratura e encerrou a carreira nas pistas.
Boa sorte para ele em sua nova vida: agora só sexo e vida mansa.

Categoria: Histórico de turfe
Escrito por Márcio às 20h23
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Humor
Uma piada para – velha expressão! – desopilar o fígado
A piada abaixo foi extraída da seção de humor, a "Bola Murcha", do jornalista Mário Brito, edição de 11/01/08 do tablóide belo-horizontino Super Notícia.
Para desopilar o figo, quero dizer, o fígado dos leitores blogolistas.
Estavam os "filadores" de jornal Marquinho, Juliano e Maguinho na banca do Mauro lá no Jardim América, quando chega o Jairo, instrutor da auto-escola Esperança contando:
— Cara, esta noite sonhei que tava viajando de navio. De repente, o navio bateu numa rocha, naufragou e eu nadei até uma ilha. Lá estavam: Gisele Bündchen, Ana Paula Arósio, Juliana Paes, Adriana Bombom, todas elas peladas.
Comenta o Maguinho:
— Pô, cara! Que chance, hein?
— Que nada... Eu era a Camila Pitanga.
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 19h59
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Superpopulação
Falta de controle de natalidade em Cuba começa na casa de Fidel Castro
Cuba tem 11 milhões e meio de habitantes e 110 mil quilômetros quadrados de área.
Minas Gerais tem 19 milhões de habitantes e 586 mil quilômetros quadrados.
Cuba tem dificuldades notórias e conhecidas de infra-estrutura e abastecimento.
Minas Gerais tem superpopulação na Grande BH, ainda que proporcionalmente tenha uma densidade demográfica bem menor que a ilhona do Caribe.
Para mim, um grande erro da revolução cubana foi a ausência do controle demográfico.
Aumentos desproporcionais de população geram dificuldades de organização social e econômica.
Principalmente em uma ilha sob longo embargo econômico, e que não possui petróleo.
Mas o próprio líder e espelho do povo, Fidel Castro, não é um bom exemplo de estruturação familiar.
Tem oito filhos com quatro mulheres diferentes.
O pai dele, Don Angel Castro, teve dois filhos com a esposa e sete com a amante Lina.
Fidel e o atual líder do país, Raúl Castro, são filhos de Lina.
Estas informações estão no livro “Alina”, escrito por Alina Fernández, a filha anticomunista do barbudo homem-forte de Cuba.
Ela mora em Miami, para onde fugiu com a filha em 1993.
Há uma palavra que define esta transferência de comportamentos através das gerações: atavismo.
É meio pernóstica, meio intelectual, mas explica este ato de se colocar muitos filhos no mundo, na maior parte das vezes sem ter a capacidade de criar, educar e alimentar.
Não é justo nem aqui, nem lá, nem em qualquer outro lugar.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 18h59
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MPB
Noel Rosa e sua passagem por Belo Horizonte
Noel (de Medeiros) Rosa foi o principal nome da música popular brasileira em sua época, e provavelmente o mais importante da primeira metade do século 20.
Viveu apenas 26 anos e deixou mais de 300 músicas.
A criatividade das letras e a agudeza dos pequenos textos forjaram para o Poeta da Vila uma imagem de cronista da época, não de um personagem do entretenimento.
Era um boêmio na mais pura acepção da palavra, varando noites nos botecos da Lapa (Rio) na companhia do violão, da cachaça, do cigarro e dos muitos companheiros de farra.
Esta rotina autodestrutiva era atribuída, por alguns, à vergonha da feiúra provocada por um defeito no queixo, resultado de um nascimento difícil, parto efetuado (em 1910) com a ajuda do fórceps, um instrumento metálico para puxar o bebê de dentro da mãe.
A boemia acabou facilitando o trabalho do terrível Mycobacterium, o agente da tuberculose, doença que vitimou muitos personagens importantes da época.
Belo Horizonte, iniciando a sua quarta década de existência, já tinha a fama de proprietária do clima ideal para tentar a cura, e para a capital mineira veio Noel Rosa, cheio de esperanças.
Encontrei na Wikipedia esta interessante carta (em versos) que ele escreveu, de Belo Horizonte, ao seu médico:
Já apresento melhoras,
Pois levanto muito cedo
E deitar às nove horas
Para mim é um brinquedo.
A injeção me tortura
E muito medo me mete,
Mas minha temperatura
Não passa de trinta e sete!
Creio que fiz muito mal
Em desprezar o cigarro
Pois não há material
Para o exame de escarro!
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 17h23
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Fotografia
Seu Severino Pereira dos Santos, agora só saudade
Exatamente nos instantes em que nascia o ano de 2008, a vida deixava o corpo do fotógrafo da velha guarda Severino Pereira dos Santos, o Seu Severino.
Era um dos últimos representantes de um tempo que vai indo embora, de um tempo em que o fotógrafo era o profissional que transformava em imagens impressas a vida das pessoas.
De um tempo em que a fotografia era uma arte, uma técnica, uma especialidade de especialistas, em que o amador – com a honrosa exceção dos que aprendiam a técnica e a mantinham como hobbie – não tinha meios de perenizar as imagens com um mínimo de qualidade.
Tempo em que a eletrônica e a informática ainda não tinham se unido para permitir ao amador, com dois ou três toques, apontar para o objeto e deixar que a câmera grave uma imagem que pode até ficar só no computador, sem passar para o papel.
Ele morreu aos 85 anos, trabalhando até os últimos dias no Foto Severino, uma loja do Edifício Tupis (onde também residia), na esquina das ruas Tupis e Espírito Santo, em Belo Horizonte.
Nasceu no dia 27 de novembro de 1922 na cidade paraibana de Congo, pleno sertão inóspito. Bem jovem aprendeu a arte da fotografia e saía com padres para fazer fotos dos índios.
Nos anos 40 conheceu Helena nos garimpos e resolveu que ela seria a sua esposa, mas levou anos para conseguir a bênção do sogro para o casamento.
Em 1949 ou 50, com sintomas de tuberculose – mal comum à sua geração – veio a Belo Horizonte para se tratar junto aos ares de nossas montanhas, que tantos doentes do pulmão atraíram.
Depois de várias idas e vindas, decidiu em 1959 mudar-se definitivamente para a capital mineira, trazendo a esposa Helena.
Antes de montar a loja, trabalhou e sustentou a família como lambe-lambe no Parque Municipal.
Lambe-lambe é aquela categoria de fotógrafos, abundante no passado, numericamente insignificante hoje, que oferecia seus trabalhos na rua, parques e eventos.
No início dos anos 90, o filho Elias iniciou o curso de Comunicação Social na Universidade Federal de Minas Gerais e o Foto Severino virou ponto de parada de várias turmas (estudantes de jornalismo, radialismo, televisão, publicidade e relações públicas) que ali conseguiam rolos de filmes em preto e branco, produtos químicos, equipamentos.
