Ainda vai aparecer gente fazendo buraco na estrada só pra ganhar gorjeta
Os programas jornalísticos da TV estão mostrando com freqüência casos de crianças e desempregados tapando buracos nas estradas em troca de gorjetas de motoristas. Como faço parte da turma dos céticos e pessimistas, estou esperando para breve uma reportagem mostrando uma situação altamente negativa, mas infelizmente provável: os mesmos tapadores criando novos buracos ou aumentando os já existentes para garantir as gorjetas e, por extensão, o pão nosso de cada dia.
Pessimismo meu? Negativismo? Radicalismo? Talvez. Mas tudo que é ruim tem precedente no Brasil. O mais famoso nesta categoria aconteceu no governo de Rodrigues Alves, presidente na Velha República. Como o Rio de Janeiro estava infestado de ratos, o governo passou a "comprar" os bichinhos da população. Conseqüência: muitos pobres passaram a criar ratos e vendê-los para o governo.
Pedro Nava, um médico reumatologista que ao aposentar se tornou o melhor literato brasileiro (opinião minha) da segunda metade do século 20, tratou do tema no livro Baú de Ossos: "...empresário da compra que era o dr. Oswaldo Gonçalves Cruz. Infelizmente a providência, em vez de acabar com a bicharia, industrializou sua criação. Havia especialistas que os tinham em viveiros e que só os vendiam adultos e gordos, porque assim eram mais bem cotados. Duzentão." (Editado pelo Círculo do Livro, 1983, página 330).
Foi um atraso na luta contra as pestes que assolavam a então capital brasileira.
Sempre que o Poder constituído se omite, a sociedade se vê obrigada a resolver o problema. Mas quando a tal resolução parte das camadas incultas, dos excluídos, a ótica distorcida prevalece e cria-se novo problema, que pode até ser pior que o precedente.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 22h57
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Morre no Serra Verde o treinador Geraldo M. Andrade, o “Periquito”
O treinador Geraldo Mateus de Andrade, talvez o mais conhecido profissional do turfe mineiro, morreu em 25 de novembro de 2006, vítima de infarto fulminante, ocorrido dentro do Hipódromo Serra Verde.
Considerado por muitos como o mais representativo treinador de cavalos de corrida de toda a história do turfe mineiro, Periquito, como era chamado, trabalhou lá ininterruptamente desde 1974, quando, aos 16 anos, tornou-se cavalariço.
Foi também redeador e passou para a categoria de treinador ainda jovem, na década de 70. De palavra fácil, sempre teve cocheira cheia e chegou a controlar três pavilhões nos melhores momentos do Serra Verde.
Ganhou várias vezes a estatística de treinadores. Sempre foi mais esperto do que os concorrentes no marketing com os proprietários. Seu escritório – sempre aberto – era limpo, com vários sofás, cafezinho e água ou limonada.
Era um ótimo negociante de cavalos e sempre se preocupou com seu nome. Várias vezes aceitou a devolução de algum cavalo cujo comprador não estava satisfeito.
Por ironia do destino, sofreu o infarto dentro do hipódromo que representou toda a sua vida profissional. Embora o local já estivesse desapropriado pelo Governo do Estado, ainda não havia controle de entrada e saída de pessoas.
Sem poder praticar a única profissão que conhecia, ele comparecia diariamente à sua cocheira, já em ruínas, e lá passou mal. Foi levado para um hospital do distrito de Venda Nova, onde faleceu.
Geraldo Mateus de Andrade tinha 48 anos (nasceu em 14/6/1958). Tinha 11 irmãos, inclusive o jóquei José Mateus de Andrade, o "Alemão", com carreira vitoriosa no Serra Verde e algumas vitórias na Gávea e Tarumã. Periquito era casado com Maria Antonieta Gomes Araújo e deixou a filha Michelle, de um relacionamento anterior.
Categoria: Histórico de turfe
Escrito por Márcio às 18h13
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O planejamento familiar de Dráuzio Varella
Quem lê os artigos do médico Dráuzio Varella? Eu indico. Ele escreve sempre na Folha de São Paulo, aos sábados, caderno Ilustrada.
Em 2004 ele escreveu um contundente artigo sobre o planejamento familiar, tema que me é caro. Sem maiores análises, destaco alguns trechos, começando por um diagnóstico do problema:
"Até a metade do século 20, poucas famílias brasileiras deixavam de ter cinco ou seis filhos. Havia uma lógica razoável por trás de taxas de natalidade tão altas:
- A maioria da população vivia no campo (...) Quantos mais braços disponíveis houvesse na família, maior a probabilidade de sobrevivência.
