A violência que se acerca, encosta
Dias atrás, um jovem filho de um amigão de meu cunhado estava num sítio em Contagem, numa festa, quando uma bala disparada por um policial que fazia um serviço extra como segurança acertou seu abdome. Morreu no hospital. Segundo o noticiário, o policial se assustou com um tumulto provocado por uma briga entre participantes da festa e atirou para dispersar os brigões.
Quarta-feira, dia 10 de maio. Sento na cadeira do cabeleireiro Cácio (foi registrado assim mesmo no cartório) que abre logo a boca, ansioso para contar a última. O carro dele, um Gol 2005, foi roubado na véspera. Estava almoçando na casa da mãe, no Bairro Aparecida, e a boa digestão ficou para outra oportunidade. Contei pra ele que eu era um felizardo: apenas uma vez tive carro roubado. E fiquei a matutar. No chamado Primeiro Mundo, quando alguém diz que já foi vítima de roubo de carro, a surpresa é geral. Aqui, a surpresa é quando alguém foi vítima de apenas um roubo.
Eu, na verdade, já tive dois carros roubados. Mas o segundo foi durante um seqüestro-relâmpago. O carro não era o alvo principal dos bandidos (era eu!). Duas horas depois foi abandonado na rua. Então, não vale nesta contabilidade.
Por falar em Gol (o da Volkswagen), também na semana passada foi-se um do meu amigo Bené, ano 1996. O filho dele, confiante, tinha uma tranca de ferro, mas a deixou no chão, aberta.
Na semana passada alguém entrou pelo telhado na garagem da casa ao lado da minha, que funciona como pequenino comércio. Limparam a microlojinha. Uma semana o tal do Alguém voltou, mas o dono já estava guardando o estoque em outro local. A solução foi colocar uma cerca elétrica, tipo aquelas usadas na guerra, nas trincheiras.
No meio do corte dos meus poucos cabelos chega o Alex, conhecido lavador de carro e bombeiro (trabalha com bomba de gasolina, no posto da Praça Duque de Caxias). A cara estava meio amassada, vermelha, algumas escoriações. Contou que atropelou um bêbado na Rua Hermilo Alves, ainda em Santa Tereza. Garantiu que o bêbado tentou se suicidar e pulou em frente à moto dele. Pode ser verdade, mas também é fato que ele precisa de uma boa defesa, pois não tem carteira de motociclista.
O caso do motoqueiro sem habilitação não tem muito a ver com os outros, mas a sucessão de problemas relacionados com a violência me assustou. Ela está nos rodeando, nos rondando, se acercando de todos. Criando neuroses, medos, preocupação constante. Um fantasma que a cada dia chega mais perto, aproxima, encosta. E depois agarra.
É assustador. Preocupante.
Escrito por Márcio às 18h26
[
] [
envie
esta mensagem ]
|
Evo Morales, Lula e a pseudo ascensão do pobre
As eleições de Evo Morales na Bolívia e Lula no Brasil me fazem lembrar da eleição do Seu João, o João Pitimba, para a presidência do Jockey Club de Minas Gerais em 1988. Ele era um homem rico, mas de origem simples. Vivia nas cocheiras, ao lado dos profissionais, embora sempre às turras com vários deles. Já era rico, mas os chamados profissionais de turfe – jóqueis, treinadores, cavalariços, redeadores, ferradores e outros representantes das classes humildes empenhadas no trato diário dos cavalos – viam nele o companheiro, aquele que está próximo, que os entende. Fizeram até um abaixo-assinado, em que a maioria absoluta dos profissionais pedia a eleição dele para a presidência do clube. Apostaram nele, como aconteceu na votação de Morales e Lula.
O primeiro ato de Seu João após a eleição foi fazer um churrasco para o qual convidou até o líder da oposição, mas colocou segurança na porta do pavilhão de cocheiras, impedindo a entrada de profissionais de turfe. Posteriormente obrigou os profissionais que residiam no hipódromo a se mudarem.
Como Lula, apesar da origem, ele administrou para si, para o seu grupo e para as classes dominantes, renegando as promessas em contrário. Lula ainda deixou as migalhas para os pobres – através do bolsa-família e programas assemelhados – mas Seu João, além do pontapé no traseiro dos profissionais, chutou também o dos funcionários ao parar as corridas e quase quebrar o clube de vez.
