Márcio de Ávila Rodrigues


 
 

A contratação de médicos cubanos não é novidade no Brasil: um deles é até prefeito

Em maio de 2013 o governo brasileiro soltou um balão de ensaio: anunciou que pretendia contratar médicos cubanos para trabalhar em cidades pobres e afastadas.

Conselhos de medicina espernearam; sem fatos novos, o assunto se esvaiu semanas depois.

Uma questão ambígua, complexa: até médicos recém-formados recusam vagas em tais locais.

Mesmo quando a remuneração compensa, faltam hospitais, equipamentos, medicamentos.

Mas a proposta de 2013 está longe de ser inédita: em 1997 chegou uma leva de médicos cubanos, e um deles é o atual prefeito da cidade onde trabalhava.

Informa a Folha de São Paulo, edição de 26/05/2013:

Nascido e formado em Cuba, Josué Jesús Matos, 46, chegou ao Brasil em 1997, num dos primeiros grupos de médicos cubanos que trabalharam no país. Matos atuou no interior de Roraima, se casou e voltou a Cuba com a mulher brasileira. Depois de pouco tempo na ilha, retornou ao Brasil e foi eleito prefeito de Mucajaí (a 60 km de Boa Vista).

Entrevistado, ele conta que:

Mandávamos metade do salário para Cuba, pois nossa formação acadêmica não nos custou nada e ainda contribuíamos para outros se formarem. Ficávamos com R$ 1.500 - éramos ricos.

Em 2001 se casou com uma brasileira e retornou para Cuba, mas não foi bem recebido na terra natal:

Mas a situação econômica de meu país era muito difícil e o governo não aceitou que ela ficasse. Leila tinha que entrar e sair da ilha de dois em dois meses.

Decidi retornar ao Brasil quando vi que, após quatro anos trabalhando em Cuba, não era bem tratado e não aceitavam a mulher que esperava um filho meu. Pedi permissão e virei brasileiro.

Meteu-se na política do município de Mucajaí, sofreu retaliações (demissão) mas ganhou a última eleição, tornando-se, segundo afirma “o primeiro cubano prefeito no país”, eleito com 4.698 votos em 2012.

Mas já está assustado com a vida pública:

Ser prefeito é uma bomba. Tive problemas financeiros na prefeitura e enfrento protestos por salários atrasados.

Para acesso ao inteiro teor da matéria, cliqueaqui.



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 21h50
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A Rose, da família Jetson, seria a empregada doméstica ideal para as famílias modernas

A minha geração se encantou, nos anos 1960/70, com os desenhos animados criados pela eficiente dupla de desenhistas-empresários William Hanna (1910-2001) e Joseph Barbera (1911-2006).

Entre suas incontáveis criações estavam duas famílias distanciadas, por milênios, dos tempos atuais: no passado (Flintstone) e no futuro (Jetson).

Os Flintstones viviam na Idade da Pedra: o pai Fred, a mãe Vilma e a filha Pedrita. Como coadjuvantes, havia a família de vizinhos-amigos: o pai Barney, a mãe Beth e o filho Bambam – o menino-malhação.

Segundo o padrão comportamental-familiar que a geração hippie tentou mudar nos anos 60 (mas apenas atenuou), cabia a Vilma e Beth as tarefas domésticas.

Já a família Jetson vive no ano 3000, mora em um prédio que parece uma nave espacial no alto de uma coluna metálica, tem um carro voador e é composta por um casal, uma filha adolescente, um filho-menino, um cachorro e uma empregada-robô, a Rose.

Rose é o sonho de consumo das famílias do nosso jovem século 21: uma empregada eficiente (seus sensores detectam qualquer poeirinha oculta e seu software, além de controlar todas as atividades domésticas ainda produz pratos apetitosos na cozinha) ...

... e barata: só come velhos parafusos, dispensa salário e obrigações trabalhistas e mora na casa da família sem incomodar jamais. E não ronca à noite.

Além de tudo isso, é discreta, até por não ter vida social própria: frio produto de alguma linha industrial, Rose não carrega influências de familiares, não tem amigos, não traz vestígios de traumas pregressos.

Até meados do século 20, o padrão da família brasileira era um casal que se unia na juventude (e, por isso mesmo, costumava comemorar outras bodas além da cinquentenária “de ouro”), muitos filhos e uma empregada que podia ser babá, ama-seca e governanta.

Esta geralmente era uma menina pobre, recrutada na cidade de origem da família, e passava a fazer parte dela; as que se casavam eram substituídas por outras de perfil semelhante.

Era um formato pós-escravocrata, não se pode negar, mas com aspectos positivos: a empregada tinha uma garantia – que frequentemente perdurava por toda a vida – de moradia e alimentação bem melhores do que nas humildes vilas do interior brasileiro.

E quando tinha filhos, muitas vezes eles recebiam proteção, um relativo tutoramento dos patrões, que lhes davam acesso ao estudo e a possibilidade de uma ascensão social improvável em ambientes pobres e incultos.

E os patrões conviviam com uma pessoa que, mesmo sem laços familiares, inspirava confiança e fazia indispensáveis trabalhos domésticos.