E, principalmente, dicas e ensinamentos sobre a técnica fotográfica, que o tempo e a mente esperta ensinaram ao falante, agitado e expansivo Severino.
Adoeceu no final de dezembro, passou o Natal no hospital, mas voltou para casa. Tinha uma fibrose no pulmão, provavelmente um resquício da antiga tuberculose.
Na última noite do ano sentiu-se mal e encerrou a sua história nos primeiros instantes da madrugada.
Deixou oito filhos, inclusive o Elias Santos, radialista e apresentador do programa televisivo Caleidoscópio, da TV Horizonte.
Um amigo que deixou saudade.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 19h21
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Política
Morte do petista Celso Daniel gera até asilo político
De todos os casos de corrupção em que o Partido dos Trabalhadores (PT) se envolveu, o mais escabroso foi o assassinato do seu prefeito (de Santo André/SP) Celso Daniel, em 20/01/2002.
Na época, o PT ainda não era vinculado (excluídos os casos tópicos) à corrupção, ainda fazia ares de vestal.
Quando apareceram os primeiras suspeitas de crime político, até acreditei que fosse uma exploração marquetológica dos adversários.
Cheguei a achar que o suposto mandante, Sérgio Sombra, fosse uma vítima de perseguições políticas.
Mas, desde as primeiras notícias, os indícios só prosperaram.
Me impressionei especialmente com uma recente declaração (31/07/06, durante um comício na Baixada Fluminense) da ex-petista Heloísa Helena, que fez um apelo para que seus ex-companheiros de partido não a matassem.
O interessante é que, até então, Celso Daniel era o principal mentor econômico do já candidato à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e seu provável Ministro da Fazenda.
Quando a hipótese inicial – seqüestro e latrocínio – foi descartada, seus companheiros ainda tentaram emplacar a tese de que ele teria sido assassinado por não aceitar uma tentativa de corrupção.
Posteriormente viu-se que a corrupção se assentava no eixo transporte público-tarifas-empresários do ramo, mas depois apareceram indícios e provas identificando o eixo de escoadouro do dinheiro: Sérgio Sombra – Celso Daniel - José Dirceu – Gilberto Carvalho (este o ainda secretário pessoal do presidente Lula).
Hoje mudei de idéia e acredito, infelizmente, em crime político e queima de arquivo.
(Com o agravante de ter acabado em morte brutal e até tortura.)
Me baseio, especialmente:
a) Na abundância de indícios apurados pela polícia e fartamente divulgados pela mídia;
b) Na posição praticamente uniforme – contra Sérgio Sombra e outros suspeitos – das várias instâncias do Judiciário que atuaram nas várias etapas do processo;
c) No aparecimento de vários casos e escândalos posteriores envolvendo corrupção do PT, especialmente na investida por aumentos de tarifas públicas em serviços essenciais e terceirizados.
Este caso gerou os únicos asilados políticos brasileiros reconhecidos pela França, exatamente a família do irmão de Celso Daniel: Bruno Daniel, a esposa Marilena e três filhos.
Agora eles estão querendo voltar para o Brasil, mas ainda estão com medo.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 17h30
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Democracia racial
Roberto DaMatta e o mito do presidente negro
O antropólogo Roberto DaMatta, em sua coluna das quartas-feiras no Estadão de São Paulo (no caso, edição de 16/01/08), analisa, sem aprofundar muito, a velha possibilidade de um presidente negro para os Estados Unidos da América.
E, por extensão, para o Brasil.
Começa contando que Monteiro Lobato levantou esta possibilidade através do livro O Choque das Raças ou o Presidente Negro, de 1927.
E fala sobre a possibilidade de que isto venha a ocorrer, sem os embates bélicos imaginados por Lobato, através do pré-candidato Barack Obama.
Que na verdade é um mulato, filho de um negro queniano e de uma branca norte-americana, o que no Brasil seria suficiente para declará-lo negro puro, pois, como bem observou Ali Kamel, os mulatos estão desaparecendo das estatísticas e registros oficiais.
Destaco os dois últimos parágrafos do artigo de DaMatta, o primeiro deles mais com a função de facilitar o entendimento do segundo, que é o gran finale do respeitado antropólogo:
Um filme, o admirável Adivinhe Quem Vem para Jantar, de Stanley Kramer, exemplifica os dois modos básicos de construção das identidades. No momento mais crítico do filme, o cosmopolita Dr. Prentice (Sidney Poitier) diz para seu pai, um humilde carteiro (Roy Glen): 'O problema, papai, é que você se pensa como um homem de cor, mas eu me penso como homem!'
Barack Obama não esconde sua condição de negro. Como um membro de uma sociedade de credo igualitário e valores universalistas, ele se pensa, no plano do debate político, como um ser humano por natureza e como um americano (negro, jovem, professor, etc...) por acidente ou circunstância; já nós, brasileiros, membros de um sistema de credo hierárquico e valores particularistas, fazemos justamente o oposto. Como Lobato, pensamos que somos essencialmente negros (índios ou brancos, pobres ou ricos, etc...), e seria por meio dessa condição que experimentamos a condição humana...
Leia o artigo completo clicando AQUI (opção Estadão) ou AQUI (opção alternativa).
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 19h25
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Criminalidade
Mais uma publicidade negativa para o turismo brasileiro
Preparei o tema deste post há quase dois meses, mas estava viajando e me esqueci de fechar o texto e transferir para o blog.
Mas o veículo blog não tem o compromisso com o imediatismo que existe na mídia profissional, e por isso decidi que ainda podia tomar um tempinho dos meus cibernéticos-leitores.
Acresce-se que a nota tem singularidades e inclui comentários, fatores que dispensam o imediatismo, embora realmente ficassem melhor no momento em que o fato aconteceu.
O texto era o seguinte:
O turismo é hoje uma das maiores fontes de renda de todo o mundo.
O Brasil teria um excelente campo para o turismo se não fossem algumas questões de infra-estrutura.
Ainda assim, milhões de brasileiros ou dependem do turismo ou têm um rendimento adicional nele, mas infelizmente todo ano uma, duas, três vezes acontece algum caso policial com os turistas estrangeiros, com larga divulgação no exterior, acarretando redução deste mercado.
No dia 19 de novembro de 2007 o turista italiano Giorgio Morassi foi assaltado e, ao reagir, foi atropelado e morto por um ônibus.
No dia 26 de novembro de 2007 o ladrão Rodrigo Carvalho Cruz, de 22 anos, apresentou-se à polícia, acompanhado do pastor evangélico Isaías Andrade, da Assembléia de Deus.
O larápio profissional e assassino acidental apresentou-se com o cabelo bem cortado, roupa branca e posou para fotos e filmagens com uma Bíblia na mão.
