Márcio de Ávila Rodrigues


Há meio século Alberto Deodato previa a violência carioca

Há meio século Alberto Deodato previa a violência carioca

Alberto Deodato foi uma figura proeminente nos meios políticos e jurídicos de Minas Gerais em boa parte do século 20. Também era conhecido em nível nacional, por ter sido deputado federal (quando a capital era o Rio de Janeiro) e por escrever crônicas e artigos em vários jornais do país.

Na literatura, foi romancista na juventude e cronista depois. Destacou-se mais como jurista: foi professor e diretor da Faculdade de Direito da UFMG. Também na juventude foi jornalista de redação, chegando a dirigir o Correio Mineiro e a Folha da Noite, ambos de Belo Horizonte.

(Alberto Deodato Maia Barreto nasceu em 1896 na pequena cidade de Maroim, em Sergipe. Faleceu em 1978, em Belo Horizonte.)

Em 1960 publicou uma coletânea de crônicas Roteiro da Lapa... e outros roteiros. Tive a recente oportunidade de ler a obra e me impressionei com a leveza e eficiência do texto e com o valor histórico, pelas suas descrições do cotidiano e da política. A Lapa do título é o bairro boêmio do Rio de Janeiro, onde ele viveu oito anos, quando estudante de Direito.

Tanto pelo valor histórico quanto literário, republico neste espaço a crônica número dois da série O mundo dos apartamentos, páginas 47 a 49 do mesmo livro. Ele descreveu o carnaval, o contraste entre o mundo dos apartamentos cariocas e a miséria dos morros. Em plena década de 1950, descreveu seu medo de que, um dia, o povo dos morros descesse até o mundo dos apartamentos empunhando metralhadoras e punhais.

Pois o morro já desceu, e até dispensou os punhais. Tem armas de fogo suficientes.

Eis a crônica:



Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 16h56
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Há meio século Alberto Deodato previa a violência carioca

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O mundo dos apartamentos – crônica II

 

O edifício de apartamentos onde moro, se tivesse mais alguns lances, tocaria o sopé de uma montanha. Se caminhasse mais alguns passos, entraria pelo mar. Estou entre a montanha e o mar. Pelas escarpas dessas rochas penduram-se os barracos de zinco, na pequena cordilheira que vai do Juá ao Leme, em cima de três túneis. Perto do mar, o Rio se chama Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon. Nas abas dos morros, o Rio se batiza de Pau Comeu, Pendura Saia, Querozene e Fogo na Cangica.

São dois mundos dentro de uma mesma cidade. O asfalto e a lama. A lâmpada elétrica feérica e a candeia mortiça do querosene. O apartamento de cortinas e tapetes e o barraco de tampas de caixão e retalhos de lata. O sol nasce na praia para aquecer os maiôs coloridos de seda e nailon. Desponta no morro para enxular molambos descorados, estendidos nos cordões como se fossem bandeirolas de festa domingueira em arraial pobre.

Senti, ontem, domingo de carnaval, o abismo entre esses dois mundos. O Carnaval é a festa que mais mergulha dentro da gente. Apodera-se do corpo e da alma. Cada homem tem o seu Carnaval. A paisagem da rua é, apenas, um motivo, igual para todos os que vêm e ouvem. Mas, dentro de nós, é um chocalho ou um sino. Desperta os estados de alma mais fortes e profundos.

Isso que estou vendo é a cousa mais profundamente triste e séria que se pode ver e sentir. É todo o drama social do Brasil, a nu, pelas ruas, extravasado nos sambas, modelado no ritmo, despido, frenético, vivo. Não adianta o riso, o barulho, o guizo, o chocalho, a gargalhada. A alegria não suplanta a melancolia do pandeiro e do tamborim. O Carnaval não é de Copacabana e do Leblon.

Esses subiram para Petrópolis. Foram para São Lourenço, Caxambu e Poços de Caldas, correndo do carnaval. O Carnaval é o morro. É a Favela. É o Pau Comeu. É o povo, derramando a pobreza, a nudez pela rua, na tristeza das cantigas, no ritmo da música e da dança.

