PoliTicagem
A ilusão da futura Nova Rodoviária de Belo Horizonte
A mídia anunciou hoje, como definitiva, a decisão da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte de construir uma nova estação rodoviária no bairro Calafate.
Na verdade, é bem pra lá da parte conhecida do Calafate, é bem próximo de Contagem. Basta conferir os mapas do metrô.
Reportagem da TV Globo mostrou que as reações dos populares ou são simplistas ou são dependentes de interesses pessoais.
Um taxista defendeu a transferência argumentando que "em todas" as cidades a rodoviária é afastada do centro. Não contou que o lucro da corrida de táxi, neste caso, é bem maior.
Um popular que provavelmente só usa a rodoviária como passageiro defendeu a manutenção. Seu acesso é mais cômodo.
O público passará pelo transtorno de um acesso demorado, dependente dos horários do metrô, com o agravante da dificuldade de carregar malas pesadas. A opção é a corrida de táxi, bem mais cara que na atual localização.
O suposto fim de problemas de trânsito é uma ilusão, que não justifica o elevado custo para os cofres públicos.
Em 1996 fiz uma viagem à Florida, EUA. No retorno, num domingo à noite, fiquei mais de uma hora preso num engarrafamento na entrada do aeroporto de Miami.
Ele é infinitamente maior que o de Belo Horizonte, embora as duas cidades tenham mais ou menos a mesma população. É afastado do centro da cidade.
O episódio me deixou claro que os problemas de excesso de passageiros são inevitáveis em qualquer país. Finais de semana, finais de férias, feriados, etc, sempre provocam sobrecarga de afluxo.
É relaxar sem gozar.
Há um evidente interesse político por trás. É uma obra de grande porte e será usada pela maior parte da população, marcando o nome do prefeito e do seu grupo político.
Sem contar que é das grandes obras de engenharia que se origina o bônus financeiro da política através de financiamento privado dirigido aos políticos, de forma regular ou irregular.
A partir de 2008, portanto, nossos orçamentos de viagem ganham esse acréscimo de despesa.
E os viajantes desorganizados vão ter que preparar a mala mais cedo.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 14h12
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Trânsito assassino
João do Pulo, carreira destruída e vida arrasada por um acidente de trânsito
O caso particular que possui aspectos emblemáticos quanto a esta questão dos crimes de trânsito é o acidente que destruiu a carreira e, depois, provocou indiretamente a morte de João Carlos de Oliveira, o "João do Pulo".
É uma história que merece ser lembrada pelo didatismo.
João foi o segundo mais importante atleta do salto no Brasil, somente superado por Adhemar Ferreira da Silva, medalha de ouro em salto triplo nas Olimpíadas de 1952 e de 1956.
João ganhou a medalha de bronze de salto triplo nas Olimpíadas de 1976 e 1980, mas o seu maior feito foi o salto de 17 metros e 89 centímetros nos Jogos Pan-Americanos de 1975, assinalando um recorde mundial que perdurou 10 anos.
Ele competiu nas Olimpíadas de 1980 como grande favorito desta modalidade, mas os fiscais russos invalidaram oito das 11 tentativas, alegando que ele pisou na linha, o que garantiu os dois primeiros lugares para os compatriotas Jaak Udmae e Viktor Saneyev.
Naquela época os países comunistas consideravam o êxito no esporte como parte de sua propaganda ideológica, repetindo o que os direitistas Hitler e Mussolini faziam nos anos 30 e 40.
Em junho de 2000 um jornal australiano, Sydney Morning Herald, publicou uma reportagem revelando o que todo o mundo esportivo já sabia: que a anulação dos melhores saltos de João do Pulo foi uma tramóia com comando político.
Um ano depois da decepção olímpica, João Carlos de Oliveira sofreu uma batida de carro na Via Anhanguera, uma das mais importantes e movimentadas rodovias que saem da capital paulista. Saiu do estado de coma mas perdeu a perna e a carreira atlética.
Bateu de frente com uma Variant, dirigida por um motorista bêbado, na contramão de uma estrada de alto movimento. Tinha 27 anos.
Não descobri se a Variant era velha, mas a comprovação do estado de embriaguez do seu motorista, João Mariano da Silva, que morreu no local, é o elo com os crimes de trânsito e suas conseqüências múltiplas.
Me lembro de uma entrevista dele, alguns anos depois, contando que chegou a visitar a família do motorista que causou o acidente e acabou lhe provocando o sentimento de piedade, apesar – ou talvez por isso mesmo – das conseqüências.
João ainda tentou a carreira política, elegendo-se deputado estadual duas vezes. Na terceira tentativa não conseguiu se reeleger; tentou a carreira empresarial e fracassou; tornou-se alcoólatra e depressivo.
Morreu em 1999, véspera do aniversário de 45 anos, vítima indireta do louco trânsito brasileiro.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 22h41
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Crimes de trânsito
Ainda a questão dos carros velhos
Em 2006 eu fiz uma viagem turística a Buenos Aires. No dia da volta eu estava numa autopista em direção ao Aeroporto de Ezeiza quando passou por nós, bem mais rápido, um carro velho, com a lataria em mau estado, motor ainda possante.
Comentei com o motorista da van que me transportava sobre a freqüente presença de carros velhos nas ruas bonaerenses. A explicação dele me surpreendeu.
— Eles não são incomodados pela polícia, que aqui só multa os donos de BMW, Mercedes.
Foi mais uma prova da semelhança, da proximidade cultural de toda a América Latina. A tolerância com a pobreza se soma à desforra infantil contra a riqueza. Contra os burgueses, a eterna referência da esquerda.
Lá, como cá, falta a percepção da conseqüência, falta a informação de que os tolerantes sempre são prejudicados pelos tolerados, de uma forma cotidiana ou através de algum acidente dramático.