A situação é tão teatral e absurda que não merece muitos comentários, com exceção de um:
Se ele tivesse lido (e se orientado) esta Bíblia minutos antes de cometer o crime, o pior não teria acontecido e eu não precisaria fazer este comentário.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 22h30
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Professora Mídia
Os golpes dos bagrinhos e a influência da mídia
No dia 05/10/2007 postei um texto sobre o indesejado papel secundário da mídia no sentido de ensinar o vigarista.
Para fazer uma matéria completa, o jornalista conta os detalhes do golpe, que é aprendido por outros vigaristas e aplicado em outras vítimas, outros otários.
As gravações telefônicas dos falsos seqüestros inspiraram muitos vagabundos e os índices deste golpe subiram espantosamente.
Aparentemente cometi o mesmo pecado ontem, dia 17/01/08, quando tentei elucidar a mecânica de um golpe que aconteceu em 1997, no mercado financeiro de Belo Horizonte, aplicado pela Soteris.
Mas este tipo especial de golpe exige inteligência, esperteza, paciência e determinação, conjunto dificilmente encontrável na extensa maioria dos vigaristas nacionais.
Qual é o limite entre a informação jornalística e a orientação para o criminoso?
Acho que a mídia televisiva ultrapassou este limite no terceiro dia de janeiro deste iniciante ano ao mostrar a imagem dos pregos utilizados pelos bandidos que tornaram o ortopedista Lídio Toledo Filho paraplégico para o resto da vida.
Os tais pregos – retorcidos, em formato meio arredondado – foram utilizados para furar os pneus do carro da Polícia Militar que faziam a perseguição pelas ruas.
Vão virar item permanente no arsenal da bandidada.
Mas a maioria dos alunos da Professora Mídia não tem capacidade de aplicar a teoria à realidade deles.
Como aconteceu com um bagrinho que telefonou para a minha casa há poucos dias.
Só conseguiu completar a ligação na terceira tentativa, pois nas duas primeiras desligou ao segundo toque, indicando incompetência até para discar.
Com voz gaguejante, insegura e indicativa de baixa capacidade comunicativa, informou ao primeiro que atendeu (meu pai) que ele ganhou um prêmio da TV Globo.
Não conseguiu se explicar convenientemente e foi dispensado.
Provavelmente tentava aplicar um golpe, influenciado pelo noticiário midiático, mas não tinha inteligência suficiente para fazer a elaboração completa.
Categoria: Mídia
Escrito por Márcio às 20h02
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Colarinho branco
O grande golpe no mercado financeiro de Belo Horizonte
Este caso dos universitários cearenses que foram roubados pela Academia de Formatura me fez lembrar de um golpe, bem mais vultoso aliás, aplicado no mercado financeiro de Belo Horizonte.
O autor – João Vicente Silva – montou uma corretora de valores chamada Soteris, que durante anos de funcionamento administrou investimentos de grandes empresas, criando uma fama de competência e solidez.
Mas em novembro de 1997 ela fechou as portas e os clientes descobriram que seu rico dinheirinho não estava guardado na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), nem na Bolsa Mercantil de Minas (BMM), como rezavam os documentos e contratos.
O dinheiro do investimento desapareceu junto com o corretor.
Eis um trecho da reportagem do jornal Hoje em Dia, de 29/11/1997 a respeito:
Os clientes da Soteris Consultoria e Corretora Mercantil Ltda. que estão se sentindo prejudicados pela empresa vão criar uma associação para acionar a Justiça e tentar reaver os valores "perdidos". A empresa, uma corretora de mercadorias, deixou de funcionar repentinamente e, segundo um dos clientes, que preferiu não se identificar, gerou um prejuízo de R$ 13 milhões a ele e 169 outros clientes. O dono da Soteris João Vicente da Silva não foi encontrado pelo HOJE EM DIA nos dois escritórios da empresa (Belo Horizonte e Salvador) nem através de seu telefone celular. Na capital mineira a empresa funcionava na Avenida Augusto de Lima 479, sala 2.307.
A corretora é filiada à Bolsa Mercantil de Minas (BMM) e, no mês de outubro, foi a primeira de Belo Horizonte em volume negociado no ranking da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), quando movimentou cerca de R$ 2 bilhões, como informou o advogado de vários clientes, David Gonçalves de Andrade Silva.
Para completar a informação, seguem os quatro primeiros parágrafos da reportagem do extinto jornal Diário da Tarde, também de 29/11/1997:
Grandes industriais, empresas e comerciantes perderam de R$ 10 milhões a R$ 12 milhões nas chamadas aplicações de derivativos feitas através da Soteris, uma corretora de Belo Horizonte que aplicava na Bolsa de Mercadorias & Futuros de São Paulo. Embora ainda haja muitas dúvidas sobre os detalhes do rombo, sabe-se que a Soteris aplicava o dinheiro de seus clientes como se administrasse um fundo, função restrita somente aos bancos. Ontem, a Bolsa de Mercadorias & Futuros, de São Paulo, suspendeu as suas atividades como corretora permissionária, embora não especificasse os motivos.
A Soteris - Corretora de Mercadorias - suspendeu suas atividades na quinta-feira, enquanto no mercado financeiro, em Belo Horizonte, os comentários sobre o rombo cresciam de intensidade. Afinal, muitos dos que perderam dinheiro aplicavam também em ações e queixaram-se do fato com operadores de diversas corretoras. A quantia de R$ 12 milhões abrange as aplicações tanto de pessoas jurídicas quanto físicas, como construtoras e empresas de outros setores, que apostavam na alta ou baixa do índice Bovespa-Bolsa de Valores do Estado de São Paulo.
A Soteris, de propriedade de Ricardo Augusto Reis, que afirma ter se desligado da empresa em junho deste ano, e João Vicente Silva, funciona no edifício Tech-Tower, Augusto de Lima com Rio de Janeiro, e durante muitos meses ofereceu aos seus clientes juros mais do que compensadores, de 9% ao mês. Comenta-se no mercado que os proprietários estavam certos de terem criado a fórmula exata, amparada em gráficos que mostram as oscilações da bolsa, para enfrentar as turbulências do mercado, livrando os investidores do "tudo-ou-nada", ou seja, ganho total ou perda também total, no mercado de derivativos.
A fórmula, na verdade, ofereceu os melhores resultados durante meses seguidos, fazendo com que a clientela da Soteris crescesse substancialmente. Além disso, a Soteris enviava correspondência aos investidores em potencial, geralmente de grande porte, mostrando as vantagens das aplicações e até mesmo citando os nomes de seus grandes clientes. A aplicação mínima, durante algum tempo, era de R$ 60 mil.
Acompanhei de perto o caso pois na época eu ocupava um dos muitos cargos de diretor do Jockey Club de Minas Gerais, uma das vítimas.
