O mundo dos apartamentos – crônica II
O edifício de apartamentos onde moro, se tivesse mais alguns lances, tocaria o sopé de uma montanha. Se caminhasse mais alguns passos, entraria pelo mar. Estou entre a montanha e o mar. Pelas escarpas dessas rochas penduram-se os barracos de zinco, na pequena cordilheira que vai do Juá ao Leme, em cima de três túneis. Perto do mar, o Rio se chama Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon. Nas abas dos morros, o Rio se batiza de Pau Comeu, Pendura Saia, Querozene e Fogo na Cangica.
São dois mundos dentro de uma mesma cidade. O asfalto e a lama. A lâmpada elétrica feérica e a candeia mortiça do querosene. O apartamento de cortinas e tapetes e o barraco de tampas de caixão e retalhos de lata. O sol nasce na praia para aquecer os maiôs coloridos de seda e nailon. Desponta no morro para enxular molambos descorados, estendidos nos cordões como se fossem bandeirolas de festa domingueira em arraial pobre.
Senti, ontem, domingo de carnaval, o abismo entre esses dois mundos. O Carnaval é a festa que mais mergulha dentro da gente. Apodera-se do corpo e da alma. Cada homem tem o seu Carnaval. A paisagem da rua é, apenas, um motivo, igual para todos os que vêm e ouvem. Mas, dentro de nós, é um chocalho ou um sino. Desperta os estados de alma mais fortes e profundos.
Isso que estou vendo é a cousa mais profundamente triste e séria que se pode ver e sentir. É todo o drama social do Brasil, a nu, pelas ruas, extravasado nos sambas, modelado no ritmo, despido, frenético, vivo. Não adianta o riso, o barulho, o guizo, o chocalho, a gargalhada. A alegria não suplanta a melancolia do pandeiro e do tamborim. O Carnaval não é de Copacabana e do Leblon.
Esses subiram para Petrópolis. Foram para São Lourenço, Caxambu e Poços de Caldas, correndo do carnaval. O Carnaval é o morro. É a Favela. É o Pau Comeu. É o povo, derramando a pobreza, a nudez pela rua, na tristeza das cantigas, no ritmo da música e da dança.
Cada verso é um lamento:
"Lata dágua na cabeça
Lá vai Maria...
Maria lava roupa lá no alto,
Lutando pelo pão de cada dia,
Sonhando com a vida do asfalto,
Que acaba onde o morro principia..."
Esses lindos versos, de um capitão comunista do Exército, são todo o drama social do Rio de Janeiro.
Como "Lata dágua", "Ana Maria", o "Apanhador de Papel", "Minha frigideira", "Mundo de Zinco", são expressivos da miséria de quatrocentos mil moradores de mocambos, que não moram, não vestem, não comem carne, não bebem leite...
Esse drama da pobreza se exibe ao lado de vários espetáculos de imoralidade e de luxúria. A nudez é quase paradisíaca. O nu é para os dois sexos e começa aos sete anos. Com Polícia, às horas tantas, todos os instintos se exaltam. Depois, a cidade é alcova, onde os últimos foliões silenciaram e os pandeiros emudeceram... Não. O Carnaval do Rio não é uma festa. É um drama profundamente triste. Todos têm medo dele. Fecharam-se as Igrejas. Passaram os trincos em todos os asilos. Os quartéis ficaram de prontidão dia e noite. Só os ambulatórios de socorro médico se multiplicaram. Os orfanatos de meninas instalaram postos de recolhimento.
O Brasil vai vertiginosamente mal. Soltaram-se os freios morais. A religião está impotente. Arrepio-me, como brasileiro, tomado de pavor, quando penso que estes morros, em vez de descerem com tamborins e pandeiros, possam, um dia, trazer, nas mãos, metralhadoras e punhais.