- Taxas de mortalidade infantil inaceitáveis para os padrões atuais
- Além da cirurgia e dos preservativos de barreira, não existiam recursos médicos para evitar a concepção"
Agora, as conclusões e críticas:
- "Na década de 1960, quando as pílulas anticoncepcionais surgiram no mercado e a migração do campo para a cidade tomou vulto, uma esdrúxula associação de forças se opôs terminante ao planejamento familiar no país: os militares, os comunistas e a igreja católica.
- Os militares no poder eram contrários, por julgarem defender a soberania nacional: num país de dimensões continentais, quanto mais crianças nascessem, mais rapidamente seriam ocupados os espaços disponíveis no Centro-Oeste e na floresta amazônica.
- Os comunistas e a esquerda simpatizante, por defenderem que o aumento populacional acelerado aprofundaria as contradições do capitalismo e encurtaria caminho para a instalação da ditadura do proletariado.
- A igreja, por considerar antinatural – portanto, contra a vontade de Deus – o emprego de métodos contraceptivos.
- Pior, é ver não apenas os religiosos, mas setores da intelectualidade considerarem politicamente incorreta qualquer tentativa de estender às classes mais desfavorecidas o acesso aos métodos de contracepção fartamente disponíveis a quem pode pagar por eles.
- As taxas médias de natalidade brasileiras têm caído gradativamente nos últimos 50 anos, mas não há necessidade de consultar os números do IBGE para constatarmos que a queda foi muito mais acentuada nas classes média e alta.
- A verdade é que, embora a sociedade possa ajudar, nessa área dependemos de políticas públicas, portanto dos políticos, e estes morrem de medo de contrariar a igreja."
Como o conteúdo da Folha é exclusivo para assinantes, quem quiser o artigo completo basta me passar um e-mail.
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 15h54
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O falso engenheiro do Exército
Nos dias imediatos ao desmoronamento das obras da estação Pinheiros do metrô de São Paulo eu estava assistindo ao noticiário televisivo – não me lembro de qual emissora – quando entrou no ar uma entrevista com um engenheiro do Exército. Achei estranho, mas ele falou normalmente sobre o acidente.
Na página C3 do jornal O Estado de São Paulo de 20/01/2007 ele apareceu novamente, só que no noticiário policial. O tal engenheiro, Rogério Beraldo de Almeida, na verdade é designer de interiores. Só queria aparecer na televisão. Deu entrevistas a vários canais. Foi descoberto e preso. Vai responder a processo cuja pena prevista será pagar algumas cestas básicas para alguma comunidade.
Interessante, também, o último parágrafo da notícia: "Segundo o delegado de plantão do 14º DP, Cléber Picirili Filho, ele foi a quarta pessoa presa por fingir ser outra nos arredores do buraco. Já houve jornalista disfarçado de engenheiro, falso bombeiro e até menor de idade vestido com uniforme do Grupo de Operações Especiais (GOE)."
Pelo menos, o crime cometido por ele não teve maiores conseqüências. Pior é quando as pessoas fazem isso para levar vantagem, inclusive vantagens sexi-porno-eróticas, como os casos dos vários falsos ginecologistas que já foram descobertos em hospitais por todo o Brasil. Com dedos e olhos muito ativos e espertos.
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 20h31
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Internet dissemina falsa imagem do acidente da Gol
Duas fotografias estão sendo repassadas de mão em mão, aliás, de e-mail em e-mail, relacionadas ao acidente do avião da Gol na Amazônia. Algumas delas trazem uma história anexa, com fatos e nomes, explicando (ou tentando...) como elas foram feitas e porque teriam se salvado.
O blogueiro Márcio d'Ávila (conheça o site dele clicando aqui) me informou, via e-mail, que na verdade são fotos extraídas da série de televisão Lost, que começa com um desastre aéreo. Veja, abaixo, as duas fotos:


Escrito por Márcio às 23h51
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Brasil fracassa no seu programa espacial
Hoje tive oportunidade de reler uma matéria antiga sobre o programa nuclear brasileiro. Foi publicada n’O Estado de São Paulo de 31 de agosto de 2003.
O assunto estava na moda, pois no dia 22 de julho uma explosão no Centro de Lançamento de Alcântara matou 21 técnicos e engenheiros e destruiu o Veículo Lançador de Satélites (VLS-1), um foguete brasileiro.
Foi a terceira tentativa de lançamento. Na primeira, em 1997, o foguete explodiu com 65 segundos de vôo. Dois anos depois, a segunda tentativa durou um pouco mais: a autodestruição ocorreu 3 minutos e 20 segundos depois. Na terceira o desastre foi total, matando até seus criadores.