O clube perdeu cerca de 360 mil reais, o suficiente para comprometer o futuro da entidade e criar uma crise interna.
Foi o início da sua decadência definitiva, que desembocou na paralisação das corridas em 2002 e na desapropriação do Hipódromo Serra Verde para a construção do futuro Centro Administrativo de Minas Gerais.
Fui apresentado ao golpista em um dia de corridas e depois tive mais um ou dois contatos rápidos, insuficientes para formar uma opinião, para criar uma impressão.
Seguindo o padrão do jogo de aparência dos golpistas da classe A, era bem falante, bem vestido; em suma, se portava da forma adequada para atingir o seu mercado-alvo.
Só comparecia lá usando automóveis caros e importados (me lembro de tê-lo visto com um BMW), provavelmente para dar uma impressão de possuir uma situação financeira sólida e estável, não sujeita a instabilidade.
Pelo que depreendi dos comentários dos dirigentes e funcionários que negociaram com ele, e também dos textos jornalísticos, a mecânica do seu golpe era mais ou menos esta:
As iscas eram as taxas de rendimentos acima da média do mercado.
A credibilidade pessoal, o passado (conhecido) limpo e a longa experiência no ramo se associavam às taxas de rendimento para atrair e manter a clientela.
A partir de um determinado momento, ele provavelmente passou a guardar uma parte dos investimentos em contas particulares, secretas, ou os transformou em bens seguros, preparando-se para o dia do grande golpe.
Os investimentos e resgates que não passavam pelos órgãos oficiais (no caso dele, a BM&F e a BMM) eram acompanhados de recibos e documentos falsos, montados na Soteris.
No dia 27 de novembro de 1997 ele completou a transferência de valores, fechou as portas da empresa e desapareceu.
Na véspera, o cara-de-pau chegou a telefonar para um poderoso cliente e ofereceu uma aplicação excelente.
O tal cliente deu a sorte de não poder fazê-lo naquele momento, mas outros, provavelmente, caíram.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 17h54
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Pilantragem
Os golpistas de colarinho branco
O jornal Estado de Minas de 04/01/08, à página 11, conta a história de um grande golpe em formandos universitários de Fortaleza, efetuado pela empresa Academia de Formatura.
O assunto já havia sido antecipado na véspera pela mídia mais ágil: a TV e o rádio.
A empresa arrecadou entre R$ 600 mil e R$ 1 milhão de 13 turmas de formandos, aproximadamente 500 alunos de cinco universidades cearenses.
Os donos da empresa, Geraldo Guerra e Ana Cristina Ribeiro Lopes, fugiram na virada do ano levando toda a mobília, documentação da empresa e o dinheiro dos formandos.
Sequer tinham pago bufês e igreja.
Com funcionamento regular durante seis anos, a empresa conseguiu respeitabilidade no mercado suficiente para angariar boa clientela.
Só não foi um golpe perfeito porque seus autores ficaram conhecidos e marcados, sujeitos a processos, perseguições, ameaças, chantagens, agressões.
É um golpe que só dá certo no Terceiro Mundo, com seu sistema policial e judiciário deficientes, preguiçosos, lentos.
É a grande tacada da vida dos autores: jamais vão recuperar a credibilidade para aplicar outro golpe parecido.
Ele se baseia em duas etapas antagônicas: uma longa fase de atividade profissional organizada, competente e aparentemente séria; e um gran finale rápido, eficiente, furtivo, de curta duração.
É um desperdício de competência: para aplicá-lo, é necessário que o autor mostre capacidade de montar e administrar uma empresa, o que poderia torná-lo um profissional sólido por toda uma vida, útil à sociedade (se assim o quisesse).
Mas termina como um triunfo da patologia e da preguiça: o prazer de mostrar-se mais esperto do que a própria elite social e o desejo de ganhar uma grande bolada para deixar de trabalhar e somente desfrutar a vida, no ócio e no luxo.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 19h08
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Santa Tereza
Saritur adquire a tradicional Viação Santa Tereza
A edição zero do Correio de Santa Tereza, referente a outubro e novembro de 2007, anuncia que a Saritur adquiriu a Viação Santa Tereza, que durante seis décadas operou o transporte coletivo do tradicional bairro de Belo Horizonte.
É a nova concessionária das linhas 9210 (Santa Tereza-Prado), 9301 (Santa Tereza-Santo Antônio) e circular 004 A/B.
O novo jornal de bairro da cidade é editado pela Associação Comunitária do Bairro Santa Tereza, presidida por Marcos Milton Fragoso Borges, o “Yé”.
O sobrenome Borges é um dos mais tradicionais do bairro, eternamente vinculado ao cantor Milton Nascimento e ao Clube da Esquina.
Sobre a história da Viação Santa Tereza, transcrevo este trecho do livro “Bairro Santa Tereza, 100 Anos”, página 49, edição de 2003, do jornalista Luís Góes, o historiador do bairro:
JOÃO E ANTÔNIO MASSUD
Adquirida pelos irmãos Antônio e João Massud em 1948, a Viação Popular, que mantinha uma frota de cinco ônibus, passou a chamar-se Viação Minas Gerais.
Em 1950 foi criada a Viação Santa Tereza, mantendo os mesmos ônibus. Continuaram proprietários os irmãos Antônio e João Massud. O ponto final permaneceu na Rua Quimberlita.
Atendendo aos apelos da comunidade, em 1954 é criada a linha Cícero Ferreira, com lotações para servir aos moradores da região do Hospital do Isolamento e imediações das Ruas Silvianópolis, Perite, Pirolozito, Conselheiro Rocha, Oligisto e final das Ruas Bom Despacho, Divinópolis, São Gotardo e Pirolozito. Aquela linha funcionou apenas com um micro-ônibus, cujo motorista era também o cobrador. O veículo possuía só uma porta, na frente.
Categoria: Belo Horizonte
Escrito por Márcio às 19h23
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Santa Tereza
Com saudade dos ônibus de antigamente
O transporte coletivo de minha infância era bem diferente do que é hoje.
Principalmente pelo lado afetivo, humano.
As empresas tinham vinculação direta com a população e geralmente só atuavam nos bairros próximos à sua garagem e sede administrativa.
Os motoristas eram reconhecidos pelos passageiros e muitas vezes faziam parte da comunidade local e de seus festejos.
Toda a minha vida se centralizou no Bairro de Santa Tereza, na capital mineira.
Até o início dos anos 80 nosso transporte coletivo era feito através de duas linhas operadas pela Viação Santa Tereza, com sede na rua Quimberlita.
Os ônibus eram pintados com as cores da empresa (no caso, verde), com sua tradicional logomarca, e só faziam o trajeto bairro-centro e retorno.
Eram numerados de 01 até o limite de unidades que a empresa possuía.