O padrão mudou; aliás, todos os padrões mudaram, pois nenhum outro momento da história da civilização humana experimentou tantas e tão rápidas mudanças, não só as tecnológicas quanto as comportamentais.

A população cresceu rápido demais, impulsionada, entre outros fatores, pela redução da mortalidade infantil e pelo avanço das técnicas médicas de redução da infertilidade.

Mas os núcleos familiares se apequenaram e as moradias também, sobrando pouco espaço para as empregadas, ainda necessárias.

E a antiga agregada-recrutada, que dividia com os patrões-padrinhos as mesmas lembranças do rincão de origem, foi substituída por mulheres sem vínculos, e agora a relação é de fingida tolerância, de vigia constante (até com câmeras), fechando os olhos aos inevitáveis roubos (“É o preço que se paga!”); e também de um medo constante de relacionamentos perigosos, além da preocupação com a Justiça do Trabalho.

E o novo formato, baseado em frias relações de trabalho – contratador versus contratado – sofreu um brusco golpe em 2013 com a aprovação da legislação que mexeu profundamente no registro trabalhista da categoria (o que inclui cozinheiro, governanta, babá, lavadeira, faxineiro, vigia, motorista particular, jardineiro, acompanhante de idosos).

Criou muitos direitos, praticamente fazendo uma equiparação com as demais profissões.

O aumento dos custos tende a acelerar as mudanças: para a limpeza das casas o formato que cresce é a contratação de diaristas, profissionais autônomas que, uma ou duas vezes por semana, fazem o seu trabalho e vão embora.

Mais adiante, a perspectiva é que as pessoas acompanhem o conhecido comportamento japonês de não sujar para não precisar limpar depois.

Já as babás, as antigas amas-secas, devem ser substituídas por empresas – berçários, creches e escolinhas precoces –, situação abominável para as antigas mães de família.

Mas o velho modelo não tem volta, a nova legislação foi a pá de cal e agora só resta esperar um sinal de luz da Tecnologia – com “T” maiúsculo sim, pois a progressiva dependência do ser humano atual com a ciência é tão grande que tende a parecer um certo misticismo.

E a população conta com a Tecnologia para executar, no futuro, todo o trabalho que já coube, integralmente, à empregada doméstica.

Sonha com um formato que resolva todos os problemas da moradia, sejam de ordem prática, social ou legal.

De preferência, ocupado por alguém bem semelhante à autômata Rose Jetson.

(publicado originalmente em novembro de 2011, agora editado, revisado e atualizado com as mudanças da legislação)

 



Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 09h32
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Taxi Driver, um filme que quase matou um presidente dos Estados Unidos

Um dos filmes de mais impacto no meu passado cinéfilo foi o Taxi Driver, de 1976.

Tinha ótimo enredo, personagens densos, e o diretor Martin Scorsese acertou no andamento.

Cinco anos depois Taxi Driver alcançou as manchetes de jornal e também o horário nobre da tevê por um motivo inesperado: influenciou o piradão John Hinckley, Jr., que tentou matar o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, só para chamar a atenção de Jodie Foster, atriz do filme (ela só tinha 13 anos durante as filmagens).

Depois de assistir ao filme umas 15 vezes, ele ficou obcecado e resolveu imitar o personagem principal (interpretado por Robert De Niro) que, na tela, tentou matar um fictício candidato a presidente.

Mas a cena do filme que ficou mais bem gravada na minha memória foi a do cinema pornô: a obsessão do taxista era outra mulher, a personagem Betsy, interpretada pela atriz Cybill Shepherd.

Com muita insistência, o fictício taxista Travis Bickle conseguiu se aproximar e a convidou para ir ao cinema...

...mas só no local ela percebeu que era o filme era pornográfico, e que seu admirador era tão inculto que não tinha a percepção do absurdo da situação.

A cena virou meu paradigma para exemplificar a dificuldade de relacionamento entre um homem e uma mulher cultural e psicologicamente incompatíveis, pertencentes a mundos diferentes.

Só agora revi Taxi Driver: o filme é bom mesmo, mas o final razoavelmente feliz não me convenceu, pois não existe happy end num contexto como aquele.

Provavelmente foi uma exigência dos financiadores/produtores.

Será que esta foi a causa da derrota para Rocky, um lutador – o mais fraco dos ganhadores da época – no Oscar de 1977?

Observei também que o filme pornográfico que o taxista levou a militante política para assistir tinha um formato comum na época: sexo explícito acompanhado de explicações científicas sobre reprodução. Um disfarce ridículo para abrandar a censura de governos e de grupos conservadores, muito usado também no Brasil.

Merece destaque ainda que, no enredo, a tentativa de assassinato do senador e pré-candidato a presidente não tinha finalidade política: era uma vingança, a materialização da frustração causada pela rejeição de Betsy, a paixão de Travis.

Pela mesma frustração passou o paranoico da vida real John Hinckley, Jr., que tentou (muito), mas não conseguiu conhecer a atriz Jodie pessoalmente. E materializou a derrota com uma solução esquizofrênica: imitar o personagem assassino para chamar a atenção da atriz.

O filme também ajudou a iniciar minha paixão juvenil pela belíssima Jodie Foster.

Mas seu eu tivesse algum grau de comportamento obsessivo ia perder meu tempo: ela gosta é de mulher.



Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 09h05
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Gober venceu o tradicional Grande Prêmio São Paulo de Turfe

O cavalo Gober, de 3 anos de idade, raça Puro-Sangue Inglês, confirmou sua boa forma e ganhou o Grande Prêmio São Paulo de Turfe, dia 19/05/13, no Hipódromo de Cidade Jardim. Sem mais delongas, publico a foto que fiz lá em Sampa. O cavalo que aparece em segundo lugar na imagem é o Ibrahimovic, levando uma boa chicotada do jóquei mineiro André Mendes, formado em Belo Horizonte – no Hipódromo Serra Verde –, agora trabalhando na Gávea. O cavalo-xará do grande jogador de futebol sueco terminou em honroso quarto lugar.

Gober, cavalo PSI



Categoria: Histórico de turfe
Escrito por Márcio às 23h12
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Uma nova teoria: humorismo e sátira estão fazendo estragos nas ditaduras modernas

Humorismo e sátira sempre foram usados para fins políticos, mas não há consenso sobre o seu poder de influência.

A História ensina que muitos líderes mantiveram o poder intacto, apesar de ridicularizados pela mídia.

Historiadores e jornalistas já identificaram políticos que até incentivaram tal forma de crítica, por supor que se prestava ao papel de propaganda indireta, que acreditavam positiva.

Mas dois militantes pacifistas sérvios de nomes impronunciáveis em nossa língua, Srdja Popovic e Mladen Joksic, defendem a teoria da consequência positiva em artigo publicado originalmente no Foreign Policy e traduzido pelo O Estado de São Paulo, edição de 14/04/2013, sob o título “Por que ditadores não gostam de piadas?”:

Os ativistas não violentos de hoje estão provocando uma mudança global nas táticas de protesto, afastando-se de raiva, ressentimento e furor em favor de uma forma nova e mais incisiva de ativismo radicada na diversão: o ‘risotivismo’.

Sediaram a análise nos recentes casos do Oriente Médio e do Norte da África.

E ensaiaram uma explicação:

Há uma razão para o humor integrar o arsenal do manifestante do século 21: ele funciona. Primeiro, o humor quebra o medo e constrói confiança. Ele também adiciona um necessário frescor que ajuda os movimentos a atrair novos membros. Finalmente, o humor pode incitar reações desastradas dos adversários de um movimento.

Eles não avançaram – pelo menos nessa oportunidade – na participação da internet como fator de divulgação da sátira política.

O grande veículo contemporâneo de informação já é responsável pelo crescimento das manifestações políticas, principalmente entre os jovens.

O Facebook, por exemplo, é o principal divulgador e aglutinador das flash mobs, as mobilizações relâmpagos de massas humanas.

Para acesso ao inteiro teor do artigo, cliqueaqui.



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 20h13
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João Ubaldo Ribeiro descobriu um plano governamental para eliminar os aposentados e aliviar as contas da Previdência

João Ubaldo Ribeiro está sempre à procura de temas para ilustrar suas colunas dominicais publicadas n´O Estado de S.Paulo, e republicadas por outros jornais Brasil afora.

Descobriu que 07 de abril é o Dia Mundial da Saúde, e aproveitou para gozar os pequenos eventos da administração pública motivados por pretextos vários.

Assim abriu o primeiro parágrafo:

Hoje, cativante leitora, airoso leitor, é o Dia Mundial da Saúde. Eu não sabia, descobri enquanto estava na cozinha, esperando a água do café esquentar e, por falta do que fazer, lendo uma folhinha de padaria pendurada atrás da porta. Imagino que, pelo País afora, devem estar sendo realizados inúmeros eventos oficiais para dar serventia à data, conforme é costumeiro em nossa diligente administração pública. Tomada da pressão arterial na pracinha, fornecimento gratuito de camisinhas à juventude, palestras sobre alimentação sadia e exercícios físicos, caminhadas coletivas em parques públicos, farta distribuição de escovas de dente e lenços de papel e o que mais ocorrer à renomada criatividade nacional, principalmente se render uma propagandazinha comercial, uns votinhos ou um desviozinho de verba maneiro.

Depois resolveu gozar a sua turma, os velhinhos (tem 72 anos) da ilha de Itaparica, situada na Baía de Todos os Santos, estado da Bahia:

Não me informei sobre se certas iniciativas de natureza sanitária, algumas envoltas em controvérsias acaloradas, foram ou serão retomadas este ano. Falha minha, porque bem que eu podia ter dado uns telefonemas investigativos para Itaparica, onde pelo menos dois exemplos são notórios. O primeiro é a questão da vacinação para idosos. Oculta-se entre segredos e cochichos a origem da postura hoje majoritária na ilha, segundo a qual o terceiro-idadista de juízo não toma essa vacina oficial nem que lhe confisquem a dentadura ou acabem de destroncar-lhe o joelho reumático, visto tratar-se tal vacinação de escabrosíssimo plano governamental para eliminar os aposentados e assim aliviar as contas da Previdência e sobrar mais para quem está no poder e precisa se fazer. Há quem sustente que os velhos assim inoculados começam logo a padecer de abestalhamento galopante e, nos meses seguintes, perecem aos magotes, entre risadas dementes, babação caudalosa, tremeliques, caganeiras, águas soltas, ventos soltos e outras aflições deploráveis.