Como na atualíssima questão dos controladores do tráfego aéreo, a Aeronáutica brasileira recebeu muitas críticas no episódio. A legislação nacional dá aos militares o controle total dos lançamentos de foguetes. Segundo a matéria, "Parte substancial das pesquisas espaciais, exatamente a que diz respeito ao desenvolvimento de foguetes como o VLS, está concentrada numa instituição militar, o Centro Técnico Aeroespacial (CTA), subordinada ao Comando da Aeronáutica."
E segue a matéria: "Para muitos cientistas, um ambiente militar não é o mais adequado para a realização de pesquisas. Segundo o engenheiro mecânico Jayme Boscov, gerente do projeto do VLS de 82 a 90, um dos problemas é a rotatividade dos pesquisadores militares. 'Eles têm um plano de carreira próprio', diz. 'Às vezes, um oficial está chefiando um grupo de pesquisas e é promovido, sendo substituído por outro. Isso cria descontinuidade de trabalho e de método.'"
A matéria apresenta depoimentos que valorizam as pesquisas aeroespaciais e sua aplicação em atividades não-militares. Não tenho informações suficientes que me permitam opinar sobre o fato de a Aeronáutica ter controle exclusivo sobre tais pesquisas.
Já no caso dos controladores de vôo, não se justifica que eles sejam subordinados ao Comando da Aeronáutica e que haja uma mistura de civis e militares, com diferentes faixas salariais e planos de carreira. Afinal, a esmagadora maioria das aeronaves é civil, pertencem a empresas comerciais e pessoas físicas. É uma atividade majoritariamente ligada à vida civil.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 17h40
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A população carcerária se multiplica por números inteiros
O assim chamado Poder Constituído do Brasil tem a obrigação constitucional de resolver todos os problemas nacionais (na esfera pública, logicamente). Na teoria, deveria ter a velocidade e a eficiência necessárias para resolver cada novo desafio. Na prática, nosso serviço público é lento, tem passos de paquiderme.
Além desta lerdeza genética, estamos num país que consegue piorar em índices impressionantes. Vejam, abaixo, dados relacionados ao alarmante aumento da população carcerária, fornecidos pelo cientista político Paulo Sérgio Pinheiro:
Tomemos, por exemplo, a questão carcerária: a população dobrou no Brasil entre 1993 (de 126.152) e 2005 (361.302), com um déficit de 35% de vagas. No Estado de São Paulo, a população carcerária apenas sob a responsabilidade da Secretaria da Administração Penitenciária aumentou quatro vezes entre dezembro de 1994 (31.842) e fevereiro de 2006 (122.055).
Se até para uma administração privada fica difícil resolver um problema que piora em números alarmantes, mais difícil fica para uma estrutura como a do serviço público brasileiro.
Clique aqui para ver a entrevista completa.
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 19h53
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Opulência e desperdício – o luxo dos bispos da Igreja Renascer
A Sra. Dulce Carrapatoso, em entrevista ao O Estado de São Paulo de 14/01/2006 (acesse aqui a íntegra da matéria), contou fatos impressionantes sobre a Igreja Renascer, cujos proprietários, o apóstolo Estevam Hernandes e a bispa Sônia Hernandes, estão presos nos Estados Unidos por transportar 56 mil dólares escondidos.
Ela é a mãe do piloto Márcio José Borba de Mello, que morreu na noite do Natal de 2005 em um acidente com o helicóptero da Igreja. Disse que era freqüente que seu filho pilotasse à noite, às escondidas, para evitar testemunhas pois transportava geralmente malotes de dinheiro. Ele se escondia das autoridades, não dos ladrões.
O título da matéria é forte: Helicóptero para levar Perrier, cavalos e muito dinheiro vivo
Tomei a liberdade de extrair alguns trechos que me impressionaram:
- Malotes com dinheiro recolhido em doações de fiéis levados durante a madrugada, em filas de carros blindados, até um heliporto. Farras como o uso de um helicóptero para transportar apenas uma caixa de água Perrier para um haras em Atibaia. Envelopes cheios de notas tirados da sede social da Igreja Renascer para comprar cavalos. E bispos que vivem cercados por seguranças equipados, em um aparato difícil de encaixar no cotidiano de líderes religiosos.
- O balaio de denúncias contra os Hernandes já resultou em 116 ações de cobranças de dívidas espalhadas por 13 estados do Brasil, dois processos na Justiça de São Paulo nos quais são acusados de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e estelionato e, agora, um nos Estados Unidos que apura os mesmos crimes. "Meu filho vinha há tempos muito preocupado com o fato de, quase sempre durante a madrugada, ter de levar malotes e os bispos para o haras deles, em Atibaia.