Na minha infância, eles variavam de 01 a 06.
Quando a empresa comprava outro ônibus, ele herdava o número daquele que seria substituído.
Eu gostava de desenhar cada um deles, que sempre tinham alguma diferença no modelo, na pintura.
Os motoristas geralmente dirigiam o mesmo ônibus todo dia e davam sempre algum toque pessoal na cabine como amuletos, adereços.
Motoristas e trocadores às vezes passavam lá a maior parte de sua vida profissional.
Me lembro que um deles, mais conhecido pelo apelido de “Perigoso”, era considerado o melhor da empresa e tinha direito sempre ao ônibus mais novo e moderno.
Toda a meninada dizia que o apelido tinha um forte motivo: ele teria atropelado e matado um transeunte.
Durante minhas idas e vindas de casa para o Grupo Escolar José Bonifácio, no outro extremo do bairro, ele era o motorista do 05, o melhor da linha, um Mercedes Benz do tipo monobloco.
Luís Góes, o historiador de Santa Tereza, falou brevemente sobre o Perigoso em um dos seus livros, mas não encontrei a referência.
Aliás, o link para o seu site é: http://www.luisgoesbh.com.
Recentemente encontrei na lojinha do Museu Histórico Abílio Barreto uma réplica do tradicional ônibus verde (ano de 1966) da Viação Santa Tereza, que estampo abaixo:

Categoria: Belo Horizonte
Escrito por Márcio às 20h42
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Humor
Uma piada para garantir a fidelidade dos leitores do blog
O Super Notícia foi o pioneiro – pelo menos em Belo Horizonte – dos "jornais de 25 centavos", tablóides de um único caderno que custam baratinho (os tais 25 centavos) e distraem os olhos do leitor, mas pouco atuam lá no cérebro.
Pelo baixo lucro, o terror dos jornaleiros profissionais, os donos de bancas.
Tem até uma seção de humor, a "Bola Murcha", do jornalista Mário Brito, de onde extraí esta piada para garantir o riso dos leitores deste blog neste fim de semana:
A mulher, que era uma chata, tinha dois cachorrinhos que eram o xodó dela, e ligava para o veterinário por qualquer problema. Um dia, altas horas da madrugada, toca o telefone:
— Os cachorrinhos estão transando e não tem jeito de desgrudar! O que é que eu faço?
Responde o veterinário, de saco cheio:
— Desliga o telefone e bota do lado deles. Aí, eu ligo pro seu número e você deixa tocar!
A mulher estranha:
— Mas, doutor... Desde quando uma campainha de telefone pode acabar com uma transa?
E o veterinário:
— Pois aqui em casa acabou!
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 21h48
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Problemas sociais
O atendimento prioritário está criando confusão e constrangimento para o atendente
Esta aconteceu comigo, dia 10 de janeiro deste 2008, na fila de compra e pagamento das Lojas Americanas.
Um homem de pouco mais de 40 anos furou toda a longa fila e foi direto para o caixa.
Ele ainda estava sendo atendido quando chegou a minha vez.
Ele perguntou à caixa (a que estava me atendendo) se havia outra entrada para ele – para a próxima oportunidade – pois “as pessoas estão achando que eu furei a fila”.
A caixa, atenciosamente, disse que ele deveria passar direto pela área de saída.
Assim que ele saiu, perguntei ao caixa que o atendeu qual era a deficiência que garantia tal direito.
A resposta surpreendente: “Ele me falou que tinha uma autorização, mas não mostrou”.
E a minha caixa completou: “Esta situação é muito delicada pra gente, ficamos sem saber o que fazer.”
Para não constranger mais os funcionários – afinal, a malandragem já tinha ocorrido – eu disse que entendia a posição deles.
Mesmo achando que deveriam, pelo menos, cobrar o tal documento.
Este caso foi uma oportunidade para perceber as reações de medo e confusão geradas pela profusão de leis municipais, estaduais e federais criando prioridades de atendimento para idosos, grávidas, deficientes, crianças.
Sem falar dos casos específicos de funcionários daquele setor, policiais, autoridades, responsáveis por emergência, etc.
Com medo das penas da lei, os funcionários de atendimento dão preferência a qualquer um que se apresente como “preferencial”.
Triste a sina da sociedade que precisa legislar até sobre o detalhe do detalhe do detalhe para tentar obter um mínimo de respeito e cooperação humanos.
E até criar novas distorções, antes inexistentes, além de constrangimentos e desconfianças.
Fico a imaginar uma situação burlesca em que dezenas de pessoas pedem atendimento prioritário a um único funcionário.
Quando ele começa a atender um, outro exige a preferência e passa-lhe à frente.
Quando está atendendo o outro, vem o terceiro e também passa-lhe à frente.
E assim do quarto até o último, voltando ao primeiro, que re-reinvidica os direitos.
Num ciclo interminável.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 16h35
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Internacional
A cisão de classes sociais é uma conseqüência do Populismo
O programa matinal de jornalismo da Rede Record (Fala Brasil) apresentou em 07/01/08 uma longa reportagem feita em Caracas, tentando comparar a política de Hugo Chávez em diferentes segmentos da sociedade venezuelana.
O repórter compareceu a uma longa fila (para adquirir produtos de primeira necessidade) em um bairro de classe pobre e entrevistou muitos populares.
Ganhou a simpatia de uma senhora de meia-idade, que arrumou um banquinho para ele se sentar durante a entrevista.
Mas quando fez perguntas mais diretas sobre os sentimentos dela com relação ao presidente Hugo Chávez, ela achou que a reportagem era de oposição ao seu ídolo e mudou de postura.
O repórter se levantou e até assumiu uma posição de defesa, esperando a agressão.
A entrevistada só se acalmou quando alguém lhe disse que se tratava de uma tevê brasileira.
A postura geral dos entrevistados era de adoração ao presidente, por causa dos extensos programas sociais que garantem aos mais pobres as necessidades básicas de alimentos e até alguns supérfluos.
Na seqüência, ele também foi a um supermercado em um bairro de classe média, afastado da política assistencialista.
Colecionou insatisfações e reclamações, principalmente contra a falta de alguns produtos nas prateleiras.
Descobriu e informou que a economia venezuelana é inteiramente dependente da produção petrolífera e as demais atividades produtivas são insuficientes para o abastecimento nacional.
Nas classes média e rica, o grau de satisfação com o governo é inversamente proporcional ao das classes paternalizadas.
Esta política se chama Populismo.
Onde ela predomina, o cidadão recebe um atendimento diferenciado do governo, dependendo de sua classe sócio-econômica.
O conceito de classe passa a valer mais que o de indivíduo, de cidadão.
O líder maior deixa de ser um representante geral para se tornar parcial: amigo-protetor de uns grupos, inimigo (ou meio-amigo) de outros.