E segue brincando com o tema, incluindo seus habituais personagens fictícios.

Para acesso ao inteiro teor da crônica, cliqueaqui.



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 09h12
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As explosões de caixas eletrônicos vão continuar, bandido gosta de dinheiro vivo

Dou preferência, para abastecer meu carro, a um posto do bairro Esplanada, em Belo Horizonte.

(Optei pela quase exclusividade por medo de combustível adulterado. Como meu carro tem demonstrado boa saúde, sigo freguês. As denúncias sobre tal tipo de crime andam sumidas, mas vão inevitavelmente reaparecer.)

Lá existia um caixa eletrônico do Bradesco; em recente ida ao posto, observei que a cabine inteira tinha sido retirada.

Comentei com o funcionário/bombeiro/frentista:

— Finalmente seu patrão entendeu o risco e desativou o caixa eletrônico!

Acreditando que eu ironizava, ele respondeu:

— O senhor mora perto? Ouviu o barulho da explosão?

Só então descobri porque a cabine desapareceu...

Santa Internet! Através do computador resgatei a história (arrombamento criminoso com o uso de explosivos), que rendeu uma reportagem de quase cinco minutos na tevê local, dia 1º de novembro de 2012.

De formato praticamente inexistente de crime, a explosão de caixas eletrônicos passou rapidamente a corriqueiro.

Quem demorou a compreender o risco pagou caro, pois qualquer equipamento de fácil acesso é um alvo em potencial.

Tentei ilustrar este texto com estatísticas, mas não fui feliz: a mídia geralmente termina matérias sobre violência com a informação de que os órgãos públicos não fazem estatísticas detalhadas.

Tal deficiência de informações é um comportamento generalizado no país, que conta até com a adesão de entidades classistas não governamentais, como é o caso da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), que prefere englobar tudo em “assaltos a bancos”.

Por parte dos gestores políticos, o comportamento é proposital: querem evitar a manipulação de estatísticas negativas pelos adversários. É o feitiço que rebate.

O motivo real não é assumido de público e, quando pressionadas, as autoridades alegam que divulgar dados sobre crimes estimula a recorrência.

Reconheço que possuem uma parcela de razão: a comunicação social tem papel pedagógico para toda a sociedade, e a influência abrange os criminosos, os marginais.

Por outro lado, a falta de informações públicas sobre a gravidade das atividades criminosas amortece a reação social e facilita a inércia administrativa.

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come!



Categoria: Histórico de crônicas e análises
Escrito por Márcio às 10h45
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A sede do Império Brasileiro

O jornalista Laurentino Gomes narra em “1808”, seu livro de estrondoso sucesso, que o Palácio Imperial de São Cristóvão (Rio de Janeiro) foi um presente de um rico mercador de escravos português ao príncipe D. João.

Até então era a sua residência, a mais opulenta da colônia portuguesa.

Evitou o risco de um autoritário confisco (fato que aconteceu com outras residências da cidade) e ainda conseguiu vultosas compensações indiretas pelo desprendimento, bondade, patriotismo...

Na introdução de “1808 - Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”, Laurentino Gomes não traça um bom panorama atual do prédio histórico:

Ali viveu e reinou o único soberano europeu a colocar os pés em terras americanas em mais de quatro séculos. Ali, D. João VI, rei do Brasil e de Portugal, recebeu seus súditos, ministros, diplomatas e visitantes estrangeiros durante mais de uma década. Ali, aconteceu a transformação do Brasil colônia num país independente. Apesar de sua importância histórica, quase nada no Palácio São Cristóvão lembra a corte de Portugal no Rio de Janeiro. A construção retangular de três andares, que D. João ganhou de presente de um grande traficante de escravos ao chegar ao Brasil, em 1808, é hoje um prédio descuidado e sem memória. Nenhuma placa indica onde eram os dormitórios, a cozinha, as cavalariças e as demais dependências usadas pela família real. É como se nesse local a História tivesse sido apagada de propósito.

Fiz a foto abaixo do Palácio Imperial em 2008, mas não cheguei a visitar o seu interior. Faz parte da Quinta da Boa Vista, uma espécie de chácara imperial e sede do governo de D. João e dos dois Pedros que o sucederam.

Palácio São Cristóvão



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 11h04
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José Elias Murad foi o símbolo do combate ao fumo no Brasil

Tive a felicidade de cursar o ensino fundamental na escola pública quando isso significava qualidade.

Em torno de 1970, 1971, cursei por dois anos o inicio do segundo grau no Colégio Estadual Central de Belo Horizonte.

Seus principais dirigentes recebiam uma forma de tratamento que, por tradição, deveria ser exclusiva da universidade: o reitor era o professor Mário de Oliveira e o vice-reitor era o professor José Elias Murad.

O segundo deles seguiu por um voo mais alto na vida pública, cumprindo uma carreira brilhante que se encerrou com o seu falecimento, aos 86 anos.