A forma cotidiana ocorre no trânsito. O mais prejudicado por um trânsito lento é o trabalhador que está pendurado num ônibus desconfortável, não o cidadão que está sentado num automóvel, muitas vezes com o ar-condicionado ligado.
O dramático aparece na forma de acidentes, que no Terceiro Mundo possuem índices estatísticos muito mais elevados que os do Primeiro.
Merece até uma advertência bem dramática: o irresponsável que hoje você está tolerando e lançando a sua piedade pode ser o seu assassino amanhã.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 18h38
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Morte no trânsito
Carros velhos à uma arma apontada para os inocentes
A porção cristã do brasileiro sempre demonstra tolerância quando cruza com um carro velho e mal-tratado no trânsito: "Tadinho do dono, é pobre, mas tem direito a ter o seu carrinho".
O espírito de caridade o impede de linkar os carros mal-cuidados com os terríveis acidentes de trânsito.
O jornal Estado de Minas de 25/10/2007 nos informa que "Três pessoas morreram em um grave acidente na manhã de ontem, provocado por uma caminhonete C-14, ano 1962, que perdeu o eixo de direção e parou bruscamente na BR-381, em frente à Refinaria Gabriel Passos (Regap), em Betim, na Grande BH".
E completa as informações com a cota da irresponsabilidade: "Segundo a Polícia Rodoviária Federal, o veículo placa GKL 6144, de Ribeirão das Neves, estava com avarias e todos os pneus carecas e era dirigido por Adair José Marinho, de 48 anos, que é inabilitado e não tinha os documentos do carro".
Quem foram as vítimas? Os três ocupantes de um Corsa que não conseguiu desviar da velha caminhonete, bateu na sua traseira e foi imprensado pelo cavalo mecânico de uma carreta que vinha atrás.
Morreram os inocentes, os que estavam agindo de acordo com a lei e os bons costumes, os que não provocaram a tragédia.
Semanas atrás parei num cruzamento, em pleno Bairro União, e quase não percebi uma velha caminhonete que vinha descendo a rua sem faróis. Se chegasse ali cinco segundos depois nos encontraríamos no cruzamento, para ocupar o mesmo lugar no espaço.
São casos absurdamente corriqueiros e freqüentes, causados pelos carros velhos e/ou mal-tratados rodando pelas ruas e estradas nacionais.
No Primeiro Mundo são casos esporádicos: eles não têm dúvidas que o carro inseguro é uma arma apontada contra os inocentes.
Esta relação óbvia é ignorada pela opinião pública brasileira.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 19h18
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Comportamento do brasileiro
O psicopata pode ser o ladrão
O psicanalista MD Magno deu interessante entrevista a Arnaldo Bloch, na edição de O Globo de 14/10/2007. Separei dois trechos para comentar:
A SÍNDROME DO ROLEX — Luciano Huck foi tolo. Se roubarem meu relógio posso sentir pena, ficar feliz de não ter levado tiro, mas não vou fazer um escândalo nacional. Também não vou dizer que roubou porque é pobre. Claro que se a desigualdade é menor, a violência arrefece. Mas têm gente que rouba porque gosta de roubar. O povo do Congresso, por exemplo, não é pobre mas rouba. Na pobreza ou na riqueza, há quem se conforme com suas limitações, e há quem não se conforme.
ELITE E INTELECTUALIDADE BRASILEIRA — Que elite? Política? Intelectual? Os poderes político-econômico? Se forem esses, é só poder e mais nada na cabeça. Mas se formos pensar em elite como sendo o melhor, o de ponta, o Brasil está mal. Tem pouco, Falo do alto de 40 anos de universidade, já estou aposentado, nada tenho com isso. A intelectualidade no Brasil é assim: se você abrir a boca para dizer alguma coisa nova, imediatamente vai ser combatido. Não porque alguém tenha entendido o que você disse. Num lugar mais civilizado, você seria ouvido, estudado, entendido, e depois suas idéias seriam combatidas em nome de outras. Aqui uma idéia é combatida de graça. Mas se alguém importante disser que é sensacional, todo mundo baixa a crista. Eu, por exemplo, sempre estive, há trinta anos, dizendo as mesmas coisas e levando porrada. Aí quando fui analisado por Lacan, e lecionei na Universidade de Paris no departamento dirigido por ele, virei o máximo.
Comentando...
1) O assunto não é a atitude do Huck. Ele foi a vítima, e ponto final. A questão é a freqüente, diária e cotidiana associação do roubo com a necessidade de sobrevivência, com a fome, com a pobreza. É uma simplificação. Esta pode ser uma causa de roubo, mas não é a causa do roubo. Psicopatas roubam porque gostam. Alguns políticos ricos também.
2) Meu destaque na análise da elite também é para a segunda parte, para a mania nacional da crítica. Primeiro se critica, depois se procura entender a proposta. É mesquinho, é irracional, subjetivo. Mas faz parte do caráter do brasileiro. Pode ser associado à inveja, outras vezes ao pessimismo, outras tantas ao simples modismo.
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 14h42
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Televisão
Velhas repórteres (sem ofensa...)
O Globo Repórter do dia da independência foi apresentado pela veterana repórter Isabela Assumpção. Ela deve estar já beirando os 60 anos, já transmite a imagem de recente vovozinha.
Sua participação marca uma interessante mudança da atitude da TV Globo, que nos anos 70 a 90 priorizou as repórteres jovens e bonitas. Aquelas que eram jovens nos anos 70 e 80 praticamente desapareceram da imagem televisiva nas décadas seguintes.
Outro exemplo é o de Sandra Passarinho, talvez o rosto feminino mais freqüente no Jornal Nacional nos anos 70. Só recentemente ela voltou a fazer reportagens de veiculação nacional. Uma diferença entre as duas é que a Sandra usou os recursos modernos de rejuvenescimento e conseguiu manter uma aparência mais jovem que a sua idade real, situação oposta à de Isabela Assumpção.