Aflora neste caso, no que se refere à compreensão e participação políticas, que a cisão de classes sociais é uma conseqüência do Populismo, uma forma de governo típica da historiografia sul-americana.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 17h01
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Cidadania
Roberto DaMatta pede mais personalidade para o Ano Novo
As pessoas gostam de criar rankings para tudo.
Gostam de estabelecer qual é o melhor produto, ou quem é o mais competente em seu métier.
(Na política, o ranking popular é sempre inverso: quem é o mais corrupto, quem administrou pior...)
O cientista social Roberto DaMatta está, freqüentemente, no topo do ranking dos intelectuais brasileiros.
Várias vezes já foi escolhido como nosso principal cientista social, apesar de obviamente ser difícil comparar um antropólogo com um historiador, ou com um sociólogo, ou filósofo, ou com qualquer outra subdivisão do pensamento analítico.
Ele também freqüenta a mídia, atualmente como o articulista das quartas-feiras no Caderno 2 do Estadão.
Mas eu acho que seria útil uma pitada de estilo jornalístico em seu texto, que às vezes exagera na verve irônica, citatória, metafórica.
O estilo jornalístico é arte de se fazer entender pelo maior número de leitores.
Na coluna de 02/01/08, intitulada “Ano novo, problemas velhos” ele fala do papel do presidente da república na nossa sociedade, que no imaginário popular tem uma função paternalista, não representativa.
Uma representação metafórica do Papai Noel.
Gostei, especialmente, do fecho, do parágrafo final, onde ele deseja para o povo brasileiro que assuma um papel de sujeito social, que aja como cidadão(s), que tenha mais personalidade e seja mais atuante.
Eis o trecho:
Finalizando, desejo do fundo do meu coração, caro leitor, que 2008 seja um ano em que você não deixe ninguém cuidar de você. Que seja um ano no qual você seja cada vez mais responsável por sua vida e que, para tanto, tenha uma robusta e indestrutível saúde física e mental. Que você seja também desconfiado e, para tanto, leia mais livros, revistas e jornais, desligando a televisão de quando em vez. E que você possa introduzir na sua existência pessoal um lema básico da vida democrática: seja reivindicativo, denuncie mais, reclame e clame por seus direitos. Não deixe que aquele carinha 'fale por você' porque, como revelam nossas cidades, mergulhadas nas fezes de administrações lamentáveis, os carinhas pensam primeiro neles e, depois na gente. Que 2008 nos faça ser, dentro dos limites da honestidade, um pouco como eles. Feliz, pois, Ano Velho!
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 18h21
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Politicagem
Tocantins, um estado que foi criado para beneficiar um único indivíduo
Até a promulgação da Constituição de 1988 o Brasil era dividido em estados, territórios e distrito federal.
A partir daí a figura do território foi abolida e Roraima, Rondônia, Acre e Amapá foram transformados em estados.
Os estados de Mato Grosso e Goiás perderam uma parte do território (aí entra o sentido geográfico, não o político), que se transformaram nos neo-estados de Mato Grosso do Sul e Tocantins.
O que me impressionou durante os trabalhos da Assembléia Constituinte (a que tomou tais decisões) foi uma nota de jornal, que infelizmente não arquivei, onde o jornalista dizia que o estado de Tocantins seria criado por causa das negociações de um político (deputado federal constituinte) que via ali a chance de obter hegemonia e poder.
Fiquei na expectativa para ver o que aconteceria.
O estado foi criado e o tal político (José Wilson Siqueira Campos) conseguiu ser o primeiro governador.
Também conseguiu manter-se junto ao topo do poder nas eleições seguintes, elegendo até alguns sucessores, inclusive aliados (mas está em furioso confronto público com um filho).
Exerceu três vezes o cargo de governador.
Em 2002, a revista Veja fez uma reportagem sobre o seu estilo politiqueiro e nepotista (para acesso, clique AQUI).
Para assumir o status de capital, foi criada a cidade de Palmas, que demandou muito dinheiro do Tesouro nacional.
Duas décadas depois Tocantins é um dos mais pobres estados da federação.
Mas não vou radicalizar: reconheço que o custo do investimento pode ser compensado por um desenvolvimento regional.
Como aconteceu com Brasília, a capital criada com a finalidade oficial de melhorar a performance da região centro-oeste.
Mas que foi uma causa fundamental da inflação que corroeu o Tesouro nacional na década de 1960.
E gerou duras acusações de corrupção a Juscelino Kubitschek e seu grupo.
Que acabaram esquecidas, suplantadas por uma imagem de herói nacional que encobriu a memória do médico diamantinense.
Voltando à questão tocantinense, me impressionou uma reportagem sobre o cinema local, publicada na Folha de São Paulo, edição de 19/12/07, página E-9.
Transcrevo abaixo os dois primeiros parágrafos:
Todas as salas de cinema do Estado do Tocantins pertencem a uma única pessoa: Getúlio Vargas Aguiar. Todas as salas de cinema do Tocantins são apenas quatro.
"Mas aqui nunca tem fila", afirma Aguiar, por telefone, do Cine Blue, em Palmas, que possui duas salas. As outras duas ficam em Araguaina. "O Tocantins todinho tem 139 municípios. Os únicos cinemas são os meus. Isto é Brasil", diz ele.
Para acessar a íntegra da reportagem, clique AQUI.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 17h46
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Cidadania
Ojeriza à política não é solução
Francisco Foot Hardman é um cientista social conhecido, articulista freqüente na grande mídia.
No artigo “A Grande Pizzaria. Uma enorme tradição”, publicado n’O Estado de São Paulo, 12/02/06, caderno Aliás, página J5, ele faz uma duríssima crítica à classe política brasileira, ao seu perfil explorador.
Tão contundente, que transcrevo a seguir o primeiro parágrafo:
O regime é republicano, mas as poses são imperiais. Governadores e presidentes vivem em palácios. Deputados, senadores e magistrados superiores têm mordomias inaceitáveis em qualquer democracia moderna minimamente consolidada. Prefeitos e vereadores de municípios miseráveis desfilam como nababos. Tradição estranha esta: a carreira política no Brasil é uma das vias legais, em suas ilegalidades safas, para a acumulação fácil de riqueza, para a formação de extensos patrimônios pessoais e familiares “não contabilizados”. O sistema de votação e de representação arcaico, feito para criar barreiras de indiferença e esquecimento entre eleitos e eleitores, mantém-se intacto.
O texto é contundente e realístico, infelizmente, mas esta verdade costuma despertar um sentimento surrealista no brasileiro: a ojeriza à política.
Uma coisa não justifica a outra.
Me surpreendo quando o falante, às vezes na função de meu interlocutor, não tem percepção de que o ser humano só alcançou o estágio de “ser racional” por causa da capacidade de se organizar como sociedade.