Selecionei os seguintes trechos da matéria “Morre em BH o ex-deputado federal e ex-vereador da capital José Elias Murad”, publicada no jornal Estado de Minas:

Morreu neste sábado [27/04/2013], em Belo Horizonte [...] o médico e ex-deputado federal e ex-vereador da capital José Elias Murad (PSDB). Murad estava em casa e faleceu em decorrência de uma pneumonia. [...] formou-se em Farmácia e Medicina pela UFMG, especializando-se em Psicotrópicos pela Faculdade de Medicina de Paris, França, e em Bioquímica Cerebral, pela Faculdade de Medicina do Texas, EUA.

Foi também professor na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais e deputado federal por quatro legislaturas (1987-1991, pelo PTB; 1991-1995, 1995-1999 e 2001-2003, pelo PSDB), além de vereador de Belo Horizonte a partir de 2004, por duas legislaturas. No ano passado, ele não concorreu à reeleição.

A atuação parlamentar de Murad sempre se destacou pela defesa da saúde pública, particularmente contra o uso abusivo de drogas. Ele fundou e presidiu ABRAÇO, entidade dedicada ao combate às drogas.

(A reportagem errou em dados biográficos básicos, que excluí do trecho transcrito: ele nasceu em Lavras, em 31/10/1926, no distrito de Ribeirão Vermelho, que hoje é um dos menores municípios de Minas Gerais, mantendo o mesmo nome.)

O deputado federal Rodrigo de Castro publicou no mesmo jornal (07/05/13) um artigo onde relata que Murad contou, num vídeo, que “a caminho da inscrição para o vestibular e em dúvida sobre se fazia medicina ou farmácia, decidiu pegar o primeiro bonde que passasse. Passou o bonde da Faculdade de Farmácia e, três anos depois, estava formado. Passado algum tempo, voltou para pegar o segundo bonde, o da Faculdade de Medicina e, seis anos depois, formou-se médico. Em1959, tomou o bonde rumo à Universidade de Paris para especializar-se em farmacologia; e, em1964, outro para a Universidade do Texas, onde se especializou em bioquímica cerebral”.

E acrescentou que “como deputado constituinte, cravou sua marca na Constituição de 1988 e o principal marco na sua luta contra o tráfico de drogas: o dispositivo que introduziu o confisco das terras onde fosse cultivada maconha ou coca. Outra contribuição sua foi a propositura da lei que restringiu o uso do tabaco e de álcool. Essa lei, por proposta de Aécio Neves, então presidente da Câmara dos Deputados, foi denominada Lei Elias Murad”.

Murad vai ficar especialmente marcado pela mais importante lei nacional sobre o controle do tabagismo; ainda pela via da internet encontrei um artigo técnico, no qual destaco: “um projeto de lei elaborado pelo Deputado Elias Murad buscou regulamentar o artigo 220 da nova carta. Além da regulamentação da propaganda de cigarros, bebidas e remédios, o projeto previa a proibição do uso de cigarros e outros produtos fumígenos em recintos coletivos privados ou públicos, salvo em áreas destinadas a esse fim, devidamente isoladas e com arejamento suficiente. O projeto ressaltava ainda a proibição em repartições públicas, hospitais e postos de saúde, salas de aula, bibliotecas, recintos de trabalho coletivo e salas de teatro e cinema. Somente em 1996, o projeto de Murad se transformaria em lei (Lei 9.294 de 1996)”.

Algum tempo após a edição da Lei Murad, li em algum jornal que a indústria tabagista sentiu tanto o golpe que decidiu usar lobistas – em caráter permanente – para defender seus interesses junto à classe política.

Em outras palavras: comprar deputados e senadores para dificultar novos endurecimentos da legislação.

Minhas leituras e experiências de vida me ensinaram que o fumo é um dos maiores vilões da saúde pública; novas relações com outras doenças têm sido constantemente confirmadas e tenho convicção de que outras consequências maléficas ainda serão descobertas. Talvez mesmo em relação aos males de Parkinson e Alzheimer.

E José Elias Murad foi o maior paladino na luta contra o tabagismo, enfrentando com coragem e determinação a poderosa e capitalizada indústria multinacional do tabaco e seus derivados.



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 10h19
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Dr. Adivinho, também Veterinário (humorismo)

No consultório, o médico pergunta à perua:

— O que a senhora está sentindo?

— Ora... Não é o seu trabalho descobrir? – diz ela, cheia de arrogância.

Então o médico lhe pede que aguarde um instante e traz outro homem à sala.

— Este aqui é o Dr. Ricardo. Só ele, que é veterinário, consegue fazer o diagnóstico sem falar com o paciente!



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 13h40
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O livro sobre o Jornal Nacional, da Memória Globo, confirma o favorecimento a Collor na edição do debate com Lula em 1989

Já comprei muitos livros que não li.

Felizmente são uma minoria, penso que não me enquadro no grupo dos consumistas patológicos.

Normalmente os escolho por temas que são do meu interesse momentâneo, mas a leitura acaba dependente da minha agenda de compromissos da época.

No passado, comprava mesmo quando não tinha planos de fazer uma leitura imediata pois temia a dificuldade de encontrá-lo novamente; hoje esta questão perdeu a importância pois a internet facilita a pesquisa e apresenta variadas opções de compra.