Palavras da entrevistada:
- Ele contou pra mim: ‘mãe, estou sendo coagido a voar de madrugada, pouso num lugar que não tem pista nem heliporto e faço tudo pelo farol do próprio helicóptero, mas tenho filhos para criar’. Ele tinha medo de ser parado pela polícia e acabar respondendo também por aquilo."
- Uma vez, ele recebeu um telefonema do escritório da Renascer, na Rua Apeninos, mandando ele levar uma caixa para o haras em Atibaia. Ele ficou preocupado, porque ia sozinho e não queria ser pego com alguma coisa comprometedora. Abriu a caixa e lá dentro tinha 12 garrafas de água Perrier para levar para a filha dos bispos (Fernanda, de 25 anos).
- Várias vezes meu filho passou na igreja para pegar envelopes e levar até outros haras. Na primeira, ele tocou, viu que era dinheiro e disse ao bispo Lalá (Laerte dos Santos) que para levar precisava saber quanto era, até para não ser acusado depois se faltasse uma parte. Levou um envelope de R$ 800 mil, em dinheiro vivo, outro de R$ 500 mil e mais um de R$ 700 mil - todos para a compra de três cavalos."
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 20h26
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O Brasil místico de Lula e o Brasil racional de José Serra
O sociólogo José de Souza Martins, no artigo "O Brasil místico e o Brasil racional" (O Estado de São Paulo, 07/01/2007, página J-5) fez uma interessante comparação entre os discursos de posse de Lula (presidência da república) e José Serra (governo do estado de São Paulo). Destaco alguns tópicos:
Serra e Lula são personagens de um mesmo cenário histórico. Ambos nasceram em 1945, na conjuntura do fim da Segunda Guerra Mundial e do fim do primeiro governo de Getúlio Vargas, que mudara profundamente a sociedade brasileira e abrira a era de progresso industrial que ambos conheceram. Aos 11 anos de idade, Serra morava no bairro operário da Mooca, de onde podia ver, do outro lado da estrada de ferro e do rio Tamanduateí, a Vila Carioca, o bairro operário em que morava Lula. Serra era filho de imigrantes italianos, oriundos da Calábria pobre, mística e dramática, dos que vieram para São Paulo tentar a vida, na onda da grande imigração italiana. Lula era de uma família de pequenos proprietários de terra, migrantes vindos do sertão de Pernambuco para São Paulo, não como retirantes, que eram as vítimas da seca, mas em busca do pai que abandonara a família.
No discurso do parlatório, Lula explicou que 'chegar onde eu cheguei, saindo de onde eu saí, eu só posso dizer que existe um ser superior que decide os destinos de cada um de nós e, por isso, eu estou aqui'. No discurso do Palácio dos Bandeirantes, Serra se referiu à conjuntura histórica em que nascera, como a de uma época de trabalho e de oportunidades: 'sou fruto das oportunidades que um Brasil dinâmico dava aos filhos dos mais pobres'.
Para Lula, o seu mandato político é expressão da vontade divina, o governante como objeto dos imponderáveis do transcendental. Para Serra, o mandato é expressão das oportunidades democráticas do processo político, da inserção do cidadão como sujeito de vontade política.
Para Lula a democracia é a presença física do trabalhador na arquitetura palaciana. Para Serra, a democracia é a presença política da sociedade no controle da arquitetura do Estado e, portanto, das ações do governante. Lula se considera o povo no poder.
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 16h50
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Tomar conta de carro é trabalho?
Nas sociedades com índice elevado de desemprego, a mão-de-obra sem qualificação usa de todos os recursos para garantir a sobrevivência. Atividades de pouca importância, supérfluas ou mesmo desnecessárias – algumas praticamente fictícias – são criadas para garantir algum dinheiro. Um gasta-tempo disfarçado de trabalho.
No Brasil, a mais típica é a dos tomadores de conta de carro. Quando esta profissão começou a se desenvolver, se baseou em uma chantagem: quem não der dinheiro, terá o carro arranhado. Hoje só os tomadores mais marginais usam este recurso, pois a população já se acostumou a dar algum dinheiro, geralmente um real.
Quem dá o dinheiro, o faz por vários motivos: para evitar roubo do carro; para evitar a vingança do tomador, sob a forma de dano ao veículo; para satisfazer os ideais de caridade cristã; e para dar a sua contribuição social, combatendo o desemprego. Contrata a pessoa para vigiar seu automóvel, protegê-lo dos ladrões, mas não se preocupa com este objetivo. Sabe que, se o ladrão aparecer de verdade, o tomador de conta não vai fazer nada, e que muitas vezes é sócio do próprio ladrão.