Cada verso é um lamento:

"Lata dágua na cabeça

Lá vai Maria...

Maria lava roupa lá no alto,

Lutando pelo pão de cada dia,

Sonhando com a vida do asfalto,

Que acaba onde o morro principia..."

Esses lindos versos, de um capitão comunista do Exército, são todo o drama social do Rio de Janeiro.

Como "Lata dágua", "Ana Maria", o "Apanhador de Papel", "Minha frigideira", "Mundo de Zinco", são expressivos da miséria de quatrocentos mil moradores de mocambos, que não moram, não vestem, não comem carne, não bebem leite...

Esse drama da pobreza se exibe ao lado de vários espetáculos de imoralidade e de luxúria. A nudez é quase paradisíaca. O nu é para os dois sexos e começa aos sete anos. Com Polícia, às horas tantas, todos os instintos se exaltam. Depois, a cidade é alcova, onde os últimos foliões silenciaram e os pandeiros emudeceram... Não. O Carnaval do Rio não é uma festa. É um drama profundamente triste. Todos têm medo dele. Fecharam-se as Igrejas. Passaram os trincos em todos os asilos. Os quartéis ficaram de prontidão dia e noite. Só os ambulatórios de socorro médico se multiplicaram. Os orfanatos de meninas instalaram postos de recolhimento.

O Brasil vai vertiginosamente mal. Soltaram-se os freios morais. A religião está impotente. Arrepio-me, como brasileiro, tomado de pavor, quando penso que estes morros, em vez de descerem com tamborins e pandeiros, possam, um dia, trazer, nas mãos, metralhadoras e punhais.



Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 16h55
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As letras mais incompreensíveis da música popular brasileira

Pós-convalescente, estou retomando o Blog do Márcio. Como andei preparando uns textos mais longos e pesados, vou retornar com um post mais leve.

Lá pelos inícios dos anos 90 o colunista do jornal O Globo Artur Xexéo promoveu um hilariante concurso com a finalidade de escolher o verso mais incompreensível da música popular brasileira. Ao vencedor seria entregue o troféu "Zum de Besouro". Os seus leitores foram os eleitores. O resultado foi o seguinte:

1.º lugar – Gilberto Gil – música Refazenda

Abacateiro teu recolhimento é justamente

O significado da palavra temporão

Enquanto o tempo não trouxer teu abacate

Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão

Abacateiro sabes ao que estou me referindo.

2.º lugar – Cazuza e Ezequiel Neves – música Codinome Beija-Flor

Que só eu que podia

Dentro da tua orelha fria

Dizer segredos de liqüidificador.

3.º lugar – Jorge BenJor – música Alô, Alô, W/Brasil (Chama o Síndico)

Jacarezinho, avião, Jacarezinho, avião

Cuidado com o disco voador

Tira essa escada daí,

Essa escada é pra ficar aqui fora

Eu vou chamar o síndico

Tim Maia! Tim Maia! Tim Maia!

A informação foi extraída do livro Na Toca dos Leões, de Fernando Morais (Editora Planeta, 2005). O assunto do livro é a agência de publicidade W/Brasil, presidida por Washington Olivetto.



Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 22h07
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Este blog divide meus textos em 4 partes:

Turfe - Vivi intensamente as corridas de cavalos do Hipódromo Serra Verde, de 1970 até meados de 2004. Crônicas, análises, história e lembranças foram registradas no computador e muitas delas aqui estão ou serão publicadas neste blog e também no site do Jockey. Para o blog ficam reservados textos mais curtos, mais leves, para não cansar o leitor.

Crônicas e análises - Assunto: qualquer um.

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Árvore genealógica - Quando me interessei pelas minhas raízes, descobri que poucos conhecem suas origens familiares, seus ascendentes. Neste espaço deixo um resumo de minha árvore genealógica e também um pedido para quem tiver uma informação nova a respeito, que mande um e-mail para marcio.avila@uol.com.br.


Márcio de Ávila Rodrigues é médico-veterinário e jornalista. Reside em Belo Horizonte-MG, Brasil, onde nasceu na década de 50.




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