Evo Morales tem em comum a origem. Começou o governo agora e ainda não se pode dizer que abandonou seu eleitorado. Mas tem outra semelhança complicada. Seu João tinha envolvimento com a prostituição – escrever cafetinagem seria menos duro? – e agiotagem, atividades não reconhecidas pela lei. Evo Morales é um líder cocaleiro, toda a sua vida é relacionada com a produção da folha da coca, internacionalmente condenada.
Seu João quebrou o Jockey Club. Qual será o futuro da Bolívia hostilizando os investidores internacionais, inclusive a Petrobras, dona de uma tecnologia de exploração energética que aquele país nunca teve e jamais demonstrar capacidade de obter?
Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 12h47
[
] [
envie
esta mensagem ]
|
Uma casa meio dark, meio gótica

Poucas pessoas têm coragem de construir uma casa totalmente estranha, fora dos padrões. Inclusive porque, na hora de vender, fica mais difícil. Um destes corajosos é o dono desta atípica residência situada no Bairro União, na pequena Rua Honorino de Ulhoa Costa, cheia de pedras, inscrições religiosas, esculturas. No passeio, alguns pneus de cimento. No andar de cima, em alto relevo está escrito "Eu amo meu Brasil". Abaixo, a frase "Nada se pode fazer sem o auxílio de Deus".
Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 12h42
[
] [
envie
esta mensagem ]
|
João Plá, o Pasteur caipira
Uma história marcante, curiosa, que aconteceu nos primeiros anos de funcionamento do Hipódromo Serra Verde, reuniu como ingredientes o enfermeiro-veterinário João Nunes, o cavalo Beau Geste (nascido em Pedro Leopoldo, a uns 25 quilômetros do Jockey) e a doença da moda de então, a Anemia Infecciosa Eqüina (AIE).
João Nunes tentou a carreira de treinador ainda nos primeiros anos do Serra Verde, mas não conseguiu deslanchar. Era mais conhecido pelo apelido de "João Plá" por ser muito falante e expansivo. "Plá" era uma gíria da época para "conversa".
Ainda no final do ano da inauguração (1970), uma epizootia de AIE dizimou grande parte dos cavalos da vila hípica do Serra Verde. Nos anos seguintes continuou atingindo casos isolados. O clube contratou um veterinário da Polícia Militar, o capitão José Geraldo Cascardo, e o João Plá arrumou uma vaga de enfermeiro-veterinário.
O capitão Cascardo era um prestador de serviços, não ia todo dia ao hipódromo. Para suprir suas ausências, treinou o João Plá para os serviços de enfermagem. Até necropsia ele aprendeu a fazer, de tantas que ajudou. Assisti a uma necropsia feita por ele, sozinho, no cavalo Felipe, no dia 22 de fevereiro de 1973. Era um potro de três anos, ganhador de uma corrida em três atuações no Serra Verde, que chegou a pontear um clássico de potrinhos no Rio de Janeiro, no ano anterior. Segundo o seu treinador Sérgio Pereira Gomes, ele havia recebido uma semana antes uma massagem no joelho com um produto muito cáustico, à base de óleo de cróton, para tratamento de uma manqueira, mas soltou-se do cabresto e lambeu o produto. O nosso patologista-prático diagnosticou lesões no estômago e intestino causadas pelas lambidas e decretou que esta foi a causa-mortis. Eu era muito jovem e acreditei na história durante anos mas depois, com a maturidade e experiência, achei-a muito estranha. Aliás, qual a utilidade de uma necropsia feita por um leigo de baixa escolaridade, apenas orientado com informações práticas de caráter técnico? Mas não discuto a utilidade do João Plá na enfermagem, inclusive porque a deficiência na anti-sepsia das injeções foi a principal causa da disseminação da AIE no hipódromo.
O trabalho preventivo do capitão-veterinário estava mantendo o Serra Verde sob razoável controle quando, em torno de 1975, o turfe mineiro foi surpreendido com a notícia de que o Beau Geste foi correr no Rio mas, antes da prova, foi diagnosticado como positivo para Anemia Infecciosa Eqüina e posteriormente sacrificado. A surpresa aumentou quando o João Plá pediu demissão e enviou à diretoria uma carta assumindo a responsabilidade por esconder de todos – inclusive do capitão Cascardo – a doença de Beau Geste.
Depois o "Plá" me contou que descobriu a doença meses antes, mas escondeu o resultado, pois viu aí a chance de ficar famoso, de tirar a sorte grande. Afinal, a AIE era a doença da moda em eqüideocultura. Quem descobrisse a cura ficaria famoso. Talvez até rico.