Esta postura da TV Globo segue o padrão das TVs americana e européia, onde não existe esta cultura radical de hipervalorização da beleza e juventude que permeou a TV brasileira durante muito tempo.
Uma atitude positiva da emissora líder das telecomunicações nacionais.
Categoria: Mídia
Escrito por Márcio às 22h55
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Frases
Algumas frases do grande filósofo francês Edgar Morin:
Aos 86 anos, Edgar Morin é um dos principais intelectuais do mundo contemporâneo. Em passagem pelo Brasil ele concedeu uma entrevista à edição de março da revista Cult, que selecionou algumas frases, que repito a seguir:
"A visão puramente econômica ignora o fato de que não há só economia na economia, há também desejo, medo, crença, política. Tudo está ligado, não só na realidade humana, como também na realidade planetária".
"As idéias que surgem numa comunidade tomam força e energia. Não somos só nós que as possuímos, elas também nos possuem".
"Nós construímos a realidade que nos constrói"
"Somos diferentes pela consciência, pela cultura, pelo pensamento, mas somos ao mesmo tempo animais e, mais do que animais, somos seres vivos e mais do que seres vivos - e é esta realidade que precisamos entender hoje, principalmente porque a ignoramos antes. Por termos ignorado essa realidade, as forças técnicas enfureceram-se sobre o planeta, provocando hoje um problema de degradação das condições da biosfera que vai ameaçar nossa própria existência nos próximos dez anos".
"O ensino deve favorecer a arte de agir"
"E verdade que o homem é racional, ele desenvolveu a racionalidade, mas ao mesmo tempo criou a loucura, o delírio. Eu digo que o homo sapiens é ao mesmo tempo o homo demens, capaz das maiores loucuras, até as mais criminosas, as mais insensatas. Não se pode os dois, porque entre os dois circula a afetividade, o sentimento, não existe racionalidade pura, até o matemático completamente dedicado à racionalidade matemática o faz com paixão".
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 13h08
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Pequim ou Beijing?
Países e cidades que trocam de nome
O jornalista e colunista de O Estado de São Paulo Sérgio Augusto publicou em 07/10/2007 uma crônica-artigo sobre as trocas de nomes de países e cidades, o que se acentuou a partir da metade do século 20 com o desaparecimento dos antigos impérios coloniais europeus. Por motivos vários – principalmente volta às tradições e capricho de ditadores – elas aconteceram principalmente na Ásia e África. Com tristeza para os geógrafos, que precisaram aumentar a capacidade de memória. Vejamos alguns casos por ele citados:
- Mianmar à É o que está na ordem do dia, por causa da repressão da ditadura militar às manifestações populares, lideradas pelos monges budistas. George W. Bush, recentemente, preferiu utilizar o velho nome, Burma. Em português, sempre foi mais conhecida como Birmânia.
- Tailândia à Desde 1949 é o novo nome do antigo Sião, imortalizado no filme Ana e o Rei do Sião.
- Irã à Durante milênios era a Pérsia.
- Etiópia à Era a Abissínia, na África oriental.
- Congo à Já foi Congo Belga, depois Zaire, voltou para Congo.
- Vietnã à Até anos 40, 50 era Indochina e vivia sob colonização francesa.
- Zimbábue à Antiga, mas não muito, Rodésia.
- Benin à Era Daomé até 1975.
- Burkina Fasso à Minha memória de estudante se lembrava de um antigo país chamado Alto Volta, do qual não mais ouvi falar depois. Agora sei por quê: mudou o nome para Burkina Fasso.
- Istambul à A maior – mas não é a capital – cidade da Turquia, que é a antiga Constantinopla, capital do Império Romano do oriente. Este último só foi derrotado e perdeu a sua unidade pouco antes de Colombo e Cabral.
- Mumbai à A gigantesca cidade da Índia sempre se chamou Bombaim por causa da influência luso-brasileira, pois o nome é uma corruptela de "Boa Bahia", segundo o Dicionário Onomástico Etimológico, de J. P. Machado. Agora mudou.
- São Petersburgo à Grande cidade russa que virou Petrogrado, depois Leningrado (em homenagem ao líder comunista Lenin) e agora voltou ao velho nome.
- Pequim à Está se iniciando a tendência de mudar, não o nome local, mas a sua versão nas línguas que usam os alfabetos anglo-germânico e latim. A opção é para Beijing.
O caso da capital da China não é exatamente uma mudança de nome, mas de uma nova adaptação para outras línguas, por causa da brutal diferença da escrita chinesa. Assim explica Sérgio Augusto: "Beijing, como Guangzhou (ex-Cantão) e tantos outros vocábulos com os quais convivemos há mais de um século, não é um rebatismo, mas uma reanglicização mais próxima do foneticismo (ou da pronúncia) mandarim. Como não usa o alfabeto romano, a língua chinesa tornou-se escrava da transliteração. Há mais de um século, o sistema de romanização Wade-Giles dicionarizou Peking, Canton, Nanking, etc. Beijing é fruto do sistema mais moderno de Hanyu Pinyin."
