Márcio de Ávila Rodrigues


“No cemitério tem mais valentes do que covardes”

Dias atrás (meados de abril de 2006) mais um caso de violência assustou a população belo-horizontina: a morte a tiros de um estudante de educação física por um desconhecido. A primeira conclusão da polícia e da população foi pensar que se tratava de latrocínio. Afinal, a tendência das pessoas, ao se depararem com um acontecimento repentino e ainda não possuem informações suficientes a respeito, é relacionarem o caso com os mais comuns. E Belo Horizonte já passou por vários casos de pessoas da classe média serem agredidas ou assassinadas por ladrões nas portas de bares bem localizados.

Mas o avanço da tecnologia trouxe novidades. Tudo foi filmado por câmeras de segurança, embora com qualidade de imagem que ainda deixa a desejar. O assassino foi identificado e apreendido: tinha 17 anos. A nova conclusão da polícia, somadas as imagens e testemunhos, foi a de que o estudante de educação física, bem mais forte que o menor, o agrediu e este, sem condição física para reagir, foi até sua casa (em uma favela) onde pegou uma arma e retornou para matar o agressor.

O assassino alegou que o estudante mexeu com a sua namorada e como ele reagiu, se aproveitou da superioridade física e o agrediu. Até onde é verdade só o delegado, e posteriormente o juiz, poderão avaliar e usar no julgamento, a favor ou contra, pois só eles vão ter contato com todas as provas, indícios e testemunhos. E vão ter oportunidade de conversar, cara a cara, com os envolvidos, o que é muito útil para quem tem a experiência deste trabalho.

Este caso me fez lembrar uma frase que li anos atrás: "no cemitério tem mais valentes do que covardes". Quando um homem fisicamente mais forte humilha o mais fraco, a este só restam duas saídas: resigna-se ou mata o mais forte, sem dar a ele chance de repetir a violência. Claro que existe uma terceira saída, que é a de usar os direitos de cidadania através da polícia ou justiça, mas estou me atendo aos casos mais bestiais, aos duelos.

Impressiona a quantidade de pessoas – muitas de nível universitário – que transformam a agressividade em prazer. Espancamento proporcionado por praticantes de artes marciais e educação física é coisa freqüente nas grandes cidades. Psicanálise pura. Psicólogos terão muitos argumentos à disposição: imaturidade, conflitos mal resolvidos na infância, necessidade de auto-afirmação e outros correlatos. Normal, certamente isto não é. Esta turma já ganhou o apelido de pitboys, uma comparação com a assustadora raça canina que ontem também figurou no noticiário, pois dois pitbulls mataram a própria dona.

Para haver uma conseqüência extrema, é necessário que o vingador também tenha algumas características que os psicólogos consideram "anormais", como imaturidade, um medo infantil de ficar desmoralizado, uma superestimação da humilhação. No noticiário jornalístico internacional já li ene casos de rapazes norte-americanos que eram humilhados por colegas e algum dia apareceram na escola e descarregaram as armas em colegas e professores. Eram chamados de feios, ou gordos, ou imigrantes ou apenas apanhavam por não serem membros de um grupo fixo, uma galera.

Esta é uma associação livre entre o concretíssimo caso do Bar Paracone e o freqüente duelo entre o valente-humilhador e o covarde-vingador, pois não sou eu quem tem as provas e informações básicas. Se o falecido não fez exatamente o que o assassino alega, que a família dele me desculpe por discutir o caso neste texto. É uma associação livre com um problema social que assusta.



Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 19h50
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Sobre o aumento da violência social

No Império Romano, dois milênios lá atrás, aconteceram uns momentos de violência relacionada com o banditismo, com o crime comum. Grupos de assaltantes percorriam as fazendas e atacavam os camponeses. Mas nos momentos de maior poder e força, os imperadores conseguiram controlar este problema através de medidas enérgicas.

Me lembrei desta história hoje (21/04/2006), ao assistir num telejornal da Globo uma reportagem sobre o aumento da violência no campo. Não a violência do MST, mas a do chamado "crime comum", os assaltos a fazendas. O repórter citou uma fazenda que já havia sofrido quatro deles.

Nos anos 60 Nova York, para muitos a capital do mundo, estava decadente. Suja e com criminalidade alta. Os prefeitos – que lá comandam uma polícia militar armada – aumentaram a dureza e um dos últimos deles, Rudolph Giuliani, ficou famoso com a aplicação da tolerância zero, que é a aplicação de penas até em caso de irregularidades que no Brasil ninguém liga. E Nova York ficou muito mais tranqüila.

Infelizmente, a tradição cultural brasileira é de tolerância larga. O povo reclama muito, mas fica sensibilizado quando a polícia exagera. Os políticos ficam com medo da repercussão negativa dos abusos policiais e não incentivam as medidas mais duras. As polícias são compostas por funcionários públicos. Só se mexem se a isso são obrigadas. E o problema se agrava.

É de se preocupar.



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 18h57
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Márcio de Ávila Rodrigues é médico-veterinário e jornalista. Reside em Belo Horizonte-MG, Brasil, onde nasceu na década de 50.




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