João Plá começou a se sentir um novo Pasteur. E mãos à obra! Começou a fazer experiências. Com entrada franca na cocheira, passou a utilizar o arsenal que tinha à mão para tentar a cura e alcançar o sucesso. Arsenal pequeno, pois o almoxarifado do clube era ainda menor que o seu cabedal de conhecimentos científicos, farmacológicos ou químicos. Me lembro dele contando que misturava o sangue do cavalo-cobaia com água destilada e derivados de mandioca para "experiências".
Um resquício de ética ainda apareceu nas maluquices do candidato a Doutor Frankenstein. Como ninguém desconfiava da doença, o cavalo treinava normalmente. Voltava da raia e o cioso João Plá estava lá, ao lado, se oferecendo para ajudar. Limpava os arreios, passava álcool na embocadura, pois este material depois iria parar na boca de outros cavalos. Preocupava-se em garantir que sua experiência não causasse outros prejuízos. Na cocheira, o treinador ainda agradecia aquela prestimosa e gratuita colaboração.
Na época a AIE era freqüente, o Ministério da Agricultura não acompanhava o desenrolar de cada caso. Para testar seus estranhos experimentos, o João várias vezes enviou o sangue do Beau Geste para o laboratório, com o cuidado de colocar no rótulo o nome de algum cavalo já comprovadamente infectado. E gravava o nome de Beau Geste no material coletado em um cavalo são, o que garantia tempo e liberdade para as suas experiências, que imaginava científicas. Um dia, o exame dele deu negativo. E este foi o único ponto de orgulho e satisfação que ele guardou de sua experiência pseudo-científica. "Não descobri a cura, mas pelo menos descobri um jeito de disfarçar o resultado", me garantiu ele. Acho que esqueceram de dizer-lhe que laboratório também erra.
Passado algum tempo desta situação absurda, o Dr. Alberto Hissa, dono do Haras Alibra e do próprio Beau Geste, resolveu levar a sua cria para correr na Gávea. O João Plá depressa arrumou o sangue de um cavalo saudável e entregou o exame para o treinador, com o nome do Beau Geste no documento. Mas desta vez deu errado. No Rio de Janeiro alguém mandou repetir o exame. O resultado foi positivo, o cavalo sofreu sua sentença de morte e execução, mas o João Plá teve a hombridade de assumir o erro e isentar o capitão Cascardo.
João Nunes desapareceu dos bastidores do turfe mineiro, mas nas décadas seguintes sempre chegava alguma notícia dele, quando encontrava algum profissional nos bares e ruas dos bairros de Venda Nova, São Benedito e adjacências. O sonho da fama e riqueza foi só sonho.
Categoria: Histórico de turfe
Escrito por Márcio às 19h58
[
] [
envie
esta mensagem ]
|
|

|
|
|
O autor e seus objetivos
|
Este
blog divide meus textos em 4 partes:
Turfe
- Vivi intensamente as corridas de cavalos do Hipódromo
Serra Verde, de 1970 até meados de 2004. Crônicas, análises,
história e lembranças foram registradas no computador e
muitas delas aqui estão ou serão publicadas neste blog e
também no site do
Jockey.
Para o blog ficam reservados textos mais curtos, mais leves,
para não cansar o leitor.
Crônicas e análises
- Assunto: qualquer um.
Dia-a-dia
- Comentários, notas, fotos interessantes.
Árvore
genealógica - Quando
me interessei pelas minhas raízes, descobri que poucos conhecem
suas origens familiares, seus ascendentes. Neste espaço
deixo um resumo de minha árvore genealógica e também um
pedido para quem tiver uma informação nova a respeito, que
mande um e-mail para marcio.avila@uol.com.br.
Márcio
de Ávila Rodrigues é médico-veterinário e jornalista. Reside
em Belo Horizonte-MG, Brasil, onde nasceu na década de 50.
|
Outros
sites
Jockey Club MG - nova página
Tiago - Meu webmaster favorito
Uma superpágina de informática
Blog do Márcio d'Ávila - o assunto é informática
Geneaminas - O site com a árvore genealógica de minha família e de outras
Blog do Paulo Afonso
Blog só de Turfe - Roberto Fonseca
Blog jornalístico do Cefas Alves Meira
UOL - O melhor conteúdo

|
Contador
de acessos:
|