Os velhos atlas só vão servir para os sebos.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 17h39
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Frases da semana
O caderno Aliás, de O Estado de São Paulo de hoje, publicou algumas frases selecionadas, ditas durante a semana. Selecionei estas abaixo, que me pareceram especialmente interessantes:
'Nós vamos pacificar o Rio. Mas não vai ser com passeata e roupa branca. Isso fazemos há 20 anos e não dá em nada' — Mário Sérgio Brito Duarte, ex-comandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope), comemorando o fato de que, após anos de inação, o governo atual do Rio de Janeiro resolveu enfrentar o tráfico
'Se a oligarquia boliviana conseguir derrubar ou assassinar Evo, nós, venezuelanos, não vamos ficar de braços cruzados' — Hugo Chávez, presidente da Venezuela, afirmando que seu país agirá militarmente se a elite da Bolívia se insurgir contra seu colega Evo Morales
'Se quiserem evitar a 3ª Guerra Mundial, devem impedir que os iranianos obtenham o conhecimento necessário para desenvolver uma arma nuclear' — George W. Bush, presidente dos EUA, mandando um recado a Vladimir Putin, da Rússia, que defendeu, em visita ao Irã, o programa nuclear do país
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 20h17
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Malandragem
Turma de Renan Calheiros vende obra única para vários construtores
Há aproximadamente nove anos atrás eu estava procurando um apartamento para comprar no bairro Cidade Nova e encontrei o ideal numa rua paralela à principal avenida. Aceitei o preço, mas o corretor da pequena Casa Imóveis me pediu um cheque de 10% como garantia.
Eu trazia armazenado na memória o conselho de um amigo que acreditava que uma garantia deste tipo sempre ajudava na compra. “O comprador valoriza o seu interesse e acaba fechando”, me garantiu, respaldado pela compra satisfatória do apartamento em que morava.
Assinei o cheque e pedi uma reunião com o proprietário para fechar o negócio. A primeira foi marcada para poucos dias depois. Cheguei na hora combinada, mas o vendedor não apareceu. “Telefonei para a casa dele e me informaram que ele viajou”, informou o corretor.
Na segunda visita ao apartamento estava no chão uma conta de energia em nome de uma empresa de engenharia. “Mas você me disse que o apartamento pertence a um juiz de direito” (inquiri o corretor). “É que o juiz é procurador da firma”, tentou explicar. A desconfiança começou a aparecer.
Um mês se passou, com dois ou três adiamentos semanais. Auto-desistente, fui conferir o xerox da garantia e tive uma surpresa. A Casa não havia assinado o mini-contrato e eu havia me distraído ao receber o papel, com falha tão perigosa.
Queria meu cheque de volta. Com receio de estar sendo vítima de um grande golpe, procurei um amigo pessoal que era detetive da Polícia Civil – hoje é delegado no norte de Minas. Pedi que ele fosse de companhia, pois minha idéia era apenas mostrar que eu estava decidido. Sugeri que ele levasse uma cara-de-poucos-amigos atrás de óculos escuros.
O João levou a cara, os óculos escuros e também um revólver, mas esta parte só me contou na volta. Felizmente, o berro não saiu do bolso.
Experiente e esperto, o incorreto corretor foi todo solícito. Botou a culpa no juiz-fantasma e entregou o cheque. Tornou até amigável a cara do João.
Depois de analisar o quadro, entendi a jogada. Mais que uma garantia minha, o cheque era uma segurança para uma negociação anti-ética do corretor. Eu ficava preso a ele, correria riscos de perda daquele dinheiro ao procurar outro apartamento e desistir daquele. O corretor tinha uma garantia de venda e podia procurar outro comprador que pagasse mais. Me enrolava durante algum tempo: se conseguisse preço melhor, me devolvia o cheque e colocava a culpa no proprietário; se não conseguisse, fechava o negócio comigo. Eu era o trouxa da história.
Me lembrei deste caso ao ver estampada no O Estado de São Paulo de 14/10/2007 a enésima denúncia contra o presidente do Senado, Renan Calheiros. Ele destinou R$ 280 mil reais para uma empresa de papel. Assim abriu a matéria da página 4: “No papel, a empresa KSI Consultoria e Construções Ltda, tem sede (em Pernambuco) e filial (em Alagoas), dois proprietários e capital social de R$ 600 mil. De fato, ela nunca existiu.”
A verba era destinada à construção de 28 casas dentro de fazendas estranhamente próximas a fazendas pertencentes aos irmãos Renan e Olavo Calheiros. A reportagem não conseguiu chegar até as tais casas, por estarem dentro de propriedades privadas.
Se as casas não existirem, é fraude. Se existirem, é desvio de dinheiro público para favorecer fazendeiros, pessoas com propriedade, que não podem ser enquadrados em “necessitados sociais”.
Vejamos o segundo parágrafo: “O verdadeiro proprietário da empresa é um ex-assessor de Renan, José Albino Gonçalves de Freitas, que transita entre Brasília e Alagoas. O responsável pela contratação foi o filho do senador, Renan Calheiros Filho (PMDB), que é prefeito de Murici (AL).”
O elo com minha compra frustrada está na página A-6, em uma entrevista com o empresário da construção civil Vitor Nazário Mendonça Gomes da Silva. Dono da construtora São Brás, com sede em Maceió, o empresário diz ter pago comissão a Albino para realizar uma obra na cidade de Craíbas, mas no fim não conseguiu executá-la.
Dois trechos básicos da entrevista:
“No gabinete do senador tinha um birô só dele [José Albino], para atender os prefeitos ligados a Renan.”
“Na realidade, ele montou a KSI, que chegou a se chamar Albin.”
E, finalmente, o meu elo:
“O Albino tinha essas pequenas obras e as ‘vendia’ para pequenas empreiteiras. Só que Albino era muito esperto e vendia para até três empreiteiros. Então você pagava uma comissão para pegar a obra, mas ele negociava com outros também.”
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 18h39
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Sociologia à la Brasil
Opinião pública é apenas parte do eleitorado
O cientista político Fábio Wanderley Reis, da UFMG, deu longa entrevista à Folha de São Paulo de 09/09/2007, Caderno Mais, onde eu extraí algumas informações interessantes, que transcrevo abaixo:
O senador e governador de Minas Gerais Milton Campos [1900-72] fazia a distinção entre eleitorado e opinião pública: esta seria apenas parte do eleitorado, só os setores mais informados – isto é, da classe média para cima.