A divisão de funções, a organização social como um todo é inteiramente dependente da atividade de autocontrole.
Este autocontrole só é passível de ser feito através da escolha de representantes mais aptos para esta tarefa.
São os gerentes sociais.
Em suma, estamos falando de política.
Ignorá-la é um suicídio sociológico.
A correção só pode ser feita internamente, através dos mecanismos selecionadores, investigativos, analíticos e punitivos.
Vivas à capacidade de se indignar contra os parasitas do poder público.
E abaixo as atitudes relacionadas à tolerância, indiferença, omissão.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 19h22
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Belo Horizonte
Prédio cobra pedágio na Zona Sul da capital mineira
Uma nota no mínimo curiosa.
Segundo matéria do jornal Hoje em Dia de 30/12/2007, um prédio situado no bairro Santo Antônio, zona sul (a mais nobre) da capital mineira, está cobrando um pedágio mensal de 25 reais para os moradores da região que quiserem utilizar seus elevadores para acessar a rua de cima.
Este bairro é um dos que possuem pior topografia na cidade e muitas ruas são tão íngremes que é difícil a subida de carros pequenos.
Transcrevo abaixo a interessante matéria:
Prédio cobra pedágio na Zona Sul
Jáder Rezende
Repórter
A administração de um prédio comercial localizado no Bairro Santo Antônio, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, com acesso pela Rua Teixeira de Freitas e pela Avenida Prudente de Morais está cobrando «pedágio» de moradores da vizinhança para permitir a utilização de seus elevadores. O nível entre as duas vias é de 20 metros, mas o percurso pode ser evitado com o pagamento de uma «mensalidade» de R$ 25. A iniciativa alterou radicalmente a rotina de quem vive nas imediações do Centro Empresarial Cidade Jardim, principalmente idosos e com dificuldade de locomoção. Para o Ministério Público, a medida é controversa, uma vez que o prédio é de uso coletivo.
«Em tese, qualquer pessoa poderia freqüentar o local. O que choca é o fato de pessoas com dificuldade de locomoção ter que pagar por esse serviço», diz a promotora de Justiça de Direitos das Pessoas com Deficiência, Maria Inês Rodrigues de Souza. Segundo ela, o mais importante é que o imóvel atenda às regras de acessibilidade, incluindo as calçadas. Desde que foi inaugurado, há 17 anos, aquele condomínio, ou melhor, seus três elevadores, passaram a ser freqüentados pela vizinhança, que viu nos equipamentos a forma mais prática de driblar as ladeiras que ligam a Prudente à Teixeira de Freitas. Não faz muito tempo, a prefeitura inaugurou uma obra vizinha ao prédio, na Arduíno Bolivar, que de rua só tem o nome. Era quase um precipício que nunca foi urbanizado. Pouco utilizada pelos moradores da área, a obra custou R$ 240 mil e consiste numa grande escadaria com nada menos que 110 degraus. Maria Inês sugere aos moradores que não podem usar a escadaria e que optaram pelo serviço do prédio vizinho que recorram à Prefeitura de Belo Horizonte, no sentido de cobrar a taxa de R$ 25 imposta pelo condomínio. «em último caso, a prefeitura poderia firmar um convênio com a administração do imóvel», diz.
Segundo o síndico do Centro Empresarial Cidade Jardim, David Castellani, a liberação dos elevadores para a vizinhança foi definida para pôr fim às freqüentes reclamações de donos de salas, que se sentiam incomodados e até mesmo inseguros com o entra-e-sai de estranhos. «Propuseram o impedimento definitivo do trânsito de pessoas de fora», disse. «Contudo, chegamos ao consenso de que poderíamos ajudar a comunidade, mediante uma contribuição modesta, afinal o consumo de energia dos elevadores representa dois terços da conta total de luz», justifica, revelando que pelo menos 30 moradores da região já fizeram seu cadastro e utilizam o atalho quase que diariamente, sempre das 7 às 9h15, de segunda a sábado, exceto domingos e feriados. Ainda segundo ele, os idosos são priorizados no processo.
Castellani lembra que há quatro anos encaminhou, em vão, à PBH, sugestão de instalação na Arduíno Bolivar de uma escada rolante - equipamento comum em vias públicas de grandes centros com topografia parecida com a de BH, como Barcelona. «Outra medida viável para bairros tomados por ladeiras impraticáveis seriam os funiculares, coisa comum em Viña del Mar, no Chile. Para os moradores do Santo Antônio, cuja maior parte da população é de idosos, seria uma maravilha», sugere.
Para o aposentado Geraldo Diniz, 67 anos, a liberação do elevador do prédio privado para os moradores da região já foi um grande feito. «Quando subia a ladeira ou a escadaria ao lado chegava quase morto», diz. A aposentada Marlete Mendes, 69 anos, foi quem sugeriu a Castellani a instituição de uma taxa para facilitar a vida da vizinhança. Ela mora há 23 anos na Teixeira de Freitas e, nos últimos anos, passou a sofrer com lombalgia e artrose nos joelhos.
Na paisagem urbana, passeios com obstáculos
Calçadas malconservadas e repletas de obstáculos fazem parte, há décadas, da paisagem urbana de Belo Horizonte. São passeios impraticáveis para idosos e portadores de deficiência física, que se sentem cerceados em seu direito de ir e vir. Nos bairros com topografia íngreme a situação é bem mais crítica. Nem mesmo as calçadas da rua onde mora o prefeito Fernando Pimentel, no Bairro Santo Antônio, na Região Centro-Sul, escapam dessa triste realidade.
As ladeiras do Santo Antônio, que chegaram a ser citadas recentemente no «The New York Times» como obstáculos que «requerem capacidade sobre-humana de manobra na hora de estacionar», são vistas pelos moradores locais como verdadeiras armadilhas. «Aqui até mesmo os cadeirantes preferem andar na rua, competindo e se arriscando com os carros», diz a dona de casa Alzira Horta, 74 anos, 50 deles vivendo na Rua Marquês de Maricá. Também vizinho do prefeito, o aposentado Milton Ribeiro, 82 anos, lamenta o fato de a prefeitura «ter esquecido as calçadas do bairro». «O que mais nos revolta é a constatação de que se trata de uma área com imóveis de alto nível, mas com passeios cada vez mais degradados. Falta fiscalização», reclama.
A empresária Tereza Godoy, 75 anos, e seu filho, o dançarino João Luiz Penido, 43 anos, que é cadeirante, também padecem com as ladeiras íngremes do Santo Antônio. «Ficamos impedidos de dar uma simples volta no quarteirão. Faltam rampas, equipamentos próprios para cadeirantes», diz Penido. Tereza, que foi obrigada a operar o joelho esquerdo depois de cair na ladeira da Rua Nunes Vieira, revela que prefere fazer compras por telefone ou pela Internet. «Com sol a situação já é crítica, quando chove vira um verdadeiro inferno», diz. No bairro é comum observarem-se nas ladeiras corrimãos instalados nas calçadas pelos próprios moradores.