Para o tomador de conta que é um desempregado formal, sua atividade se assemelha a um emprego. É uma atividade remunerada de vigia de automóveis. O tomador não se sente um mendigo nem um achacador: é uma espécie de vigilante. Salva-se o seu orgulho.
A distorção está criada. De real em real, o tomador passa a ganhar melhor que no trabalho formal para a mão-de-obra sem qualificação (a expressão mão-de-obra desqualificada tem um tom pejorativo). Mudam-se os valores: ele não tem mais interesse em voltar para o trabalho formal; perde a noção, o conceito do que é um trabalho digno.
Sob este aspecto moral, existem o trabalho regular, os bicos ou pequenos serviços e as formas alternativas de conseguir dinheiro e que não se enquadram nas definições racionais de trabalho. A tomagem de conta de carro está longe de ser um trabalho, mas por distorção tende a ser interpretado como tal.
A distorção cria aspectos negativos nos bastidores da atividade. Sabemos que há disputa e venda de pontos, com agressões e até assassinatos. Há aluguel de pontos, divisão de área de atuação. Convênios com ladrões de carros ou com assaltantes. Sem repressão, como tudo que é irregular, o problema se expande.
Esta questão dos bastidores da tomagem de contas de carros merecia uma pauta da imprensa.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 19h07
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Patrocínio esportivo como tática de venda de drogas
Curiosa a interpretação que o jornalismo da TV Globo deu para a promoção de lutas de boxe da modalidade Vale Tudo em uma favela do Rio de Janeiro: "forma alternativa de conquistar novos consumidores de droga".
Creio que o redator – um editor, na caracterização profissional do jornalismo televisivo – cedeu aos chamados do sensacionalismo para tentar valorizar a matéria. As imagens mostraram apenas o esporte e a afluência do público. Notórios traficantes graúdos foram identificados, mas a simples presença física deles não prova o uso do esporte para a difusão do vício, ainda que tivessem patrocinado o evento.
Não vi a divulgação do fato por outras emissoras, provavelmente porque a Globo deve ter adquirido as imagens para uso exclusivo.
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 20h32
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Caminhonetes, símbolo de status nas cidades grandes
Uma sugestão aos fiéis leitores do Blog do Márcio: comecem a observar as caminhonetes usadas em Belo Horizonte. Há 10 ou 20 anos atrás era um mercado quase exclusivo das D-10 da Chevrolet e das F-1000 da Ford; hoje são incontáveis os modelos dos mesmos fabricantes e de novos concorrentes.
Qual é a observação que estou sugerindo? É sobre a utilização do veículo. Vão descobrir que a maioria é utilizada como automóvel comum, não como transporte de material e equipamento. Uma dica: geralmente estão sempre limpas e enceradas, pois raramente circulam pelas estradas rurais.
Elas viraram símbolo de status. Chuto dois motivos para isto: tamanho do veículo e associação do fazendeiro com a riqueza. Quanto maior, mais atenção é chamada para alguma coisa; quem deseja status deseja aparecer, chamar a atenção. E o fazendeiro continua como símbolo de quem tem posses, terra, poder, empregados.
Estou falando em símbolos sociais, não em casos particulares. Espero não estar ofendendo algum amigo, sendo mal interpretado.
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 21h16
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O autor e seus objetivos
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Este
blog divide meus textos em 4 partes:
Turfe
- Vivi intensamente as corridas de cavalos do Hipódromo
Serra Verde, de 1970 até meados de 2004. Crônicas, análises,
história e lembranças foram registradas no computador e
muitas delas aqui estão ou serão publicadas neste blog e
também no site do
Jockey.
Para o blog ficam reservados textos mais curtos, mais leves,
para não cansar o leitor.
Crônicas e análises
- Assunto: qualquer um.
Dia-a-dia
- Comentários, notas, fotos interessantes.
Árvore
genealógica - Quando
me interessei pelas minhas raízes, descobri que poucos conhecem
suas origens familiares, seus ascendentes. Neste espaço
deixo um resumo de minha árvore genealógica e também um
pedido para quem tiver uma informação nova a respeito, que
mande um e-mail para marcio.avila@uol.com.br.
Márcio
de Ávila Rodrigues é médico-veterinário e jornalista. Reside
em Belo Horizonte-MG, Brasil, onde nasceu na década de 50.
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Outros
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