Há um componente, especialmente no que refere à corrupção, que é cultural. Temos uma cultura que tende à complacência com o comportamento à margem das regras.
Há pesquisas internacionais que mostram reiteradamente algo bem indicativo disso: os brasileiros são singularmente desconfiados em relação às outras pessoas.
Segundo a organização World Value Surveys, as respostas positivas para "você pode confiar nas outras pessoas?", que ficam na faixa de 60% nos países escandinavos, no Brasil estão em torno de 3%.
Mas não concordei com algumas opiniões dele, como:
a defesa do financiamento público de campanhas eleitorais — ele diz, textualmente, que: "Algumas propostas são importantes: o financiamento público de campanha, pois a riqueza privada interfere no direito de ser votado."
- e a defesa do voto secreto para o parlamentar — ele diz, também textualmente, que: "Não sei se cabe lutar pelo voto aberto; o eleitor tem o direito garantido de votar na cabine para não sofrer pressões; com o parlamentar, não é diferente."
No primeiro caso, penso que a sociedade brasileira é tão corrupta que, se a idéia for aprovada, coexistirão financiamento público e financiamento privado, duplicando o problema. Quanto ao voto secreto de parlamentar, não vejo lógica na comparação com o cidadão-eleitor, pois o parlamentar é um representante, deve mostrar o que está fazendo.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 18h56
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Flagrante de uma geração perdida

Flagrante de uma geração perdida
O local é o Bairro Santa Tereza, junto ao Supermercado Topázio.
O carro é um Chevrolet Astra, modelo recente, bem equipado. Um carro caro.
Dentro dele, de porta aberta, ouvindo música em alto volume e distraindo-se com um telefone celular também caro está um jovem entre 20 e 23 anos, de calça jeans com alguns buracos (como a moda exige...), sem camisa.
Junto à parede azul do supermercado está o seu trabalho, uma banca de DVDs piratas. Ele vigia de longe. Parece não gostar do trabalho: não procura a freguesia, tem uma expressão de indiferença, quase hostil.
Este é um flagrante de uma expressiva parcela da juventude brasileira. Sem objetivos e filosofia de vida, sem formação técnica profissional, obrigada a procurar trabalho informal, ilegal, à margem do comércio legalizado.
E, de contra-senso, agarra-se aos símbolos de status. A roupa é da moda e usa um carro chique. O carro provavelmente não é dele, mas ele deseja que os transeuntes acreditem que ele é o dono.
Quer aparentar um sucesso que está longe de ter alcançado. E que a baixa qualificação o impedirá, em termos definitivos, de vir a alcançar.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 18h50
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PT é entreguista?
PT é entreguista?
Depois de décadas de críticas à privatização, PT leiloa estradas
federais
No última dia 09/10/2007 o Governo Federal privatizou, via leilão, sete
trechos de rodovias federais, inclusive a Fernão Dias, que liga Belo Horizonte a
São Paulo.
Não li nenhuma análise sobre o fato que considero mais importante: a
transformação ideológica do Partido dos Trabalhadores, que há duas décadas
renega as privatizações e acusa o PSDB de entreguismo por ter realizado e
defendido muitas delas.
O presidente Lula perdeu a vergonha com a contradição histórica e até
comemorou o resultado.
Em cerimônia realizada horas depois ele disse que "depois de vencer todas as
barreiras legais, todos os casos criados, finalmente nós tivemos o leilão de
sete lotes de rodovias brasileiras, que estavam há muito tempo para ser
privatizadas, para se fazer as concessões".
Na Era FHC os "casos criados" tinham o PT como principal autor.
Matéria publicada no site da FolhaOnLine (http://www.folha.uol.com.br/) no dia do leilão informa
que de janeiro a agosto deste ano o governo lulista aplicou apenas 10 mil reais
na manutenção dos trechos.
O valor de uma pequena reforma em um pequeno apartamento foi o equivalente à
soma dos gastos com rodovias importantes, irresponsabilidade gerada pela
expectativa da privatização.
Além dos prejuízos materiais e de vidas humanas à conta da
irresponsabilidade, pode ter havido prejuízo financeiro no leilão pois, segundo
o superintendente de Exploração da Infra-Estrutura da ANTT (Agência Nacional de
Transportes Terrestres), Carlos Serman, "quanto mais deteriorada uma rodovia,
maiores devem ser os preços de tarifa apresentados durante o leilão de
concessão".
Mas o governo decidiu utilizar um novo sistema de licitação e escolheu quem
apresentou o preço mais baixo por cada pedágio.
A empresa espanhola OHL arrematou cinco dos sete trechos, ficando o sexto
para a brasileira BRVias e o último para outra espanhola, a Acciona.
Atualmente a Espanha só perde para os Estados Unidos entre os países que
investem no Brasil.
Em 1999 fiz uma longa viagem, de 2.700 quilômetros, pelo leste, sul e centro
da Espanha e entendi com clareza o sistema de privatização de rodovias naquele
país.
As antigas estradas continuam públicas e de trânsito gratuito; são
razoavelmente estreitas, cheias de curvas e passam por dentro das pequenas
cidades.
As rodovias privatizadas são, na verdade, autopistas: largas, eficientes,
rápidas e seguras.
O usuário de lá tem duas opções: usar gratuitamente uma pista que pode ser
chamada de "normal" ou pagar para usar uma estrada que teve um custo mais alto,
mas tem várias vantagens que compensam o gasto.