A psicóloga Luciana Resende, 46 anos, engrossa a lista de vítimas das ladeiras íngremes do bairro. Ela mora na Rua Abre Campos, onde, nos últimos oito anos, quebrou o pé cinco vezes. «Não há como andar nas calçadas dessa região. Caminhar nas ruas, por incrível que pareça, é bem mais seguro», constata. A produtora cultural Myriam Campas, 35 anos, que mora na Rua Matipó, a mais íngreme do Santo Antônio, segue a pé para o trabalho diariamente. Enfrenta um percurso de quase dois quilômetros, sempre atalhando por ladeiras menos íngremes. «Como se não bastassem os problemas históricos, como árvores, buracos e postes no meio das calçadas, o bairro passa por uma crise gerada por empreiteiras, que derrubam casas antigas para construir edifícios altos. Com isso, as calçadas ficam repletas de entulhos», diz.
Categoria: Belo Horizonte
Escrito por Márcio às 23h08
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Tráfego irregular
Três mortos no afogamento do velho Chevette
Entre os dias 27 e 29 de outubro postei alguns comentários sobre a questão das tolerância dos poderes públicos com os carros velhos.
Obviamente minha preocupação se refere, exclusivamente, aos carros em más condições de uso, que põem em risco a vida de condutores, passageiros e transeuntes.
O Primeiro Mundo não proíbe o uso de carros antigos, mas exige a prova de que estão em boas condições.
Me lembro de ter visto, anos atrás, uma reportagem sobre a legislação inglesa para este caso.
Lá, todo automóvel com mais de um determinado tempo de uso só pode trafegar depois de uma revisão anual em uma oficina credenciada pelo Estado.
Imagino que se trate de um procedimento padrão por toda a Europa.
É um ato preventivo que vai salvar a vida de muita gente que poderia estar dentro de um automóvel deficiente no momento de um infeliz acidente.
Dentro deste grupo poderiam estar três dos ocupantes do carro que caiu dia 23 de dezembro de 2007 no Rio Paraibuna, em Juiz de Fora.
O motorista Everaldo Nascimento Argentino não conseguiu fazer a curva da Avenida Brasil e seu velho Chevette fabricado em 1978 caiu no rio.
Seus irmãos Denilson, de 20 anos, e Emerson, de 26, e seu filho Cauã, de apenas dois anos de idade, morreram afogados e os corpos só foram encontrados dias depois.
Mesmo sabendo que este comentário pode me gerar acusações de preconceito social, logo na primeira entrevista com parentes dos acidentados achei que se tratava de uma família humilde demais para conseguir fazer a devida manutenção de um automóvel.
No Primeiro Mundo, mesmo depois do acidente, as condições do Chevette, que comemoraria 30 anos de existencial metálica neste 2008, seriam detalhadamente investigadas e o possível responsável pelos seus defeitos iria conhecer as faces da Justiça.
A velha tolerância propagada pela Cultura Brasileira vai garantir o rápido arquivamento deste caso e de qualquer outro que atinja a classe dos pobres.
Mas um fato salta aos olhos: se os poderes constituídos tivessem impedido o velho Chevette de trafegar, Denilson, Emerson e Cauã estariam vivos.
Assim como todas as outras vítimas de carros velhos em más condições de conservação.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 21h50
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Belo Horizonte
Faltava água no bairro de Santa Tereza
Geralmente, quando digo que moro no bairro de Santa Tereza, a reação é de inveja (a do tipo saudável).
— É o melhor e mais tranqüilo bairro de Belo Horizonte — eis a reação mais comum.
Mas, depois de algumas dezenas de casos de assaltos, furtos e até assassinatos de moradores, não posso concordar.
O outrora tranqüilo bairro já caiu na vala-comum do perigo das grandes cidades brasileiras.
Nos anos 50, até o início dos 60, era desvalorizado, principalmente por causa de uma crônica falta de água.
Uma das lembranças mais remotas de minha memória foi uma chegada do velho caminhão do Joel, primo de minha mãe, nos trazendo dois tambores de água, provavelmente no iniciozinho dos anos 60.
A única referência que encontrei a isto foi um trecho do livro "O mundo acabou", de Alberto Villas, aliás uma bela coletânea de lembranças, objetos e costumes daquela época.
Esta é a lembrança dele, daquela história:
FALTA D'ÁGUA EM SANTA TEREZA
Nunca vi pingar uma gota d'água na torneira da casa que meu avô tinha no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte. Santa Tereza passava um, dois, três meses sem água. E os moradores se acostumaram. Meu avô tinha dois tambores em casa, onde guardava a água. Banho era de caneca. Aliás, tudo era feito com a caneca. Quando o segundo tambor estava chegando ao fim, a água como que por milagre costumava chegar. Chegava fazendo barulho e geralmente no meio da madrugada. Pá pá pá ... as torneiras pareciam explodir com a saída do ar anunciando a chegada do precioso líquido. Mas a alegria durava pouco, muito pouco. Muitas vezes a água em Santa Tereza chegou entre duas e três horas da madrugada. Meu avô acordava para encher os tambores e a vida continuava. O mais engraçado dessa história, se é que ela tem alguma coisa de engraçado, foi o dia em que inauguraram um clube no bairro. Tinha quadra de vôlei, de basquete, de ténis, um salão que pegava fogo no carnaval e uma piscina. O clube foi batizado oficialmente com o nome de Oásis.

Categoria: Belo Horizonte
Escrito por Márcio às 19h58
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O autor e seus objetivos
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Este
blog divide meus textos em 4 partes:
Turfe
- Vivi intensamente as corridas de cavalos do Hipódromo
Serra Verde, de 1970 até meados de 2004. Crônicas, análises,
história e lembranças foram registradas no computador e
muitas delas aqui estão ou serão publicadas neste blog e
também no site do
Jockey.
Para o blog ficam reservados textos mais curtos, mais leves,
para não cansar o leitor.
Crônicas e análises
- Assunto: qualquer um.
Dia-a-dia
- Comentários, notas, fotos interessantes.
Árvore
genealógica - Quando
me interessei pelas minhas raízes, descobri que poucos conhecem
suas origens familiares, seus ascendentes. Neste espaço
deixo um resumo de minha árvore genealógica e também um
pedido para quem tiver uma informação nova a respeito, que
mande um e-mail para marcio.avila@uol.com.br.
Márcio
de Ávila Rodrigues é médico-veterinário e jornalista. Reside
em Belo Horizonte-MG, Brasil, onde nasceu na década de 50.
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