Aconteceu em restaurante da Zona Sul de BH: golpe ao consumidor

Em matéria de golpe, de vigarice, a criatividade do brasileiro às vezes parece inesgotável. Em dezembro de 2005 eu e alguns colegas de trabalho fomos apresentados a mais um deles, inédito e surpreendente.

O grupo – seis pessoas – resolveu aproveitar o clima típico de fim de ano e se reunir em um restaurante para beber, conversar, comer algo. Foi escolhido um pequeno restaurante no bairro de Cidade Jardim, dentro de um também pequeno prédio. Única pista para os curiosos: era dentro de um prédio público. Bebemos vinho e água mineral, comemos tira-gosto e depois jantamos.

Pedida a conta, ela chegou polpuda e cheia de itens. Mas a divisão por seis partes iguais não seria justa, pois alguns chegaram cedo, outros tarde; alguns comeram mais, outros menos; uns optaram pelo mais caro, outros foram mais econômicos. A opção foi vasculhar a conta e desmembrar, de acordo com o consumo de cada. Como os matemáticos do grupo ainda não estavam embriagados, a divisão foi feita e a parte de cada um foi estimada.

Mas a divisão feita pelos fregueses não interessa ao dono do restaurante, e por isso as partes de cada foram somadas. Só que a salgada conta era de R$ 390,00 (e alguns quebrados) e a soma das parciais só chegou a R$ 330,00. Refeitos os cálculos, verificamos que os 10% de alguns itens foram esquecidos, outros gastos menores também. A nova soma chegou a R$ 360,00, mas dali não passava mais. A jovem, educada e moderna garçonete tentou ajudar com a calculadora do celular: os números saltavam rapidamente daquela tela pequena e brilhante sem esclarecer nada.

Apareceu outra funcionária, vindo diretamente da caixa com uma calculadora maior. Folheava os pequenos papéis e digitava sem parar, aumentando a confusão. Por fim, ela levou a conta embora e retornou com outra, 30 e tantos reais a menos. Aí ficou claro que a primeira conta era um golpe. As duas estavam impressas, portanto feitas por uma máquina. Todos os itens estavam impressos da mesma forma, mas os dois totais eram diferentes. Máquina não se esquece de uma parcela na hora que recebe o comando para imprimir o total.

Só no dia seguinte consegui elucidar a mecânica do golpe. Concluí que a caixa registra todos os valores dos produtos consumidos usando uma calculadora antiga de fita, mas não aciona a tecla de soma. Com outra calculadora qualquer faz a mesma conta, acrescenta os 10% de gorjeta e mais o dinheiro do golpe, talvez outros 10%, como foi o nosso caso. A seguir, registra este valor na calculadora antiga com a tecla de "mais", como se fosse uma parcela, e retira a fita, sem dar o comando para o total. Como este será o último valor impresso pela máquina, o freguês acha que ele é o valor total da conta. E geralmente paga.

O golpista confunde a vítima ao usar uma máquina antiga, quase aposentada. O cliente já se desacostumou com ela e não percebe que o valor final não é a soma, não é o total. Um truque de psicologia também comparece: afinal, o papel foi impresso por uma máquina, portanto está correto. Será este o raciocínio do cliente, consciente ou subconsciente.

No caso deste golpe, o uso da psicologia não pára por aí. Os itens são todos lançados corretamente na conta, em valor e quantidade. O cliente confere alguns e fica satisfeito por não encontrar um centavo de erro. E perde o interesse de refazer a soma, pois não espera um erro da máquina.

Penso que o golpe é direcionado. De preferência, escolhem grupos de no mínimo cinco pessoas que tenham consumido bebida alcoólica. No nosso caso, o golpe fracassou porque a conta foi dividida pelo consumo pessoal e também por que o álcool ainda não tinha embotado o cérebro.

Talvez tenhamos sido os primeiros a devolver a conta. As duas tentativas atrapalhadas de nos ajudar a refazer o cálculo e a estupefação presente nos rostos me fez pensar que sequer estavam preparados para a descoberta.