O brasileiro só tem uma opção: pagar nas privatizadas e estragar o carro – ou
morrer – nas estradas administradas pelo governo, seja federal ou
estadual.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 22h24
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Uma tirinha engraçada

Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 18h22
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A família brasileira está mudando
A família brasileira está mudando
A Folha de São Paulo de 07/10/2007 apresentou uma pesquisa sobre a família brasileira realizada pelo instituto que pertence ao próprio grupo de empresas, a (ou “o”) Datafolha. Eis alguns números obtidos dos estudos:
· 3,8 é o número médio de pessoas por casa
· A quantidade média de filhos por família é 2,7
· 27% dos casais estão juntos há mais de dez e menos de 20 anos. Os casados com filhos que têm renda de até dez salários mínimos são 91%
· Os brasileiros que não costumam conversar durante as refeições equivalem a 30%
· 35% dos brasileiros ganham até dois salários mínimos, e outros...
· 24% ganham entre dois e três salários mínimos
· Solteiros que já se casaram ou viveram com alguém como se fossem casados são 17%
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 17h30
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Problemas com as livrarias virtuais
Problemas com as livrarias virtuais
Já fiz várias compras de livros via internet e recebi todos que paguei. No caso do único que não recebi, o dinheiro foi devolvido. Mas não estou satisfeito com este mercado.
Sempre dei preferência para os sites de livrarias tradicionais. As exceções foram Submarino e Americanas, as maiores lojas virtuais do país, magazines que vendem de tudo.
Até um ano atrás quase só comprava na Pau Brasil, antiga e pequena rede de livrarias paulista. Através do site de comparação de preços Buscapé descobri que seus preços eram imbatíveis. Entregava rápido também. Mas ela perdeu competividade: agora tem poucos itens e preços na média mais elevados.
Recentemente comprei na tradicionalíssima Melhoramentos, também paulista, um pacote de cinco livros. Um mês depois, sem notícias, reclamei e chegaram três. Telefonei e recebi a informação que um deles estava esgotado e, quanto ao outro, precisavam de mais uma semana de prazo.
O compromisso foi cumprido, com a devolução do pagamento do primeiro e a posterior entrega do segundo. Mas vale a pergunta: se não tinham o produto em estoque, por que venderam? E por que esperaram a reclamação para agir?
Na mesma época encontrei algumas opções numa livraria virtual chamada... Livraria Virtual. Como não a conhecia, fiquei com receio e só encomendei dois (transferi as outras opções exatamente para a Melhoramentos). Um mês se passou e... nada! Após a reclamação via e-mail mandaram um e pediram mais um prazo – também via e-mail – para obter o segundo. Continuo firme, à espera, na torcida. O pagamento foi através de boleto bancário, já está na conta deles.
Tenho curiosidade de entender a mecânica de funcionamento destas lojas. Dizem que elas não têm todo o estoque que oferecem: embalam o que está à mão e encomendam das editoras os demais. Isto quer dizer o seguinte: quando não encontram o exemplar pedido e pago, empurram o freguês com a barriga e só resolvem o problema particular sob pressão.
Talvez isto explique a oferta de livros esgotados ou simplesmente difíceis, que não deveriam estar no site ou, no máximo, oferecido com a informação sobre a impossibilidade de entrega imediata.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 14h24
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A função anti-educacional da mídia
A função anti-educacional da mídia
A mídia, desde os tempos em que se chamava Imprensa, angustia-se em dilema quando está prestes a divulgar uma notícia que inclui o roteiro de um golpe criminoso, os detalhes de um plano destinado a ludibriar, roubar.
Se não divulga, além de praticar ato contrário à própria definição da comunicação, deixa de alertar a sociedade, especialmente as vítimas em potencial.
Se divulga, ensina o caminho das pedras para os candidatos a golpista. Estimula os sentimentos de amor à propriedade... alheia. Funciona como uma educação ao inverso: ensina técnicas profissionais que vão ser usadas para o anti-trabalho, a anti-ética, a anti-honestidade. Para o mal.
Qual é o meio termo? Na impossibilidade de identificá-lo, geralmente opta por divulgar o roteiro, pois Comunicação é o meio-de-vida dos meios de comunicação. Lava as mãos, à Pilatos. Em casos tópicos se omite, criando no seu autor a sensação de Defensor da Sociedade.
Não há um método, um sistema de aferição quantitativa das conseqüências da divulgação. Provavelmente existem alguns estudos – dormindo nas prateleiras universitárias – analisando possíveis aumentos dos índices de determinados delitos ou crimes após a divulgação jornalística de algum caso semelhante. Estudos isolados têm seu valor per si, mas pouca importância sociológica, pedagógica.
Particularmente criei a convicção do papel educador/deseducador (no mínimo, influenciador) da mídia no que se refere às atividades criminosas na época do massacre de Carandiru (1992). Houve uma rebelião anterior, talvez alguns meses antes, que foi fartamente transmitida pelo Jornal Nacional e que terminou com muitas concessões aos prisioneiros. Foi o estopim para uma seqüência de rebeliões idênticas. Aí aconteceu a rebelião do gigantesco complexo de cadeias do Carandiru. A PM paulista invadiu e matou 111 prisioneiros.
Se, nos meses anteriores, a divulgação de rebeliões estimulava o aparecimento de outras, nos meses seguintes não se falou mais em novos casos.
É um fato que o Jornal Nacional é líder de audiência no sistema prisional nacional. Em nossas estranhas cadeias, eletrodomésticos como fogão, celular e televisor são companheiros do cotidiano do sentenciado brasileiro.
Retornando à questão da divulgação de atividades criminosas e de seu fator influenciador, um exemplo claro e recente é a onda dos falsos seqüestros por telefone. No início, o golpe era aplicado de dentro das penitenciárias cariocas e muitas vítimas pagaram os valores extorquidos.
