UMA FAUNA DE SUBEMPREGADOS
A enorme obra da Linha Verde em Belo Horizonte vai acabar com um dos mais pitorescos e interessantes locais de reunião diária de uma fauna humana que luta pela sobrevivência diária, pelo pão-sem-manteiga do dia-a-dia. São os funcionários do sinal de trânsito da Avenida José Cândido da Silveira, no encontro com a Avenida Cristiano Machado. Ali comparecem, diariamente, 10, 20 pessoas de todas as idades, como o mesmo objetivo: aproveitar o sinal vermelho para procurar os motoristas e oferecer serviços, fazer propaganda, pedir dinheiro. Em comum, a falta de emprego formal e a busca de pequena retribuição financeira, seja de um patrão, seja das sobras do orçamento de uma classe melhor aquinhoada, a dos donos de automóveis. O funcionário mais tradicional do ponto é um deficiente físico, paraplégico. Magro, uns 30 anos, se movimenta manuseando as rodas da cadeira. É o único que atrapalha o trânsito, pois está sempre ao lado de algum carro quando o sinal fica verde, obrigando os de trás a passar devagar e com cuidado. Sempre se dirige ao motorista com a mão estendida e a boca retorcida, balbuciando as palavras, mas algum tempo atrás já o vi conversando de forma diferente, natural. (Alguém se habilita a uma investigação?) Outro que ficou tradicional é um vendedor ambulante especializado em limpadores de pára-brisas e capas para celulares. Carrega sempre uma grade leve - parecida com aquelas para secar roupas em apartamentos - para expor seus produtos. É fixo no ponto e bem conhecido pelos motoristas que passam diariamente por lá. No grupo dos vendedores a maioria aparece e desaparece, provavelmente trocando de ponto periodicamente. Com mais tempo de "casa" estão um vendedor de paninhos de cozinha e um de artesanato (casinhas de joão-de-barro). Outro grupo móvel é o dos entregadores de papéis de propaganda, geralmente adolescentes. Naquele ponto nunca faltou o grupo da prancheta, geralmente mulheres jovens ou de meia idade, sempre com um papel que traz um cabeçalho com o nome de alguma entidade assistencial e uma folha cheia de nomes que elas juram ser colaboradores. Outras vezes a lista é uma relação de artigos de urgente necessidade do dono da prancheta. Três ou quatro das moças sempre apareciam com roupas brancas de umbanda. Tem também os representantes da turma dos limpadores de pára-brisas, essa moda que volta de 10 em 10 anos. Ao contrário da assustadora turma cara-de-marginal da Praça Raul Soares, o grupo da avenida Zé Cândido é composto por crianças na faixa de 10 anos, estrategicamente vigiadas pelos seus pais, responsáveis e outros agentes. O detalhe mais interessante: sempre chegam ao carro por trás, começando a limpeza pelo vidro traseiro. O motorista fica sem tempo de recusar. Uma coreografia bem treinada. O fluxo desta turma é o mesmo do rush. Aumenta sempre de manhã cedo e depois do almoço, para pegar quem está indo pro trabalho ou escola. Nos outros horários, quase todos desaparecem. Hora extra não é com eles! A Linha Verde vai acabar com este semáforo e espalhar esta turma que, empurrada pelo desemprego da mão-de-obra não especializada, a cada dia aumenta mais.


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