Um caso recente (de compra para leitura tardia) foi o livro Jornal Nacional, A Notícia Faz História publicado, sob o patrocínio da Rede Globo de Televisão (também responsável pela redação), no ano de 2006 pela Jorge Zahar Editor Ltda.

Foi muito badalado à época do lançamento e os críticos entenderam que os editores buscaram a verdade e a imparcialidade, inclusive sobre controvérsias e erros atribuídos à emissora.

Finalmente eu consegui fazer a leitura e considero elogiável a preocupação da Rede Globo em levantar os pontos controversos, publicando até depoimentos críticos, negativos.

Os dois casos que os editores – indiretamente a empresa, já que patrocina o projeto – assumem como erros foram a questão das Diretas Já e o debate final entre Collor e Lula pela disputa presidencial de 1989.

No caso das Diretas Já, os entrevistados – inclusive dirigentes da TV à época – confirmam a ocultação de informações, mas alegam que teriam sido vítimas de pressões e ameaças veladas do regime militar, que ainda controlava o país e escolhia presidentes, governadores e uma série de prefeitos.

Mas o caso mais importante, mais problemático, foi a edição do debate Collor-Lula, ocorrido em 13/12/1989, dias antes do segundo turno das eleições presidenciais.

No Jornal Nacional do dia seguinte foi apresentado um resumo (do debate) francamente tendencioso e favorável aos interesses de Fernando Collor, que acabou ganhando o pleito.

O livro copia, na íntegra, declarações dos comandantes do jornalismo da TV Globo à época, em que eles dão opiniões bastante divergentes sobre o episódio e se digladiam em acusações às vezes duras.

Considero elogiável a preocupação em expor ao público um problema interno, pois a obra publica depoimentos confirmando que a cobertura do debate que beneficiou Collor – o único presidente cassado por corrupção na história da república brasileira – foi profissionalmente incorreta e resultou negativa para a imagem da empresa.

Os editores do livro assim se posicionaram sobre o episódio:

A leitura dos diversos depoimentos, publicados a seguir, comprova que as versões para o episódio são múltiplas e, talvez, sem coincidência entre elas. Impossível chegar a alguma conclusão definitiva sem que se decida, a priori, que a verdade está com um personagem e não com outros. O grande problema para um trabalho como este, que busca reconstituir um momento histórico de tal relevância, é que todos os profissionais envolvidos formam o primeiro time do jornalismo brasileiro e são todos merecedores de crédito. A cadeia de acontecimentos que leva a um episódio é mesmo fluida e reconstituí-la anos depois com base apenas na memória é uma tarefa ingrata. Ainda mais quando o episódio é visto imediatamente depois de ‘acontecer’ como erro por alguns e como acerto por outros. Esse é o típico acontecimento em que a soma das partes não explica o todo. É como a história de quatro testemunhas de um acidente, por exemplo. Cada uma com um ângulo único e parcial de visão: todas contam uma história diferente e ninguém está mentindo — são recortes de um todo que não pode ser apreendido em sua totalidade. A edição do debate é algo semelhante. O resultado está lá, mas é impossível reconstituir como se chegou a ele.

Esses depoimentos foram colhidos também em vídeo e estão disponíveis na internet, na página Memória Globo.

Recomendo a leitura do livro aos profissionais do ramo.

Para acesso ao Jornal Nacional em Memória Globo, cliqueaqui.

E para a ampla cobertura do debate Collor x Lula, sob o título “Erros”, e incluindo os vídeos originais, cliqueaqui.



Categoria: Mídia
Escrito por Márcio às 09h59
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Cuba usa múltiplos formatos e opções de transporte público e privado

Credito ao avanço dos meios de transporte a transformação da sociedade humana no decorrer do século 20, sem dúvida o mais profícuo da História.

Os países que investiram mais e melhor no setor colheram os frutos.

Em situação oposta ficaram aqueles que, por suas particulares razões, não conseguiram obter veículos e construir uma malha rodoviária (e ferroviária) eficiente.

É o caso de Cuba, objeto do pesado jogo de poder das superpotências desde que Fidel Castro assustou o mundo com a adesão ao comunismo e, principalmente, com a crise dos mísseis atômicos soviéticos de outubro de 1962.

Sem capacidade de produção de combustíveis, sem indústria automobilística, sem poder de compra no exterior e submetida a um anacrônico embargo comercial norte-americano, a populosa (quase 12 milhões) ilha caribenha possui um sistema precário de transportes, seja urbano, público, coletivo, rodoviário ou de mercadorias.

Tive a oportunidade de conhecer o frágil sistema em uma viagem realizada em 2005 (sugiro a leitura do meu Diário de um Turista em Cuba, disponível em formato PDF na coluna da direita deste blog, ou pelo link http://marcio.avila.blog.uol.com.br/cuba.htm).

Tirei esta foto do alto da escadaria do Capitólio de Cuba, e a variedade de modelos e idade dos meios de transporte que entraram na imagem permite uma boa ideia da citada precariedade.

Em primeiro plano, estacionados, dois táxis brancos da marca Lada (russa), a única que chegou a Cuba em largo período, e duas charretes. O transporte animal é rotineiro por todo o país.