Depois de muitos pagamentos de “resgate” o problema se tornou público, pois a mídia conseguiu alguns depoimentos e também gravações telefônicas originadas de escuta com autorização judicial, que foram levadas a reportagens de grande audiência.
A mídia bem que tentou exercer o seu lado educativo do bem. Entrevistou especialistas que passaram a lição de casa: não cair em desespero, desligar logo o telefone, localizar o falso seqüestrado. Mas o noticiário deu mais espaço para a divulgação do crime, não para a prevenção.
A incidência aumentou. Não tenho números para provar, minhas fontes são o noticiário cotidiano e a convivência com vítimas. Há quem recebeu dois ou três telefonemas. A última moda é a imitação do choro de criança.
O tom de amadorismo de alguns golpistas – segundo o relato de suas semivítimas, aqueles que receberam o telefonema e ouviram parte da argumentação antes de desligar o aparelho – sugere que o crime se banalizou. Informados e educados pela mídia, malandros coca-cola (lembram-se desta expressão?) se aventuraram a aplicar golpes aleatoriamente, a esmo, torcendo para que algum super-ingênuo assustasse e caísse na rede.
Me agarrei a toda esta elucubração na véspera de sete de setembro, quando o meu pai recebeu um telefonema informando que estavam falando do Banco Panamericano e que ele tinha uma dívida de 20 e tantos reais. Pediram o número do CPF e a data de nascimento “para confirmar”. Ele ouviu um pouco, enrolou e depois desligou.
Qual era o alvo do vigaristinha? Dados para algum falso empréstimo em folha? Mais provável é que quisesse o pagamento dos menos de 30 reais. Achava que, sendo pouco, seria mais fácil o pagamento.
Um aluno inexpressivo. Como o ensino público brasileiro.
Categoria: Mídia
Escrito por Márcio às 17h15
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Desde o início do século 20, Alagoas – infelizmente – já era a capital da corrupção política
Desde o início do século 20, Alagoas – infelizmente – já era a capital da corrupção política
Na data de 21/05/07 redigi um texto neste blog em que escrevi que o Maranhão estava, temporariamente, tomando o lugar de Alagoas no ranking da corrupção política.
Isto aconteceu porque, naquele momento, foram envolvidos simultaneamente na mesma denúncia tanto a situação quanto a oposição políticas. Os dois grupos adversários haviam recebido dinheiro irregular da Construtora Gautama. Até uma terceira força política foi envolvida: o ex-governador José Reinaldo Tavares, que já havia transitado entre os dois grupos.
Mas com a questão do presidente do Senado Renan Calheiros, seus bois, sua filha bastarda e seu tesoureiro-lobista, Alagoas infelizmente parece estar retomando sua liderança no ranking.
Recentemente tive a excelente oportunidade de ler um livro de crônicas do jurista Alberto Deodato (1896-1978) editado em 1960 pela Editora Itatiaia, de Belo Horizonte, com o título Roteiros da Lapa... e outros roteiros.
Na página 81 se abre uma crônica em que ele faz uma dura análise da política alagoana do princípio do século 20. Alberto Deodato era sergipano, mas com profundos vínculos com o estado vizinho. Assim iniciou o texto: “Minha infância se repartiu entre os canaviais do engenho de meu pai em Sergipe e as margens do São Francisco em Alagoas.”.
O título da crônica é Alagoas dá muito doido.... Ele contou que sempre teve vontade de escrever sobre os políticos alagoanos e daria o seguinte título à sua obra: Os doidos da política de Alagoas.
Também dono de extensa carreira política, o professor Alberto Deodato, antes de falar dos doidos de Alagoas, citou os virtuosos daquele Estado, como o poeta Jorge de Lima e o escritor Graciliano Ramos, mas depois cai de pau nas famílias que se perpetuavam no poder, no oligarquismo alagoano.
O interessante é que algumas delas ainda possuem ou disputam o poder, meio século depois deste texto e três décadas depois da morte do próprio Alberto Deodato. Na oposição ou na situação, ainda controlam o Estado.
Em um trecho ele diz assim: “Euclides Malta não era doido, mas pensava que a governança do Estado era só para a sua família, revezava-se com os parentes. Foi preciso uma intervenção federal para entrar gente estranha no governo.”
Já nos anos 90, com o alagoano Fernando Collor de Melo governando todo o Brasil, a família Malta continuava poderosa, tanto que a primeira dama do país era Rosane Malta, bisneta de Euclides.
Mais à frente, Alberto Deodato conta um caso escabroso do político Silvestre Péricles de Góis Monteiro, que governou as Alagoas de 1947 a janeiro de 1951. Diz que “o seu ato mais inofensivo foi borrar as paredes do Palácio do Governo, depois de uma disenteria de mariscos, para, assim, entregá-lo ao seu adversário, senhor Arnon de Melo...”.
Arnon Affonso de Farias Mello era o pai de Fernando Collor e se notabilizou por um episódio único na política brasileira: matou, dentro do próprio Senado, o senador José Kairala, do Acre, por engano. Na verdade ele estava tentando assassinar seu antecessor Silvestre Péricles de Góis Monteiro, o da diarréia de frutos do mar, e errou o alvo. Isto aconteceu no dia 04 de dezembro de 1963, três anos depois da publicação do livro do professor Deodato.
A crônica do jurista e político Alberto Deodato, escrita há cerca de meio século, mostra a persistência das oligarquias brasileiras e dos danos por ela causados.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 18h38
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Mais uma bela crônica de Alberto Deodato
Mais um belo texto de Alberto Deodato
Republico neste espaço a crônica O sangue nas revoluções brasileiras..., páginas 61 a 63 do livro Roteiro da Lapa... e outros roteiros. O autor falou sobre a revolução de 1930, o medo de combates e mortes e a tendência brasileira de terminar em pizza. E nos acordos políticos que aparecem até nas horas mais amargas.
Eis a crônica:
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 16h39
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O sangue nas revoluções brasileiras...
Essa revolução de Cuba, com esse fuzilamento, essas fotografias, essas falas de Fidel Castro, fazem com que me lembre das revoluções brasileiras.
Lembrar, para um paralelo entre o gênio da nossa gente e o dos cubanos. Entre nós, descendentes de portugueses, e eles, de espanhóis. E fico abismado como é que duas raças, vindas da mesma península, oriundas do mesmo tronco latino podem ser tão diferentes.
No ano de 1930, eu era correligionário de Melo Viana, aqui em Minas. Dirigia um jornal e fazia comícios a favor da candidatura Júlio Prestes. Jornal de acerbo combate à candidatura Vargas, com os exageros das paixões políticas, caldeadas pelo ardor da juventude. Era, entretanto, ligado a vários próceres adversários por fraterna amizade.
Entre eles, ao meu boníssimo Cristiano Machado, então Prefeito da Capital mineira. Isso foi em fins de 1929. Chamou-me à sua casa e me disse com intimidade:
— Estou vendo as cousas mal paradas. Fizemos união com os gaúchos. E prevejo cousas gravíssimas no país. Se estoura a revolução, o sangue inundará as ruas...
Fiquei arrepiado. E mais ainda, quando Melo Viana, vindo do Rio, gritou em praça pública:
— Cabeças rolarão sobre cabeças...
E Carvalho de Brito:
— O rio Arrudas não dará vasão à sangüeira.. .
Na verdade, a revolução estourou em outubro de 1930. Cristiano era Secretário do Interior do Governo Olegário Maciel, recém-empossado. E chefe das forças revolucionárias.
Fui dos primeiros a ser preso. Mal despedi-me da mulher e dos filhos. Levaram-me de casa à prisão, no quarto andar da Secretaria de Segurança. Em todo trajeto, ruminei, apavorado, no "sangue inundará as ruas", nas "cabeças rolarão sobre cabeças" e no "rio Arrudas não dará vasão à sangüeira". Álgido, de cima a baixo, senti a cabeça rolar, mal chegasse ao pelourinho.
Na sala-prisão, encontrei uns dez correligionários. Dos melhores. Professores, universitários, fazendeiros e estudantes. Estavam de cócoras, jogando dama. Como sentisse o meu acabrunhamento, o professor Melo Teixeira, preso nas vésperas, foi-me dizendo:
— Vista o pijama. Isso aqui é muito bom. Reclamamos a bóia. E o Cristiano nos mandou vir a do Automóvel-Club...
— Do AutomóveI-CIub?
— E da melhor. Vamos reclamar o caviar...
Assustado, não me animei muito. Aquilo era prá cevar as vítimas, antes da execução.
No dia seguinte, os meus companheiros foram diminuindo. Perguntei ao guarda amável:
— Teriam sido mortos à noite?
O rapaz soltou uma gargalhada:
— Mortos? Os nossos revolucionários não são homens pra essas cousas. Estou vendo que não ficará ninguém aqui. Basta um ser preso, e a mãe ou irmã de qualquer chefe saber, que vem um bilhetinho pra soltar
E detalhando:
— Ontem, foi preso um preto, que andou espalhando misérias contra a revolução, no Calafate. Três horas depois, a mãe do dr. Cristiano, que é o chefão, uma santa senhora, escreveu-lhe um bilhetinho, lembrando-lhe que a mãe do preto havia sido ama de leite do Aníbal. O chefe limpou uma lagrima, me chamou e mandou soltar o preso imediatamente ...
E citou mais:
— A irmã do dr. Otacílio Negrão, outro chefe militar, escreveu-lhe que se não soltasse já o dr. Melo Teixeira não pisasse mais em sua casa. Que nunca se viu Judiar com o médico dos seus sobrinhos dessa maneira...
Pedro Aleixo era um dos bravos comandantes revolucionários. Comandava, com galhardia, um batalhão revolucionário, de lenço vermelho no pescoço e farda cáqui. Depois de cada discurso era promovido ao posto imediato. Foi de soldado raso a tenente-coronel em cinco dias. Promovido a coronel, no sexto, deu-se um episódio pitoresco.
A cada promoção, tinha que pregar, na dragona do dolman, um cadarço branco. Tenente-coronel tem cinco cadarços. Coronel seis. Ao chegar em casa, comunicou à sua senhora que fora promovido a coronel.
— Não pode, Pedro! disse-lhe a senhora.
— Por que?
— Porque não tem mais cadarço. E o comércio está fechado.
Revolução brasileira é assim. A mais célebre batalha das revoluções brasileiras foi a de Itararé. Batalha em que não houve sangue. E não houve sangue porque não houve batalha.
Em revolução brasileira, só há sangue quando se incorpora, nas hostes em luta, batalhão feminino...
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 16h31
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Turfe
- Vivi intensamente as corridas de cavalos do Hipódromo
Serra Verde, de 1970 até meados de 2004. Crônicas, análises,
história e lembranças foram registradas no computador e
muitas delas aqui estão ou serão publicadas neste blog e
também no site do
Jockey.
Para o blog ficam reservados textos mais curtos, mais leves,
para não cansar o leitor.
Crônicas e análises
- Assunto: qualquer um.
Dia-a-dia
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Árvore
genealógica - Quando
me interessei pelas minhas raízes, descobri que poucos conhecem
suas origens familiares, seus ascendentes. Neste espaço
deixo um resumo de minha árvore genealógica e também um
pedido para quem tiver uma informação nova a respeito, que
mande um e-mail para marcio.avila@uol.com.br.
Márcio
de Ávila Rodrigues é médico-veterinário e jornalista. Reside
em Belo Horizonte-MG, Brasil, onde nasceu na década de 50.
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