O amarelinho à esquerda é uma bicicleta-táxi com cobertura. Ainda a partir da esquerda, trafegando pela avenida aparecem um táxi (azul) mais moderno, um táxi amarelo que também parece ser um Lada, depois um velho carro dos Estados Unidos, modelo década de 1940 ou 50. À frente deles um velho ônibus urbano. Ao fundo, um conjunto arquitetônico da virada do século 19 para o 20.

Havana e seus meios de transporte



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 08h56
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Lei de Acesso à Informação faz uma vítima inesperada: a taquígrafa que chamou o pesquisador de fofoqueiro

A mídia divulgou, sem muito alarde, a condenação judicial (indenização financeira) de uma funcionária do Senado que chamou de bisbilhoteiro e fofoqueiro um servidor do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que pesquisou o seu salário.

Weslei Machado foi quem consultou a remuneração da funcionária pública usando o direito concedido pela Lei de Acesso à Informação.

De acordo com uma reportagem publicada no jornal Estado de Minas em 07/04/2013, Weslei “se sentiu ofendido com o comentário dela. Ele entrou com duas ações 11 dias depois de ter travado uma discussão com a servidora por e-mail. Uma ação cível de caráter indenizatório, por danos morais, e uma criminal por injúria, que previa pena de um a seis meses de detenção. Na segunda audiência de conciliação, feita na segunda-feira, já que na primeira não houve acordo, Machado propôs que a funcionária doasse 10% do salário para uma entidade de caridade, medida que ela aceitou depois de consultar o advogado. Assim, os dois processos foram arquivados”.

A título de curiosidade, acrescento a informação sobre o pagamento da indenização:

Pelo acordo, a taquígrafa do Senado terá de desembolsar, em no máximo 60 dias, pouco mais de R$ 1,5 mil para comprar bens de natureza diversa ao Serviço de Estudos e Atenção a Usuários de Álcool e outras Drogas do Hospital Universitário de Brasília (HUB). A servidora terá de entrar em contato previamente com a instituição para verificar quais os itens que deverão ser doados.

E segue também o parágrafo sobre o bate-boca eletrônico:

Em 4 de outubro do ano passado, a servidora do Senado encaminhou e-mail para ele questionando se havia interesse público em saber quanto ela ganhava e chamando a atitude de ‘bisbilhotice’. Minutos depois, Weslei respondeu ao e-mail argumentando que a Lei de Acesso à Informação garantia o direito de fiscalizar, como cidadão, o contracheque dos servidores públicos. Em seguida, a servidora do Senado chamou-o de ‘fofoqueiro’ e ‘bisbilhoteiro’. Em menos de 20 minutos, Weslei respondeu de novo, ‘exigindo respeito e urbanidade no tratamento’. Disse que apenas estava exercendo um direito conferido por uma lei elaborada pelo próprio Parlamento em que a servidora trabalha. Machado ainda ressaltou que o demonstrativo é público e que ele contribui para o pagamento da remuneração. ‘Com o meu suor e o do resto da sociedade brasileira bancamos a manutenção de seu status remuneratório. Por essa razão, tenho o direito de fiscalizar e acompanhar mensalmente a correção dos recursos públicos destinados a V. Sa.’, escreveu no e-mail.

Para acesso ao inteiro teor da matéria, cliqueaqui.

Bisbilhoteiro e fofoqueiro são ofensas tão singelas que fico a imaginar o quanto uma expressão bem cabeluda teria custado para a taquígrafa.

Mas o que mais me chamou a atenção no episódio foi o fato de ela ter recebido a informação sobre o nome e o endereço eletrônico de quem solicitou, legalmente, seus dados.

Se é uma praxe do Senado, seria uma medida – no mínimo – estranha.

Mas, se a informação foi amigavelmente repassada por algum colega que trabalha no setor responsável pela resposta ou encaminhamento dos pedidos embasados na citada lei, aí existe uma grave infração administrativa.



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 14h02
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Sua égua telefonou ontem à noite (humorismo)

Um amante de cavalos de corridas – e de corridas de cavalos – como eu não pode deixar de repassar uma piada equina:

O marido estava sentado, quieto, lendo seu jornal, quando sua mulher, furiosa, vem da cozinha e senta-lhe a frigideira nas ideias.

Espantado, ele levanta e pergunta:

— Por que isso agora?

— Isso é pelo papelzinho que eu encontrei no bolso de sua calça com o nome Marylu e um número.

—- Querida, lembra-se do dia em que fui ao Jockey Club? Pois é... Marylu é o nome da égua em que eu apostei, e o número foi o quanto estavam pagando pela aposta.

Satisfeita, a mulher saiu, pedindo mil e uma desculpas...

Dias depois, ele estava novamente sentado, quando leva uma nova porrada, dessa vez, com a panela de pressão. Ainda mais espantado (e zonzo), ele pergunta:

— O que foi dessa vez, meu amor???

— Sua égua telefonou ontem à noite...



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 11h38
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“Doutor”, como forma de tratamento, é um símbolo de status; em muitos casos exprime arrogância

Em minha juventude (anos 1970), o uso pernóstico da forma de tratamento “doutor” já era tão abusivo quanto hoje.

Um episódio que se tornou paradigmático em minhas lembranças aconteceu em São Paulo, quando eu estava fechando meu curso de veterinária (já em meados da década seguinte): no primeiro de meus vários estágios profissionais junto ao Jockey Club de São Paulo observei que outros estagiários, estudantes portanto, tratavam-se uns aos outros de “doutor”. Ou doutora. Falavam às vezes rindo, como se fosse brincadeira, mas observei que havia um sentido oculto. No fundo, estavam querendo se acostumar ao pomposo título, à expectativa do momento de serem tratados com mais respeito e distanciamento. Queriam a sensação de subir na vida, se destacar na sociedade, ganhar status – sonho que já não parecia tão distante.

Posteriormente, a experiência me obrigou a reconhecer que o uso pode ser aceitável em situações específicas, por causa da resistência de muitos tratadores de animais (treinadores de cavalos, vaqueiros, até proprietários de pequenos animais) ao cumprimento das determinações do veterinário.

A ignorância e a arrogância compõem uma cultura de resistência; o distanciamento e respeito impostos pelo título ajudam em muitos casos.

 Mas o uso frequente do Doutor na sociedade brasileira é, em geral, fruto de uma deformação comportamental, e poderia ser amplamente reduzido...

..ou até eliminado, mas infelizmente isso só ocorreria num quadro idealístico, improvável na complexa sociologia brasileira.

Encontrei na internet um longo, aprofundado e bem redigido artigo sobre o tema, de autoria de Eliane Brum (apresentada como jornalista, escritora e documentarista; autora do romance Uma Duas e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém Vê e O Olho da Rua).

O título é “Doutor Advogado e Doutor Médico: até quando?”.

Extraí os (muitos) trechos abaixo, todos pertinentes à discussão do tema (atenção: não são sequenciais):

Ø  Assim, minha recusa ao “doutor” é um ato político. Um ato de resistência cotidiana, exercido de forma solitária na esperança de que um dia os bons dicionários digam algo assim, ao final das várias acepções do verbete “doutor”: “arcaísmo: no passado, era usado pelos mais pobres para tratar os mais ricos e também para marcar a superioridade de médicos e advogados, mas, com a queda da desigualdade socioeconômica e a ampliação dos direitos do cidadão, essa acepção caiu em desuso”.

Ø  Historicamente, o “doutor” se entranhou na sociedade brasileira como uma forma de tratar os superiores na hierarquia socioeconômica – e também como expressão de racismo. Ou como a forma de os mais pobres tratarem os mais ricos, de os que não puderam estudar tratarem os que puderam, dos que nunca tiveram privilégios tratarem aqueles que sempre os tiveram. O “doutor” não se estabeleceu na língua portuguesa como uma palavra inocente, mas como um fosso, ao expressar no idioma uma diferença vivida na concretude do cotidiano que deveria ter nos envergonhado desde sempre.

Ø  É no dia a dia das delegacias de polícia, dos corredores do Fórum, dos pequenos julgamentos que o “doutor” se impõe com todo o seu poder sobre o cidadão “comum”. Como repórter, assisti à humilhação e ao desamparo tanto das vítimas quanto dos suspeitos mais pobres à mercê desses doutores, no qual o título era uma expressão importante da desigualdade no acesso à lei. No início, ficava estarrecida com o tratamento usado por delegados, advogados, promotores e juízes, falando de si e entre si como “doutor fulano” e “doutor beltrano”. Será que não percebem o quanto se tornam patéticos ao fazer isso?, pensava. Aos poucos, percebi a minha ingenuidade. O “doutor”, nesses espaços, tinha uma função fundamental: a de garantir o reconhecimento entre os pares e assegurar a submissão daqueles que precisavam da Justiça e rapidamente compreendiam que a Justiça ali era encarnada e, mais do que isso, era pessoal, no amplo sentido do termo.

Ø  O “doutor” médico e o “doutor” advogado, juiz, promotor, delegado têm cada um suas causas e particularidades na história das mentalidades e dos costumes. Em comum, o doutor médico e o doutor advogado, juiz, promotor, delegado têm algo significativo: a autoridade sobre os corpos. Um pela lei, o outro pela medicina, eles normatizam a vida de todos os outros. Não apenas como representantes de um poder que pertence à instituição e não a eles, mas que a transcende para encarnar na própria pessoa que usa o título.

Ø  É importante reconhecer que há uma pequena parcela de médicos e advogados, juízes, promotores, delegados etc que tem se esforçado para eliminar essa distorção. Estes tratam de avisar logo que devem ser chamados pelo nome. Ou por senhor ou senhora, caso o interlocutor prefira a formalidade – ou o contexto a exija. Sabem que essa mudança tem grande força simbólica na luta por um país mais igualitário e pela ampliação da cidadania e dos direitos. A estes, meu respeito.

Ø  Resta ainda o “doutor” como título acadêmico, conquistado por aqueles que fizeram doutorado nas mais diversas áreas.

Para quem gostou da amostra, o inteiro teor do artigo – publicado na revista Época em 2012 – pode ser acessado clicandoaqui.



Categoria: Histórico dia a dia
Escrito por Márcio às 11h51
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Márcio de Ávila Rodrigues é médico-veterinário e jornalista. Reside em Belo Horizonte-MG, Brasil, onde nasceu na década de 50.




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